O tempo voa. Será?

Por Maria Cristina Ramos Brito

Vivo ouvindo o comentário que o tempo parece estar acelerado, passando cada vez mais rápido e deixando de lado (ou para trás) projetos e sonhos, abandonados por necessidades mais urgentes, como pagar as contas e cumprir prazos no trabalho ou na escola. Faz-se o que é preciso e cobrado naquele momento, para amanhã encarar outras tarefas. Isso contribui para a impressão de que não se tem tempo para nada: sem intervalos de ócio, como perceber o que está à volta e se dedicar a sonhos? A percepção do tempo depende de como ele é usado, e o que se faz com ele causa a sensação de plenitude ou falta.

Complicado, não é mesmo? Porque teria que existir uma programação ou estilo de vida que proporcionasse a percepção de aproveitamento ótimo do tempo, e a ciência ainda não conseguiu isso. Tudo que podemos explicar diz respeito àquelas pessoas que parecem estar sempre atrasadas para a vida, esperando por um momento mais favorável, que as coisas mudem e as soluções surjam milagrosamente. Indivíduos com características de perfeccionismo ou baixa resiliência, com muitos ou poucos objetivos, e que vivem à espera de condições ideais, desistindo ao primeiro obstáculo. Desanimar é bastante natural, ninguém pode ser otimista o tempo todo, mas quando, repetidamente, se desiste ao primeiro sinal de dificuldade, e opta-se por uma atitude passiva diante dos problemas, é indicado refletir a respeito.

Esse comportamento de adiar decisões e ações é conhecido como procrastinação. Se todos, em algum momento, priorizam tarefas e compromissos, deixando de lado o que consideram pouco importante e adiando pequenas tarefas, cuja conclusão não representa prejuízo para o andamento da vida cotidiana, quando tal comportamento se torna padrão vira problema. Acomodar-se num trabalho o qual não se aprecia ou não possibilita crescimento para melhores posições; postergar o aprimoramento acadêmico, por falta de autoconfiança e medo do fracasso; permanecer em uma relação afetiva insatisfatória ou sem futuro por receio da solidão; e até questões que envolvem a saúde, como sentir dores e desconforto e evitar a ida ao médico, são atitudes que causam sofrimento e danos em todos os setores da vida.

A origem da procrastinação está na baixa autoestima, na ansiedade, na depressão, na impulsividade que alimentam os medos e a autossabotagem, e não deve ser confundida com preguiça, pois suas causas são mais profundas e estão ligadas a questões emocionais e psicológicas. Para vencer a procrastinação, é preciso investir no autoconhecimento, começando por descobrir o que leva a ela. O primeiro passo é questionar se as escolhas profissionais e pessoais foram feitas seguindo as próprias inclinações ou por influência da família, por crenças de sucesso ou bem-estar desenvolvidas a partir de modelos e reforçadas pelo meio ambiente, desconsiderando os desejos reais.

Se o tempo voa quando se faz algo agradável que não se quer que acabe, como uma viagem longamente sonhada, ele também parece escorrer pelos dedos nas situações em que não se está comprometido de corpo e alma. Para se tornar produtivo e realizado, recomenda-se, para início de mudança, descobrir o que se quer e perder o medo de arriscar. E mãos à obra, porque, como diz o poeta, o tempo não para.

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Maria Cristina Ramos Britto
Psicóloga com especialização em terapia cognitivo-comportamental, trabalha com obesidade, compulsão alimentar e outras compulsões, depressão, transtornos de ansiedade e tudo o mais que provoca sofrimento psíquico. Acredita que a terapia tem por objetivo possibilitar que as pessoas sejam mais conscientes de si mesmas e felizes. Atende no Rio de Janeiro. CRP 05/34753. Contatos através do blog Saúde Mente e Corpo.



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