Os “antes” e os “depois” que marcam a nossa história

Por Carolina Vila Nova

Há muito tempo sou adepta dos anos contados em histórias. Ninguém conta a vida de verdade em anos. Não são, por exemplo, trinta escolas, trinta casamentos, trinta amigos e trinta tristezas. Até podem ser trinta anos, mas não são os anos que nos trazem significados. E sim as dores, as marcas que a vida deixa e nos faz contar e recontar o que aprendemos com elas.

Já faz tempo eu percebi que de fato, o que marca a nossa vida são as dores. O antes e o depois de um casamento. O antes e o depois de uma doença. O antes e o depois de um grande amor ou uma perda. As tristezas nos marcam como ferro, em feridas que ninguém vê. Em dores que ninguém mais sente.

Porém, a vida também nos marca com momentos suaves e que também registram o passar dos anos. Na verdade, acho que na maioria das vezes, nem sabemos em que ano estamos. Apenas lembramos: “quando eu tive aquela amiga, eu ria com a alma”. “Depois que tal pessoa passou pela minha vida, eu nunca mais fui a mesma”. Ou ainda: “depois de um determinado trabalho, aprendi tanto que passei a ser dona de mim”.

Felizmente a vida não nos marca só com frustrações. Mas também nos marca com amores, amizades e aprendizados que levamos uma vida inteira. O jeito que alguém nos ensinou a gargalhar em voz alta. O desejo que alguém um dia nos teve, nos ensinando a não aceitar nada em temperatura amena. A amizade firme e sincera que nos mostra quem somos de verdade: seres prontos a serem amados assim, exatamente como somos, sem nada para tirar, nem por.

Na minha vida há muitos antes e depois. O antes e depois de ser mãe. O antes e depois de ir para a faculdade de jornalismo, que me marcou mais do que a própria universidade na qual me formei.  O antes e depois das grandes paixões.

Em meu caminho há muitas marcas: marcas na minha alma, marcas em meu rosto, em meu corpo e em minhas memórias. Em formas de dores que ninguém vê. Mas também em centenas de risos que só eu escuto. E em gestos que só eu sinto.

Hoje nem sei dizer quantos significativos antes e depois existem em minha vida. Certamente muito mais do que os anos que possuo. E espero, muito menos do que ainda hei de ter. E além de tantos antes e depois, também há os que nunca se contam, tamanha a dor que eles representam.

Mas entre tantos antes e depois, sempre há um melhor e um pior de mim. Um que fica para trás e outro que vive no presente.

E sentimento bom mesmo é saber, que lá na frente é sempre melhor.

Depois dos “depois” é sempre algo melhor do que os “antes”.

E assim seguimos adiante!

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Carolina Vila Nova é brasileira. Tem cidadania alemã, 40 anos. Escritora e Roteirista. É autora dos seguintes livros: “Minha vida na Alemanha” (Autobiografia), “A dor de Joana” (Romance), “Carolina nua” (Crônicas), “Carolina nua outra vez” (Crônicas), “Vamos vida, me surpreenda!” (Crônicas), “As várias mortes de Amanda” (Romance), “O dia em que os gatos andaram de avião” (Infantil), “O milagre da vida” (Crônicas) e "O beijo que dei em meu pai" (Crônicas). "Nosso Alzheimer." (Romance), Disponíveis na Amazon.com e Amazon.com.br



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