O silêncio sabe mais

O silêncio aparentemente nos joga na melancolia e por isso mergulhamos num poço de ruídos para nos afastarmos dela. Porém, é justamente o silêncio um dos caminhos necessários para se desvendar a própria alma.

“Sua casa é muito quieta. Se eu morasse aqui ficaria deprimida”.

Vivendo num bairro um pouco afastado, já ouvi essa frase algumas vezes e até mesmo aqui numa cidade pequena do interior parece que lidamos muito mal com o silêncio nesses tempos atuais.

São dias tão dinâmicos, velozes e intensos, que há um ruído constante ao longo de toda a nossa rotina. Smartphones, trânsito, gente que fala compulsivamente, youtube, música em todos os lugares, mensagens de voz no whatsapp, tv sempre ligada etc e etc e etc.

Em sua origem, esse ruído atual é mais gerado pelas novas tecnologias que pelo hoje anacrônico contato entre pessoas cara a cara, e nesse sentido, há aqui uma relação curiosa: ao mesmo tempo em que esse ruído nos é imposto pela vida moderna, nós o buscamos para aplacar a sensação de solidão que estranhamente o silêncio passou a representar.

Contudo, de onde se tirou a ideia de que a solidão se relaciona diretamente com o silêncio ou com o ruído? Deveriam então as cidades barulhentas conhecer a solidão apenas como uma lenda, e as zonas rurais silenciosas, como uma verdadeira pandemia?

Nem mesmo um simples deslocamento do ponto A ao ponto B é feito sem ruído; sempre haverá música tocando no carro ou no fone de ouvido, seja qual for o seu motivo: ida ao trabalho, ao mercado, jogging, viagem.

A música, que era um deleite privilegiado das classes altas europeias séculos atrás, hoje limita-se a ser um pano de fundo para uma atividade qualquer ou simplesmente para nos proteger das vozes e dos sons de todas as demais pessoas que estejam em volta no restaurante, nas ruas, no metrô.

A mesma música que ouvimos para sermos salvos do fosso da solidão do silêncio, é a música que nos coloca mais fundo nesse mesmo fosso por justamente nos isolar do contato com outras pessoas. E não há nada de surpreendente nessa contradição, pois essa última palavra é a ordem do dia!

Nesses tempos em que o conhecimento geral das pessoas parece ser mensurável pela quantidade de aforismos banais e sem sentido que elas postam bovinamente nas redes sociais, vemos que todos pregam a busca de uma identidade própria, única, numa auto-afirmação obsessiva por autenticidade e originalidade. Penso que tudo isso só pode ser alcançado por meio de uma noção vaga de autoconhecimento (existe autoconhecimento pleno?), que só é obtida por meio de dúvidas, de confrontos, de frustrações, de grandes dores também acompanhadas de grandes e merecidas vitórias, e dentre muitas outras coisas, de coragem para refletir.

E esse caminho nunca terá como fundo uma trilha sonora da Disney, ou o ruído confuso das ruas movimentadas, ou os assovios do whatsapp, ou as vozes que falam demais por não terem nada de significativo a dizer, porque o autoconhecimento é sério, é pesado, é lento, é…silencioso.

O silêncio então se limita a nos conduzir por caminhos que mais ou menos já existem mas que ainda não foram devidamente explorados. Se serão caminhos felizes ou melancólicos, esse é o grande mistério que habita em cada um de nós.

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Fábio Moon
Num mundo digital, porém pensando, agindo e sentindo ainda de forma analógica.



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