Os que amam de verdade odeiam viver de mentira.

Nessas coisas de amor, você há de concordar comigo que quantidade e qualidade nunca se deram lá muito bem. Aliás, é bem certo que tudo aquilo que é demais cansa. Não sei você, mas eu não aguento essa história de que o amor “só é bom se for muito e transbordar e isso e aquilo…”

Não é possível! Será influência da tecnologia? A gente compra um celular com a tela enorme, logo exige um amor maior que seja páreo para o gigantismo da nossa sanha de posse. Ou tanto se orgulha do computador com a maior memória do mundo que obriga a criatura humana ao nosso lado a fazer upgrades impossíveis em suas qualidades amorosas. Aonde é que isso vai dar?

Sim, porque essa confusão só pode piorar e nos tornar piores. Quem disse que a fórmula “amor bom é amor demais” vale para todo mundo? E desde quando existe “amor ruim”? Amor é amor e amor é uma coisa boa. Ponto. Se não fizer bem, mal não pode fazer. Porque amor que faz mal não é amor. É outra coisa que a gente, por desespero ou pura falta de imaginação, apelida de “amor”. E isso é nada senão uma baita e vergonhosa mentira.

Já viu quanta gente aceitando mentir a si mesma? Sem sentir nada lá no fundo além de um vazio imenso e uma ânsia insuportável por preenchê-lo, o sujeito levanta os braços e grita “pronto, eu encontrei! É com esse que eu vou. Paixão louca, Meu Deus do Céu! Vou amar muito nesta vida e vai ser agora! Vou amar que nem louco, amar até virar um disco do Roberto Carlos. É isso… eu estou sentindo. Estou sentindo, sim. Estou sentindo amor!”

Ai de nós! Como se fosse possível, num estalo, escolher por quem, quando e onde se enlevar de amor verdadeiro, cometemos seguidos equívocos. Escolhemos um cristo e nele despejamos todas as nossas carências de uma só vez. Toma aí! Segura essa! Sem perceber, nos tornamos capazes de olhar a cara do outro e dizer: “você está me amando pouco! Assim eu não quero! Prefiro ficar só. Buáá!!!!”

E saímos berrando, os pés de criança birrenta pisoteando o chão em pirraça, insistindo na existência esquizofrênica do nosso mundo de mentira, cobrando de nossos pares perfeição amorosa, pró-atividade romântica, poderes premonitórios e outras proezas de super-herói. Cegos para o fato de que eles, pobrezinhos, são tão somente seres falhos, tão perdidos quanto nós mesmos e o cachorro que caiu do caminhão da mudança.

Criamos parâmetros impossíveis, sedimentamos exigências inviáveis e nos acomodamos na crença de que aceitar o que o outro nos tem a dar, ainda que o outro nos entregue tudo, é “se contentar com pouco”.

Quem somos nós para determinar o tamanho do amor alheio? Cada um dá o amor que tem e aceita quem quer! Além do mais, se não estiver bom para nós e chegarmos à conclusão de que já não é mais possível melhorar, que sigamos para outra.

Que história é essa de obrigar o amor? O amor não é obrigado a nada! Que tipo de maníaco, de maldito tarado há de achar que se pode amar na marra?

“Olha! Você deve me adorar assim, tá? É desse jeito que eu quero, sob o risco de eu achar que você está me amando pela metade, ou me amando um terço ou só um tiquinho e aí, já viu, vou enfiar minhocas enormes na minha cabeça, cobras peçonhentas, aranhas caranguejeiras e achar que sou pessoa mal acompanhada e essas coisas. Abre o olho! Você precisa me amar mais ou eu prefiro ficar só. É você quem sabe!”

E então nos tornamos isso. Chantagistas emocionais baratíssimos, atentando contra nossa própria dignidade, jogando baixo com aqueles que deveríamos compreender ou simplesmente largar o osso e deixá-los ir.

Sabe, eu tenho a impressão de que amor é coisa que a gente procura, sim, vai buscar, faz por merecer, mas que no fundo vem porque quer, quando quer, onde quase sempre a gente não espera. Uma vez chegado, a gente cuida. Amor se vive, se faz. Não se cobra como as parcelas do carro e da casa.

É amor ou não é. Pronto. Pavorosamente simples assim.

Verdade é que até agora não se pode enfiar amor à força no coração de ninguém. Eu sinto muito, mas os prodígios da ciência ainda não inventaram inseminação artificial para isso.

Repare bem. O mundo anda cheio de criaturas apregoando com a maior cara de santas, sob uma auréola luminosa: “eu não peço demais, só quero respeito e cumplicidade…” enquanto por dentro esgoelam “EU EXIJO QUE VOCÊ PARE TUDO QUE ESTÁ FAZENDO AGORA E RESPONDA JÁ A MINHA MENSAGEM OU VOU ACHAR QUE VOCÊ NÃO ME AMA MAIS!!”

E se isso não acontecer, se a tal reciprocidade fantasiada não se concretizar feito a fada madrinha empunhando uma vara enorme e amarela, a pessoa vai se achar preterida e mal amada. Vai dizer isso com os olhos lacrimejando e um tom de voz de gente esclarecida, compreensiva e evoluída enquanto represa em seu lá dentro uma fúria troglodita, um tacape em punho, pronta a largar uma porretada na cabeça de seu alvo amoroso e arrastá-lo para casa, onde irá amá-lo e respeitá-lo até que a morte ou uma vontade estranha de ir ao banheiro sozinha os separe.

Deus me livre, mas eu tenho a impressão de que a escassez enorme de amor que nos acomete também vem dessa mania bitolada de categorizar e racionalizar e rotular um sentimento nobre que, acossado por uma multidão de carentes ensandecidos o pressionando, desaparece e dá lugar a seu irmão gêmeo: o ódio de quem acha que amar e ser amado é mera responsabilidade alheia.

Falta amor, sim. Mas sua falta começa é aqui dentro de cada um de nós. Não na pobre da outra pessoa que escolhemos “amar”. É muito fácil acusar o outro de amar pela metade sem se dar conta de que nós lhe damos menos ainda. Tão simples reivindicar da vida “mais amor, por favor”, enquanto nos escondemos em trincheiras de ódio e desconfiança e preconceito.

Se é possível falar em culpa, ela é nossa. Muito nossa. Não das redes sociais e dos aplicativos de relacionamento como querem os gênios de plantão, vomitando o óbvio como se fossem descobertas incríveis.

Passou da hora de descermos do trono ridículo de especialistas da alma humana e assumir nossa imperfeição dolorosa de bichos carentes, famintos, fuçando as frestas à procura de um amor que nos valha, nos justifique e nos eleve.

Não tem fórmula mágica. Decerto, o amor do outro só começa quando encontramos o nosso aqui dentro e o cultivamos mais tarde, em algum lugar entre a desordem das paixões loucas e a vida ordinária. Cada um descobre o seu. E quando inventarem um mapa que nos leve até lá, será outra mentira deslavada.

Agora, se você me permite um tantinho de esperança, eu ainda sinto alegria de imaginar que amor de verdade é coisa que a gente alcança no caminho, quando aceita viver um dia depois do outro com menos frescura e mais leveza, menos má vontade e mais sentimentos honestos, menos indiferença e mais empenho. Menos balela e muito, mas muito mais vergonha na cara, por favor.

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André J. Gomes
Jornalista de formação, publicitário de ofício, professor por desafio e escritor por amor à causa.



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