O que meu velho cachorro me ensinou sobre todas as coisas.

Dezesseis anos atras, Clinton ainda era presidente. Google ainda estava a um mês do lançamento. E um grande e desajeitado cão de caça chamado Clyde nasceu.
Sua vida começou de uma maneira bem ruim.

Até onde eu saiba, ele passou seu primeiro mês amarrado à uma cerca. Um dia, ele cortou sua pata nela. E seus donos o deixaram ali, uma pilha de orelhas e feridas abertas tremendo na sujeira. Por sorte, alguém estava prestando atenção. Mais importante, eles tomaram alguma atitude.

Eu não sei os detalhes de sua fuga. Eu não tenho certeza de que quero saber. É muito doloroso imaginar a crueldade que ele teve que suportar. Eu só sei que, graças a um amigo do mercadinho onde eu trabalhava enquanto estava na faculdade, ele acabou no banco da frente do meu carro, sua pata recém suturada inchada do tamanho de uma bola de baseball.

Eu mudei seu nome para Fletch. Ele nem discutiu.

Durante 15 anos, Fletch e eu tínhamos um ao outro. Dono e cachorro. Andador e andado. Recolhedor e cagão. Eu me formei. Conheci minha esposa. Me mudei de uma casa para outra. Tive um filho. Construí uma carreira. Fiz o que todo mundo faz: eu cresci.

E Fletch? Ele engordou. Emagreceu. Comeu fogos de artifício e 2kg de coxas de frango cruas. Latiu para abelhas. Perseguiu ratazanas. Teve diabetes. Teve câncer. Melhorou. Envelheceu.

Ele se tornou um marcador da passagem do tempo — da minha vida e da dele. Experiência e rugas. Cabelos grisalhos e cicatrizes. Ele e eu tivemos uma boa idéia disso.


Hoje, no seu aniversário de 16 anos — pelo menos é o que seu antigo registro do veterinário diz — Eu estou fazendo o que pessoas fazem quando vêem o final de uma era se aproximando: eu estou fazendo o meu melhor para colocar tudo isso em algum tipo de contexto. Enquanto Fletch sobreviveu 3 anos além do prazo de validade, eu sei que as chances são grandes de que esse seja o último aniversário que terei com ele. Ele esta devagar. Ele está praticamente surdo e cego. Ele fica andando em círculos no chão de madeira durante toda a noite como uma barulhenta alma penada senil.

E mesmo que provavelmente ele não saiba mais onde está, ele me ensinou mais do que a maioria das pessoas. Eu espero que consiga articular as lições tão bem quanto ele conseguiu:

Não faça os outros carregarem suas bagagens.

Fletch foi abusado e esquecido. Mau tratado e abandonado. E mesmo assim ele nunca mordeu ninguém. Ele é gentil e leal. E ele se aproxima de todos como se nunca tivesse sido machucado antes.

Guarde suas energias.

Fletch adora cochilar, como a maioria dos cachorros. Ele entende que a vida é um longo percurso. Existe mais tempo do que você pensa — e não há benefício em exigir de si mesmo até a exaustão. Cochilos fazem aqueles momentos em que você está solto no quintal ou joga um brinquedo para o ar muito mais excitantes.

Seja você mesmo — porque isso é o suficiente.

Fletch não é durão. Ele não é bonito. E ele não é particularmente inteligente. Mas ele está satisfeito. Ele não se envergonha de quem é — ele simplesmente é. E ele amava ainda mais por isso.

Saiba quem te alimenta.

9 em cada 10 vezes, sou eu quem alimentava Fletch na nossa casa. Ele sabe disso. Por isso ele só obedecia verdadeiramente a mim. A sua própria maneira canina, ele é agradecido, eu acho. Eu acredito que podemos todos aprender a sermos mais leais e amorosos e dedicados às pessoas que fazem mais por nós.

Envelheça mas não fique velho.

Fletch não sabe que hoje é seu aniversário. Ele não tem medo de envelhecer. Ele simplesmente vive cada dia, e o próximo, e o próximo. Um cochilo, uma refeição, um peido de cada vez. Meu aniversário é 2 dias após o dele, e pela primeira vez em 37 anos, eu não ficarei obcecado por isso. Anos só tem significado se você continuar contando-os. E a partir de hoje, eu estou parando.

Translated from: What my old-ass dog taught me about everything.

Por Renato Freire, via Medium Brasil

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