Os pais educam. A escola também.

Por Elika Takimoto

Não concordo de forma alguma com frase “os pais educam e a escola ensina”. Primeiro que acho que a grande maioria das escolas não ensina nada e sim adestra o aluno a fazer prova. Entre fazer uma boa prova e aprender efetivamente um assunto, segue daí uma distância infinita. Depois penso que a maior educação que podemos dar é o exemplo e isso um bom professor pode ajudar e muito.

Eu sou professora de física e completamente apaixonada pela literatura. Na minha biblioteca, os livros competem entre si nos temas. Há tantos livros de ciência como há de romances, crônicas e contos e também de religião. Enfim, sou amante da leitura e, como todos sabem, também da escrita.

Quando chego para dar a minha aula de física, peço para que os meus alunos coloquem na mesa o livro que estão lendo. Tenho vários motivos para fazer isso: o primeiro é que quero, de fato, saber o que eles leem. Mas há outras razões: quando uma diversidade de livros começam a aparecer, é normal que eles olhem os livros que os colegas estão se distraindo. Animal curioso que nós somos, não raro vejo eles pedindo para dar uma olhada no livro do amigo. E temos absolutamente de tudo: Paulo Coelho, 50 tons de Cinza, Harry Potter, Stephen Hawkings, Clarice Lispector, Gregório Divivier…

Conforme o ano vai acontecendo, a quantidade de alunos que leem aumenta perceptivelmente. E todos os anos percebo esse fenômeno acontecer. Se antes 30% colocavam um livro na mesa, percebo rapidamente mais de 50% da turma lendo dois meses depois das aulas terem iniciado. Na verdade, eles podem estar me enganando para eu ficar feliz, mas não acredito que sejam todos gaiatos assim.

Vale observar: não acho que quem não lê seja burro. Longe disso. A minha defesa pela leitura não é para a pessoa ficar mais inteligente, pois eu leio muito e tenho tremendas limitações de raciocínio. Acredito que lendo nos distraímos de forma saudável e um universo se abre diante dos nossos olhos. É um hobby como outro qualquer, mas muito fácil, barato, viciante e sem nenhuma contra-indicação. Se benefícios trouxer como passar a ver o mundo com mais atenção, escrever melhor, compreender um assunto com uma maior profundidade, ficar mais articulado e mais concentrado… tanto melhor.

Ler é um hábito. Se os pais não leem, dificilmente o filho gostará desse passatempo. Mas, se na escola ele percebe que outros da mesma idade que ele conseguem se divertir e crescer de uma certa forma pela leitura é natural que esse desejo e a curiosidade o dominem.

A leitura é, sobretudo, uma fonte inesgotável de prazer, penso eu. Dando bom dia dessa forma para meus alunos faço com que muitos deles sintam essa sede e passem a beber dessa fonte. O exemplo é dado não por mim, professora, e sim pelos próprios companheiros de turma.

A escola serve sim senhor para educar ao permitir que esse tipo de coisa – dentre outras tantas – aconteça.

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– Segunda colocada no 1º Prêmio Saraiva: Literatura, categoria: crônicas.– Doutora em Filosofia pela UERJ.– Mestre em História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia pela UFRJ.– Graduada em Física pela UFRJ, professora de Física do CEFET/RJ.– Autora dos livros:1- História da Física na Sala de Aula – publicado pela Editora Livraria da Física.2- Minha Vida é um Blog Aberto – será lançado agora no segundo semestre pela Editora Saraiva.3- Isaac no Mundo das Partículas – livro infantil sobre Física de partículas e filosofia da ciência para crianças. Ainda não publicado.4- Como Enlouquecer seu Professor de Física – um livro sobre Filosofia da Ciência para jovens e adultos. Ainda não publicado.5- Filhosofia – um livro de crônicas sobre seus três filhos, ainda não publicado.6- Tenso, logo escrito – um livro de crônicas escritas motivadas pelo sofrimento. Ainda não publicado.7- Penso, logo escrito. – um livro de crônicas onde há muitas reflexões. Não publicado.8- Eu conto – Um livro de contos. Ainda não publicado.9- O que há de Metafísica na Física? – A sua tese de doutorado que futuramente virará livro.



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