Os ceguetas somos nós

OS CEGUETAS SOMOS NÓS

(Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara)

A.E.C Souza

Nós temos medo do escuro. As criancinhas têm medo quando a luz apaga e o breu invade seu quarto por inteiro. A cama envolta na escuridão faz com que o choro seja a única saída. Os monstros debaixo da cama são a consubstanciação do terror. É Instinto. O ser humano não gosta do escuro, não gosta de se sentir só, não aceita ter de viver sem as luzes guiando sua vida, sem enxergar cada passo, rosto, cada gesto e até cada sentimento. Os olhos, em perfeito estado, dão ao homem a confiança no que ele é e no que os outros ao seu redor devem ser, fingem ser. A falta de luz, a córnea desmantelada, um olho sem função condenam o indivíduo ao declínio de sua condição de ser humano plenamente capaz. São tidos como inválidos, ceguetas, dignos de cair no esquecimento. A cegueira negra não desperta no homem coisa além da loucura ou menor que a própria insanidade. Ele corre atordoado, primeiro no mundo físico e depois dentro de si mesmo. A cegueira consome os olhos e em seguida leva o espírito para longe com uma tragada só. A cegueira torna o homem ciente de sua fragilidade. Conhecedor do próprio medo. A escuridão é o fim enquanto a brancura é salvação. Não é por menos que é atribuído ao bem, ao paraíso, ao céu, a pureza do alvo e ao mal, ao fim, ao inferno, o terror das trevas.

Nós preferimos a luz. No entanto, como proceder quando a cegueira da qual falamos não consiste na escuridão, mas sim na brancura constante, alucinante e total? Sim, amigos, falo em  uma cegueira leitosa, onde o homem está sujeito ao medo daquilo que mais o acalma, que mais o deixa seguro de si, mas ainda assim, cega. É nesse sentido que José de Saramago brilhantemente desenvolve a vida literária de suas personagens na obra ”Ensaio Sobre A Cegueira”, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura. Os cegos são partes de nós.

A trama se desenrola quando um motorista, parado no trânsito esperando o sinal mudar para o verde, se vê instantaneamente cego. A sensação é como se estivesse mergulhado em um copo de leite, claro, luminoso, viscoso. Os cegos devem estar enganados já que dizem que a cegueira é escura, pensa o motorista, o que vejo é branco.  Os impacientes condutores, que esperam o carro se locomover uma vez que o sinal mudou, buzinam freneticamente, mas percebem que nada acontece. O carro está lá. Está parado. Dentro dele alguém nota um homem desorientado, em pânico, murmurando coisas inaudíveis até que, em dado momento, alguém percebe um movimento recorrente dos lábios. ”Estou cego”, dizem seus lábios através de gestos precisos. O mal branco faz a sua primeira vítima. Primeiro um motorista, em meio ao caos do trânsito de uma grande cidade. Um caso banal. Um médico oftomologista, enquanto folheia os seus livros para descobrir algo sobre o mal que acomete seu primeiro paciente, o motorista/primeiro cego, se vê imerso na brancura de um copo de leite. Está cego, ironicamente cego. Um caso brutal. Assim, vítimas de uma cegueira branca, todos se encontram diante de uma situação assustadora e de um dilema humano que é rotineiramente vivenciado. Todos estão cegos. Todos estão sozinhos. A lei que costumava reinar apenas na selva agora também se aplica à cidade. É cada um por si e o Estado contra todos. O governo, que deveria prover, não faz outra coisa senão determinar que todos os infectados, cegos, e contagiados, os que tiveram contato com os cegos sejam depositados um manicômio de forma temporária, até que haja uma explicação plausível, uma cura, uma forma de parar o mal branco. O alto falante, durante os primeiros dias, trazia as instruções e as justificativas para aquele comportamento.

O Governo lamenta ter sido forçado a exercer energicamente o que considera ser seu direito e seu dever, proteger por todos os meios as populações na crise que estamos a atravessar, quando parece verificar-se algo de semelhante a um surto epidémico de cegueira-provisoriamente designado por mal-branco – e desejaria poder contar com o civismo e a colaboração de todos os cidadãos para estancar a propagação do contágio – supondo que de um contágio se trata. Supondo que não estaremos apenas perante uma série de coincidências por enquanto inexplicáveis (Página 24)

Nenhuma comunidade, por mais cega que ela seja, vive sem regras.  Mesmo naquele microcosmo deviam existir certos comportamentos a serem observados a fim de garantir o mínimo de dignidade aos encarcerados. Logo até isso cessou. Logo eles estavam sozinhos, apesar de uns terem o carinho, a solidariedade e até os olhos emprestados dos outros. Também isso não dura muito. As relações e convenções sociais começam a ser desconstruídas a partir do primeiro fornecimento das rações. O homem cego começa a mostrar a selvageria que os a visão esconde. Estão condenados.

Lá, na câmara, o homem começa a demonstrar suas várias cascas, cores, rostos, sons, máscaras, imundices. Os novos cegos são curiosos e pouco falantes. Se adaptam bem. São únicos. Cegos perdidos na brancura que mais tarde se revela seu verdadeiro encontro com aquilo que são; homens não são mais apenas homens, estão em meio a uma categoria híbrida. Homens e bichos. Homens porque ainda pensam e bichos pois não encontram mais razão e nem seguem princípio além da proteção do que é seu, além do desejo de sua carne e das necessidades de seu corpo ainda mais fragilizado.

A abordagem não apenas gira em torno do medo de inesperadamente deixar de enxergar, de perceber o mundo como se julga que ele é, sobre como é ter e perder o que lhe era natural, mas a obra também deixa claro que no momento em que se torna cega, a personagem automaticamente se torna também invisível. Cego para si, cego para o mundo. Isso pode ser afirmado ao perceber a reação dos cegos aos outros cegos ,companheiros de câmara,  no quê diz respeito às necessidades fisiológicas e aos mortos decorrentes do ambiente insalubre ao qual os contagiados e infectados foram abandonados. Claro que, em um primeiro momento, os mortos são enterrados devidamente e as necessidades feitas em latrinas, locais indicados, mas, ao passo que mais cegos aparecem, que as relações sociais ganham complexidade, a sensibilidade dos infectados é dilacerada pela cegueira e suas conseqüências. Logo não se enterra mais os mortos, não apenas porque se trata de um trabalho quase impossível dadas as condições dos coveiros, mas porque a morte não importa mais. É habitual. Para uns é até melhor do que viver na agonia da cegueira leitosa.  Logo não aliviam mais onde é devido, mas em qualquer lugar, pois pouco importa o que se faça, ”ninguém verá”.  Aos poucos os cegos viram bichos que não podem ver. Bichos, apenas.

Saramago utiliza uma ”cegueira branca” e contagiosa como metáfora orientadora da obra, justamente por ser uma alegoria das mais felizes no que diz respeito à condição dos homens quando ”vítimas da convivência”, ou seja, quando os membros do microcosmos são colocados lá contra a sua vontade.  Seria o medo, não do que temos como escuridão, mas do que temos como nítido e bom.  O medo de confiar o outro e em si mesmo é o foco da discussão. Até que ponto os sentidos são aliados e até que ponto a visão é desimportante? Ficar cego na obra do português seria apenas uma condição social e não teria apenas uma implicação meramente física. Quando colocados os novos cegos em um ambiente comum, eles percebem que lá sozinhos estão e assim exprimem em suas falas toda a fragilidade que o homem cotidianamente esconde até dele mesmo pelo simples pudor de ser notado. Ali os homens estão vivendo como no princípio de sua criação. Cada um busca o que satisfaça melhor suas necessidades. Não existe confiança no outro, pois a cegueira leva embora também o discernimento. Primeiro os menos esclarecidos e em seguida os que possuem um  maior grau de instrução, são tomados por instintos primitivos. Falam que não é possível viver sozinho, que o ser humano é um ser social, que deve viver em comunidade, mas esquecem que algumas vezes o homem é privado de integrar a sociedade, de ter voz ativa, de escrever a própria história por outros homens. Não passam de cegos manipulados pelos que, igualmente cegos, se adaptam melhor à condição e conseguem coercitivamente impor suas vontades. Saramago deixa isto claro ao colocar na obra uma espécie de gangue de cegos que troca comida por bens que ali deveriam ser considerados de segunda necessidade, ou seja, dispensáveis (jóias, relógios, dinheiro) e tem como aliado um ”antigo cego”, ou seja, um cego que não enxerga a brancura, mas a escuridão, um cego que foi doutrinado desde criança para sobreviver sem os olhos. Eis  importância dos que vêem, dos que mesmo de maneira reduzida, vêem e são capazes ainda de sentir o mundo a sua volta e a hostilidade das pessoas sem precisar enxergar o que está acontecendo. Os homens geralmente se escondem sob os personagens se criam, quando cegam perdem também a capacidade e a vontade de fingir.

Em termos de linguagem, corrobora com a semântica um recurso bastante interessante para a dinâmica da obra. O escritor não atribui nomes aos personagens, mas se refere a eles usando expressões que denunciam o que as próprias personagens julgavam ser  quando ainda não compartilhavam a condição de infectados pelo mal branco. O médico, a mulher do médico, a rapariga de óculos escuros, o primeiro cego/o motorista, o ladrão, o velho da venda preta, o rapaz, o farmacêutico, a camareira. No decorrer  da obra essas alcunhas começam a ser substituídas por um único adjetivo que claramente expressa o que todos ali são, cegos. Não mais uma condição, mas aquilo que os define agora é a própria cegueira branca. Logo não há distinção entre o médico, o ladrão, o motorista ou qualquer outro, todos que lá estão experimentam a mesma cegueira e são igualmente privados do mundo, logo, no seu novo universo, não passam de cegos.

As mulher  também ganha  papel de destaque na obra de Saramago, uma vez que é uma mulher a única que, em meio aos cegos, consegue milagrosamente não ser afetada pelo mal branco estando assim em condições de perceber como estão vivendo os demais e como deveriam viver. A mulher que vê  está sujeita a um dos maiores dilemas da trama. Fingir ver e ser parte igualmente débil da câmara ou anunciar que é capaz de enxergar e se sujeitar, ou aos mais diversos abusos, ou à expulsão do manicômio em virtude de sua falsa condição. As duas situações não são atrativas. Então, discretamente, tenta, em prol dos outros cegos, estabelecer o mínimo de ordem possível. Em diversas passagens a personagem enuncia o que vem a se tornar sua máxima. “Se não formos capazes de viver inteiramente como pessoas, ao menos façamos tudo para não viver inteiramente como animais”. A mulher vê a imundice, os corpos jogados pelo chão, as pessoas agindo como animais satisfazendo seus instintos primitivos, a falta de palavras, a falta de carinho. É exaltada a sensibilidade da mulher, tanto daquela que não pode ver e cuida dos outros infectados, fazendo o possível para que estes não se comportem inteiramente como animais, quanto daquela que usa óculos escuros (é cega) e cuida de um rapaz que chama pela mãe dia e noite.

A crítica à sociedade está presente em todo o livro em consonância com os dramas filosóficos das personagens, sobretudo das mulheres, que não possuem mais a capacidade de discernir. A sobrevivência é o que importa. O que aconteceria se você cegasse?  Acreditaria se eu dissesse que também você está cego? Sobreviveria? Conseguiria enxergar?

Nossa cegueira não é branca nem escura, não é leitosa ou assustadora, não é sequer perceptível. Estamos cegos apenas diante uns dos outros. Há os visíveis, de paletó, gravata e sapato de couro legítimo e os invisíveis que andam paupérrimos pelas esquinas e sinais fazendo malabarismos em troca de centavos ou comida.  Atrás do volante do teu carro parado no sinal, quando limpam o teu vidro com esfregões e detergente dentro de uma garrafa pet, pode ser que você também tenha cegado tal como sucedeu ao primeiro cego. Talvez tenhamos um pouco de primeiro cego da mesma forma que temos um pouco do médico oftomologista, uma vez que apenas observamos, falamos e propomos soluções mas, quando o problema muda e  nos acomete, não sabemos sequer resolvê-lo e também do sentimento de culpa que aflige a rapariga dos óculos escuros. Nossos próprios conselhos, dados aos outros na mesma condição, são agora insuficientes. Os ceguedas sem bengala, cão guia ou óculos escuros somos nós. Os ceguetas de olhos perfeitos somos nós.  Os cegos mostram que a sociedade que não os vê , têm mais defeitos na córnea do que pensa. Os ceguetas, que somos nós, parecem ter problemas de percepção e de sensibilidade.

Nota: O texto acima foi publicado nesse espaço com a autorização do autor.

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA
Na imagem uma cena de “Blindness”, a adaptação do livro “Ensaio sobre a cegueira ” para o cinema

Sobre o autor

”Theu Souza não sabe se é escritor ou se finge ser. Pensa que compor às vezes não seja o bastante para merecer a alcunha de alguém que maneja as palavras. As palavras que o movimentam e ele prefere assim. Gosta de todas as coisas que não acabam, não pausam e não recomeçam. É, ele é um amante eterno do infinito, um admirador de suas voltas, de seus ciclos viciosos, das linhas que ele, como verdadeiro poeta, compõe todos os dias, desde antes dos homens serem homens e das crianças berrarem pela primeira vez. Porque antes de tudo, antes do mundo, houve uma palavra que deu a vida a todas as coisas, transformou o pó em carne e o sonho em coisa real. É um geminiano que segue esperando que os dias melhorem e que a poesia aflore nesse asfalto de descrença que vem tornando nossos dias tão cinzentos quanto uma São Paulo irrespirável e apressada.”
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