O quarto de Jack

Nenhum filme tinha me tocado tanto desde o longa “O sexto sentido” com Bruce Willis, de 1.999. Naquela época sai do cinema atônita, desejando rever o filme imediatamente. O estilo novo de sequenciar um roteiro se tornava um marco na história do cinema.

“O quarto de Jack” (com Brie Larson e Jacob Tremblay)  pelo nome e por sua foto no cartaz principal, à primeira vista, dá a impressão de ser um filme de terror. Mas trata-se de um drama, que retrata um horror real da sociedade atual.

Se você ainda não assistiu ao filme, meu conselho é: pare de ler este texto! Apenas vá e se permita surpreender. Quando um filme beira à perfeição, toda surpresa vale a pena. Mas se você não suporta a curiosidade, continue.

Jack (5 anos) é filho de Joy (24), que foi sequestrada quando ainda tinha 17. Desde então ela vive presa num pequeno quarto de poucos metros quadrados, dividindo no mesmo espaço uma cama, uma pequena mesa, duas cadeiras, uma banheira, uma privada e alguns poucos pertences pessoais. O garoto é filho do sequestrador e nasceu no cativeiro.

Com um belo instinto materno, Joy sempre fez seu filho acreditar que aquele quarto era o mundo todo. Supostamente nada existia além daquilo. Dentro de uma realidade cruel, a jovem mãe soube criar uma realidade secundária para uma vida emocional satisfatória de seu filho, o que me fez lembrar do filme “A vida é bela”, de Roberto Benigni, também de 1.999.

Metade do filme se passa naquele espaço minúsculo, muito simples e bagunçado, onde a maior parte do tempo o menino Jack se mostra feliz. Joy tem seus momentos ruins, denominados pelo filho de “apagão”, quando ela passa o dia dormindo, visivelmente entregue. Durante a noite o menino fica dentro do guarda-roupa, enquanto a mãe é abusada pelo carcereiro.

A metade seguinte da história mostra a brilhante fuga de Jack, quando pela primeira vez em sua vida, começa a descobrir o mundo de verdade. Dali em diante a história é de descobertas e de superação. O pequeno Jack passa a conhecer lugares, pessoas, animais, plantas e tudo o que existe fora de um pequeno quarto, enquanto Joy parece finalmente sentir o horror que viveu durante seus sete anos como prisioneira. A mãe parece sofrer pela primeira vez, quando finalmente pode contar com outras pessoas em sua vida e na vida de seu filho.

A perspectiva de todo o enredo é sob o olhar de um menino, que nasceu num mundo imposto à ele e à sua mãe. E não conhecendo e compreendendo o horror vivenciado, se sentia feliz. A descoberta do novo mundo ao mesmo que o assusta, o faz alegre.

O quarto de Jack trás várias lições e reflexões. Assusta, intimida, emociona. Nos mostra uma realidade chocante, vivenciada por anônimos espalhados pelo mundo, que nunca vai virar filme e que pode vir a ser ainda mais sofrido do que o filme retrata. Além de mostrar o milagre que o amor de uma mãe é capaz de criar, ao fazer a vida de uma criança em cativeiro feliz.

O elenco é fantástico em suas atuações, bem como cenografia, fotografia e trilha sonora.

O problema do filme é : você não conseguir parar de pensar nele depois…

Trailer:

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Carolina Vila Nova é brasileira. Tem cidadania alemã, 40 anos. Escritora e Roteirista. É autora dos seguintes livros: “Minha vida na Alemanha” (Autobiografia), “A dor de Joana” (Romance), “Carolina nua” (Crônicas), “Carolina nua outra vez” (Crônicas), “Vamos vida, me surpreenda!” (Crônicas), “As várias mortes de Amanda” (Romance), “O dia em que os gatos andaram de avião” (Infantil), “O milagre da vida” (Crônicas) e "O beijo que dei em meu pai" (Crônicas). "Nosso Alzheimer." (Romance), Disponíveis na Amazon.com e Amazon.com.br



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