O real e o virtual: a grama do vizinho é realmente mais verde?

Muito se tem debatido sobre as mudanças sociais provocadas pela internet. Um dos aspectos que tem mobilizado os profissionais de saúde é a dependência de tecnologia. A dependência de internet inclui-se na lista de compulsões, que são definidas como um comportamento repetitivo, frequente e excessivo, cujo objetivo é obter gratificação emocional e alívio para ansiedade ou angústia. É diagnosticada quando a rotina da pessoa passa a ser comandada pelo computador e afins, mudando sua rotina e fazendo-a negligenciar as relações afetivas e sociais, o trabalho e outras formas de lazer. Quer seja por tecnologia (computador, celular etc.), comida, compras, substâncias (tabaco, álcool e drogas), jogo, sexo etc., a compulsão, se não tratada, causa sofrimento e prejuízos em todas as áreas da vida do indivíduo.

Em qualquer caso, o problema não é o instrumento, que, por si só, é inerte, mas o uso que se faz dele. No caso da internet, por exemplo, é o tipo de relação que a pessoa estabelece com ela que define o uso como saudável ou nocivo. O mundo do faz-de-conta, que alguns estão criando para si mesmos nas redes sociais, é um dos aspectos de tempos em que o ter se sobrepôs ao ser. A busca por reconhecimento e destaque passa pela demonstração de conquistas, exposição de uma existência permanentemente interessante, com viagens e compromissos de dar água na boca, vida afetiva de matar de inveja, uma festa constante. Aí temos dois fenômenos: de um lado, a pessoa que inventa ou, na melhor das hipóteses, melhora um pouco sua vida real; e, de outro, a que lê e acompanha tanta felicidade e se sente fracassada e excluída, incompetente para fazer parte de um universo tão glamouroso, ao se comparar com tantos indivíduos felizes e bem-sucedidos no espaço virtual, isso gerando nele sensação de incompetência, que, com o passar do tempo, e o aumento da frustração, pode provocar o desenvolvimento de sintomas de transtornos de humor.

Quando se pensa que tanto a depressão quanto a ansiedade podem decorrer de situações concretas, como perdas de pessoas queridas ou de emprego, traumas e conflitos interpessoais, entre outras causas, percebe-se que o fato de os indivíduos estarem desenvolvendo sofrimento emocional causado por fantasias alheias é a atualização de uma tendência demasiadamente humana de achar que a grama do vizinho é mais verde, sem atentar para o fato de que a referida grama é sintética. E quanto às pessoas que se afastam da realidade em direção a uma vida inventada, perdendo os referenciais com a criação de uma identidade virtual, podem manifestar baixa autoestima e insegurança até, em casos mais graves, sofrer de mitomania, a compulsão em mentir.

A tendência é que a tecnologia esteja cada vez mais presente na vida de todos, que seu espaço se amplie e diversifique, trazendo facilidades e transformações, e, no rastro delas, discussões éticas e sociais sobre a forma como ela interfere na vida das pessoas e como estas lidam com o que é oferecido pela modernidade. É uma via de mão dupla, que define prazer e liberdade, mas dependendo de quem está no controle. Porque, por exemplo, quando crianças se desinteressam completamente de quaisquer atividades por causa dos jogos eletrônicos e adolescentes, e adultos precisam se reinventar no mundo virtual ou manifestam alterações de humor e sinais de abstinência ao serem impedidos de se conectar, é sinal de que o limite do saudável foi ultrapassado.

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Maria Cristina Ramos Britto
Psicóloga com especialização em terapia cognitivo-comportamental, trabalha com obesidade, compulsão alimentar e outras compulsões, depressão, transtornos de ansiedade e tudo o mais que provoca sofrimento psíquico. Acredita que a terapia tem por objetivo possibilitar que as pessoas sejam mais conscientes de si mesmas e felizes. Atende no Rio de Janeiro. CRP 05/34753. Contatos através do blog Saúde Mente e Corpo.



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