O problema do suicídio

Dos problemas filosóficos, o suicídio é o mais árduo, e por isso há um tabu incomparável sobre este tema.

As pessoas angustiam-se, em certos pontos de sua vida, em menor ou maior grau, com a ideia de se matar.

Para começar, o maior ideal de salvação é aprender a morrer, e não se aprende a morrer direito a não ser vivendo direito.

Na maioria dos casos, o suicida custa a tomar a iniciativa de pedir ajuda, ou porque acha que o seu mundo inteiro conspira contra ele, ou porque sente vergonha de ser julgado covarde. Covarde seria por deixar-se afundar na negligência deste silêncio. O pedido de ajuda é um sinal de bravura, não de mediocridade.

É infinitamente mais fácil dar conselhos a um suicida do que seguir estes conselhos em meio a uma crise suicida. Só a própria vítima sabe a dor que sente, e nenhum outro ser, por mais excepcional empatia que exerça, poderia captá-la com a mesma profundidade e exatidão.

A grande maioria dos suicidas são também depressivos. Então, alguém com depressão pode entender otimamente o que se passa com o suicida. Uma personalidade inclinada para a depressão reconhece outra em segundos de conversa franca. De um clássico axioma de Carl Jung, tem-se que:

“Conhecer a sua própria escuridão é o melhor método para lidar com as trevas das outras pessoas.”

Há casos específicos em que a pessoa sofre com pensamentos autodestrutivos, mas nunca quis de fato tirar a própria vida. Ela sente-se vítima de uma violência não provocada por uma intenção real, mas que lhe afeta subliminarmente. Passa a desenvolver uma culpa pessoal por causas que para ela são ocultas. Assim, a falta de reconhecimento da origem do problema psíquico faz com que distorça sua realidade, em sua ótica, estranha e contrária ao ímpeto de sobrevivência. Mas não passa disso: distorção.

Como preconizou Camus em seu O Mito de Sísifo, a responsabilidade pelo suicídio é, intransferivelmente, de seu autor. É ele em tratamento de um problema gravíssimo que perfaz o absurdo do mundo.

No mito original, os deuses haviam condenado Sísifo a rolar uma pedra infindavelmente da base ao topo de uma montanha e, toda vez que ele conseguia chegar lá em cima, a pedra – por seu peso incontingente – caía novamente até a planície. Aqueles deuses intuíram que não havia castigo mais injusto e, para seu infrator, mais absurdo, do que realizar um trabalho anulado pelo próprio objetivo. Qual é a solução viável para o fardo de Sísifo? Enxergar a pedra como um presente, fazendo com que o silêncio do universo responda por ele em vez de ele tentar explicar-se ao nada. Todo seu esforço vital, agora, passa a ter causa retributiva – uma boa vantagem a ter começado como inimigo da indiferença.

“Partindo do absurdo sobre os escombros da razão, num universo fechado e limitado ao humano, divinizam o que os esmaga e acham razões para esperar naquilo que os despoja.”

Os questionamentos sobre o propósito da vida são próprias manifestações propositais da vida. Caso Sísifo esperasse os deuses lhe privarem daquela incumbência onerosa, ficaria prostrado e ainda o absurdo não poderia ser renegado.

Dispensar-nos de obter a resolução de absurdo é um incentivo à vida. O homem que se retira da vida não enfrenta sua maior responsabilidade, porque acha que o suicídio é a resposta para o absurdo do mundo e não é preciso pensar duas vezes para saber que se trata de uma armadilha que ele mesmo implantou, donde que o mundo não precisa capturar aqueles que já o estão sobre ele. A existência depende de otimismo, não de negar-se ao absurdo. Para Camus, o suicídio não resolve o absurdo, apenas destrói o homem.

Traumas ocasionados na sociedade, tais como bullying, estupro, sequestro, violência moral e abuso verbal, tortura, entre outros, muito contribuem para o indivíduo cometer o suicídio, são variáveis influenciáveis para isso. Contudo, a decisão executiva de se findar não deixa de ser individual.

É possível condenar alguém ao suicídio, mas, a não ser que a pessoa queira se matar, a condenação não afeta em absolutamente nada.

Sabe-se que Sócrates, mestre em saber utilizar a ignorância como motivadora do conhecimento, foi condenado à morte por “corromper a mente dos jovens” com suas críticas agnósticas direcionadas ao intervencionismo religioso no poder político. Diante do dilema entre se matar – tomando cálice de cicuta – a sacrificar sua filosofia, escolheu a primeira opção, e essa foi sua única certeza. Após receber a sentença, foi mantido preso por um mês e, no tribunal, tratou de assumir aos juízes a total responsabilidade pelo caso e lhes deixar um pequeno recado para a posteridade, que ficou marcado como sua profecia:

“Eu predigo-vos, portanto, a vós juízes que me fazeis morrer, que tereis de sofrer, logo após a minha morte, um castigo muito mais penoso, por Zeus, que aquele que me infligis matando-me. Acabais de condenar-me na esperança de ficardes livres de dar conta da vossa vida; ora, é exatamente o contrário que vos acontecerá, asseguro-vos […] Pois, se vos pensardes que matando as pessoas impedireis que vos reprovem por viverem mal, estais em erro. Esta forma de se desembaraçarem daqueles que criticam não é nem muito eficaz nem muito honrosa.”

Para uns, Sócrates foi um tolo fanático que morreu mal; para outros, um legítimo pensador que viveu bem. Se não fosse orgulhoso, teria sobrevivido, mas nesse caso não conseguiria viver aceitando coisas que não acreditava. Naquela época arcaica, não havia liberdade de expressão e as opiniões vinham todas do mesmo saco, com ideias divergentes sendo exoneradas à medida que faziam as pessoas questionarem os dogmas.

Sócrates não foi um carrasco de si mesmo, mas alguém que ensinou que uma vida irrefletida não vale a pena ser vivida, e que a glória pela existência do indivíduo depende tão só de ele se fazer para a eternidade, apesar de não ser eterno. A perspectiva do último suspiro não amedronta quem honra à sua vocação.

Consumo de vida

Num livro chamado As Intermitências da Morte, José Saramago apresenta, com sua perspicaz ironia, a história bizarríssima de um mundo no qual a morte suspendeu por completo as suas atividades, tendo desaparecido da vida dos seres humanos de um dia para o outro, sem aviso prévio nem hora para voltar. A morte foi transformada por Saramago em personagem central para mostrar aos mortais como eles são ingratos por sua realidade.

Se houvesse uma greve da morte, os suicidas ficariam menos tranquilos do que aqueles que, de tanto gozarem das magnificências da vida, esqueceram-se de contar as horas. A felicidade dos esquecidos é mais velha que o tempo mesmo. Projetando-se a ausência da morte em todos os recônditos da Terra, os espíritos mais iluminados dariam conta de sua sorte, e os temerosos da morte arregalariam os olhos como se incrédulos pelo que está acontecendo. Os hospitais fechariam, as igrejas esvaziariam e as funerárias arruinariam. Emergência! Os suicidas não saberiam por onde começar. Protestos cessariam subitamente, enquanto os pacíficos se sentiriam desanimados por não haver mais pelo que lutar. Sem a morte para perturbar a vida, como os sonhos mais incríveis poderiam sê-lo?

Analisemos a perspectiva do suicídio neste contexto. Se ninguém mais morre e, apesar de tudo, o indivíduo ainda não quer sobreviver, isso significa uma grande revelação para o suicida: não é a morte o sustentáculo de seu sofrimento.

Uma coisa é perceptível: os suicidas muitas vezes não sentem que consomem a sua vida. Por que alguns velhos, mesmo só com três pares de dentes originais na boca, fios brancos quebradiços na cabeça, fala cansada, pele decrépita, articulações doloridas por excesso de uso e aparentemente moribundos não gelam de medo de morrer e, ainda, demonstram um apetite insaciável pela vida? Vê-se que eles sabem consumi-la, com tal habilidade que não se arrependem das coisas que deixaram de fazer e nem se sentem órfãos de novidades, fatores que no presente os protegem de ver a morte como um acontecimento ruim.

Não é fácil tolerar uma pessoa suicida, muito menos compreendê-la. Algumas mães, vendo seus filhos sofrerem de tal enfermidade mental, passam noites dormindo com um olho aberto e o outro fechado. Recorrem a calmantes imprescindíveis. Ligam para outros, se houverem, narrando o desgosto de ver o filho perdendo a razão.

Qual é a pior coisa que estas mães podem sentir? Não é vergonha, nem raiva, nem tristeza, mas dó. “É uma pena que chegou a um estado desses!”. “Ele tem tudo que precisa, deve ser um miserável afetivo!”. “Desaprendeu a viver, coitado!”. “Está deixando a vida passar, que lástima!” Exclamações como essas escondem verdades típicas de quem enxerga o problema com o sujeito, não o sujeito com o problema. Isso lembra O Corcunda de Notre Dame.

Como Quasímodo, tudo que o sujeito precisa é que os outros escutem o badalar dos sinos do seu coração, não que o olhem igual a uma aberração da natureza humana. Como Quasímodo, tudo que o sujeito precisa é que os outros reconheçam que ele, embora pareça estar no grau mais baixo da hierarquia emocional, no fundo quer aspirar às alturas. Como Quasímodo, tudo que o sujeito precisa é que seus afetos sejam correspondidos, não que o temam e se afastem dele.

Viver o viver

O medo da morte é a soma de inteligência com livre-arbítrio. Como uma pessoa inteligente pode imaginar-se morta? Sentindo-se livre para escolher não viver. Como uma pessoa livre pode ser inteligente? Assumindo ser responsável pela dignidade e felicidade de sua vida. A consciência da mortalidade é um preço que todos têm que pagar por serem “caniços pensantes”.

Os cristãos, por exemplo, estão sempre dizendo que os suicidas “carecem de Deus no coração”. Poderiam tomar um pouco mais de cuidado em julgar como óbvias as soluções para os temores que também se encontram no perfil de sua natureza.

Também muito se dissemina por aí afora que algumas pessoas – e os suicidas não se livram dessa – se comportam como se tivessem feito “pacto com o Diabo”. Mas evitá-lo reduz o impacto de sua presença? Muito pelo contrário, aumenta. Os maiores males são aqueles que não são percebidos, isto é, aqueles que não conseguimos tocar ou explicar direito, mas que estão disfarçados na nossa imaginação. Percepção e imaginação são visões, mas uma se apoia na realidade dos sentidos, e a outra não depende unicamente da experiência empírica – não tem limites, sendo assim muito mais perigosa. O Diabo não quer que seus súditos o amem. Ele quer que o temam. Sua fama depende disso. Contudo, não levá-lo a sério pode ser difícil, considerando o horror de suas intromissões psíquicas.

Para se construir o bem, não basta manter-se virtuoso, mas persistir no bem com racionalidade e prudência, até que a intuição, apoiada na experiência, consiga farejar inclusive um mal disfarçado de bem.

O mal só seria eliminado por completo se o medo também fosse. Alguém sem medo não sofreria, provavelmente por estar enterrado numa cova. Se o suicida teme sua vida mais do que tudo na vida, torna-se a presa mais fácil de todas para o mal, no compasso que patrocina seu medo. Não temer a si mesmo é o primeiro passo para sofrer menos, mas ninguém disse que o autoconhecimento é tarefa simples.

O medo de morrer é capaz de transformar sanidade em loucura e tornar desgraçada a felicidade mais perfeita, mas o curioso disso é que, sem esse temor, a pessoa certamente também enlouqueceria.

Porque a religião é construída com base na noção primal de mortalidade, o suicídio – ou a falta de atribuição prática do sentido de viver – torna-se uma possibilidade menos terrível para os religiosos, o que não quer dizer que eles tenham a capacidade de enganar a morte. Esse sofrimento é expresso na religião e a religião é impressa desse sofrimento.

Não há um ser humano vivo que não seja guiado por um senso do que significa ser religioso. Todo homem precisa de fé, mesmo que não siga uma religião. Das formas de fé, a religiosa é, por suas pretensões, a mais forte, mas não a única. Um homem pode viver em seu complexo de religiosidade, independentemente de ser cristão, ateu, agnóstico, budista, espírita ou hindu.

Muitos acreditam que não vale a pena viver mal e, nesse caso, é preferível morrer bem: isso não poderia estar mais longe da verdade. O desespero existencial só surte efeito malévolo no indivíduo quando seu sofrimento não tem sentido. Quer dizer, as pessoas trabalharão 15 horas por dia, irão à guerra, abdicarão de toda sua fortuna, jejuarão por quatro dias inteiros, sacrificarão a vida pela dos filhos, deixarão de acreditar em deuses, ou viajarão a pé de uma ponta à outra do mundo, se tiverem um sentido maior que as motiva para isso.

É preciso salientar que a necessidade de transcendência não é exclusiva da pessoa religiosa. Vez ou outra todos precisam fugir de si mesmos, e há diversas formas de alienação. Uns viram uma garrafa de vodca, outros leem horóscopo, outros recorrem à hipnose, outros tomam chás alucinógenos, outros assistem a shows de mágica.

O “descanso” da sanidade é recomendável para se manter são, contanto que se mantenha temporário. Deve haver um compromisso com a realidade antes de escapar dela.

O suicídio é a negação da vida, enquanto a morte é uma afirmação. Há uma diferença fundamental entre morrer lutando e morrer voluntariamente.

Os suicidas estão sempre aproximando uma lupa de seus piores tormentos, ao mesmo tempo em que se afastam de quem são e para que vivem. Sua ingratidão as dificulta de ser feliz; eles nem reconhecem os motivos pelos quais são gratos e uma consequência para isso é seu estigma doentio do morrer. Se se esforçam mais cultivando seus ideais de valor – que sempre existem –, não sobra tempo para o resto.

Pode se esperar o bem de um mau elemento? Isso depende de como se enxerga a ideia de bem e mal. O passar dos anos mostra que não há nada de tão bom que não se possa extrair algo de ruim, e não há nada de tão ruim que não se possa aprender algo de bom.

No exato instante em que o inocente Ivan Karamazov exclama que “Tudo é permitido”, percorre em sua espinha não uma sensação de plena alegria, mas de puro espanto. Ao conjecturar que tudo é possível, explode o número de possibilidades de ação, boas ou más, absurdas ou lógicas, e toda essa liberdade, apesar de sua pressão enclausurante, lança desafios frequentes para o exercício ótimo da responsabilidade moral e, por conseguinte, da felicidade na vida.

O suicida deveria saber que nem todo pensamento pessimista é incompatível com o amanhã. Inclusive, uma forma infalível de saber se um suicida está bem é quando ele se projeta no futuro, porque, em vez de maturar o azar, mantém-se protegido renovando suas esperanças.

A liberdade deixa de ser prazerosa em sua totalidade; se mais dela é desejado, mais haverá de ser suportado. O homem eventualmente se depara com a vontade de libertinagem, então o mínimo que deve fazer é se preparar para as consequências de se vender. A troco de nada não será.

Por um lado, o livre-arbítrio é ferramenta de empoderamento; por outro, instrumento de tortura psicológica. Estar livre não é ser liberto: eis o principal dilema existencial.

Montaigne, em um de seus ensaios, deu uma dica intimista:

“À noite, antes de dormir, assuma o hábito de deixar a janela do quarto aberta, se possível, com vista para um cemitério.”

Parece uma brincadeira de mau gosto, mas isso realmente ajudava o francês a refletir sobre o valor de sua vida enquanto estava acordado sonhando, e não com delírios.

Para se lidar mais tranquilamente com o dilema suicida tão desgastante, é necessário, mais do que tudo, senso de humor, enxergar a coisa por um viés cômico. Afinal, nem sempre devemos confiar em nós mesmos, e realmente a vida é curta demais para ser levada tão a sério. Quem brinca com fogo acaba se queimando, mas sem brincadeira não há o calor de viver.

Immanuel Kant tinha uma frase peculiar, rejeitada por muitos.

“Toda reforma interior e toda mudança para melhor dependem exclusivamente da aplicação do nosso próprio esforço.”

Sua ideia surte um efeito mais positivo se trocarmos “exclusivamente” por “principalmente”. Kant não estava promovendo solidão e individualidade. Ele quis salientar que não importa quantas pessoas nos ajudem e o quanto elas se doem em prol de nosso crescimento, sem volição interna toda ajuda externa é em vão. É evidente que o suicida sente-se solitário, mas não está sozinho.

Quase todas as pessoas dominadas pelo problema do suicídio relatam uma certa obsessão por controlar essa angústia. Querem eliminá-la de vez, para sempre. Contudo, esse esforço é contraproducente, pois toda obsessão se alimenta da própria iniciativa de controle do obsessivo. A potência da angústia é proporcional à força de resistência contra ela. Quanto mais se quer livrar da angústia, mais ela engrandece. É como um prisioneiro algemado dentro de uma cela abafada, em pleno verão. Ele sente calor e sua, até que seus pulsos começam a coçar, e é justamente o desejo de coçar que reforça a coceira.

Se a ânsia suicida origina-se incontrolável e espontaneamente, deverá ir embora por si mesma: a diferença entre as crises suicidas resolvidas está na duração de tempo em que isso acontece.

O aborrecimento saudável é aquele sobre as coisas que podemos controlar. Um homem que resolve enfrentar cara a cara um leão decerto perderá a batalha, pois toda sua ferocidade é ínfima se comparada com a do animal. Quem luta contra a morte já começa em desvantagem.

Nas circunstâncias de crise suicida aguda, em que os pensamentos angustiantes invadem sem pudor, a melhor ação é não fazer nada, do contrário, os pensamentos se retroalimentam e ganham terreno. A reincidência dos impulsos de morte é garantida, então seu bloqueio (inação) também deve ser.

O inimigo no subconsciente está sempre presente, mas nunca é o mesmo, pois está em movimento, assim como o sujeito aterrorizado. Este mal não tem uma forma definida, nem personalidade marcante; ele age secretamente, em silêncio, por essência, alimentando-se da paranoia. A eficácia do terror está em agir conforme se atualizam os medos particulares e históricos da pessoa. Encontra-se esse insight nas obras de Bram Stoker, Stephen King, Clive Barker, Thomas Harris e Edgar Allan Poe, para citar alguns dos mestres da literatura do terror.

Se o humor é a arma mais eficaz no tratamento contra o terror suicida, isso explica por que pessoas depressivas têm mais chances de desenvolver tendências suicidas. Obviamente, o depressivo carece de bom humor em seus momentos malditos, pois, ao lutar contra seus demônios, sente receio de simpatizar com eles.

Pessoas que adoram filmes de terror relatam o prazer em assistir cenas de violência, de tal forma que algumas delas até gargalham durante estas experiências. Digamos que, enquanto estas pessoas se divertem com isso, brincando com o terror, em suas horas mais sombrias o suicida sente que o terror está brincando com ele.

Epicuro, que, por sinal, deu nome a uma escola filosófica, Epicurismo, foi estudioso calculista do tema “morte”, esta que tornou-se sua área de especialização. Ele tinha uma visão sobre a coisa de no mínimo dar inveja aos suicidas que, no entanto, muito bem podem vir a admirá-la.

“A morte, o mais horrível dos males, não é nada para nós, pois, enquanto somos, a morte não nos ocorre, e, quando a morte nos ocorre, nós não somos […] Efetivamente, todos os bens e males estão na sensação, e a morte é a privação das sensações. Logo, o conhecimento correto de que a morte nada é para nós torna fluída a mortalidade da vida, não por atribuir a esta uma duração ilimitada, mas por eliminar o desejo de imortalidade.”

Se, como dito, suicidar é negar a vida, o desejo de imortalidade também é. Qual a melhor alternativa disponível? Viver.

Fazendo da morte submissa

Na Idade Média viveu um autor, o italiano Dante Alighieri, que causou certo estardalhaço com a publicação de uma obra em forma de panfleto chamada A Divina Comédia, na qual ele descreve sua jornada existencial através do Inferno, Purgatório e Paraíso, respectivamente.

Na configuração alegórica sofisticada de seu Inferno, Dante legou os suicidas – os que praticam a autoviolência – para o segundo vale do sétimo círculo, que ele chamou de Floresta dos Suicidas. O que lá acontece com estes infelizes autoflageladores? Logo que chegam são transformados em sementes que, todavia, tornar-se-ão árvores inférteis.

“A folhagem não era verde, mas escura, os ramos não eram lisos, mas nodosos e torcidos, não frutos, mas espinhos venenosos.”

Dante sugere que os suicidas, por não usufruírem de sua capacidade biológica, de prover a vida, de contribuir para a manutenção da espécie, devem se tornar estáticos e deficitários de vida no instante em que despencam do limbo às relvas do vale.

Dante, exilado após uma carreira política destroçada, engolfado em um desespero existencial de proporções incomensuráveis, aturdido em pura “escuridão visível”, faz sua jornada de descoberta pelo Inferno, Purgatório e Paraíso, ainda bem que amparado pela companhia de Virgílio, seu modelo de poeta e mestre salvador, sem o qual não teria conseguido reerguer-se.

Na Divina Comédia, Dante argumenta que uma jornada do ser para o desconhecido – tal como ele fez em sua cabeça – gera os aprendizados mais valiosos, pois o viajante só os obtêm ao fazer da senhora morte uma submissa de seu próprio poder.

A frase “Abandone as esperanças todos que aqui entrarem” está gravada a ferro e fogo nos portões do Inferno. Será que Dante entrou ou se descobriu lá dentro?

Se parece que o suicida tem um inferno para chamar de seu, o inferno, simbolicamente, não se limita ao de um suicida. Todos fazem suas jornadas da escravidão à liberdade em processo contínuo e mais ou menos cansativo, sujeitos a reviravoltas e provações extraordinárias.

Colaboração ativa

O magistral médico e psicólogo austríaco Viktor Frankl passou inacreditáveis três anos como prisioneiro em campos de concentração nazistas, e saiu de lá para nos dar uma lição do que significa resiliência.

Antes de ser preso e feito escravo, Frankl ficou sabendo que sua esposa grávida, pais, irmão e amigos íntimos foram assassinados a sangue frio a mando de Hitler. Como ele foi capaz de manter-se vivo em condições tão desumanas e munido de informações tão traumáticas? Ainda lhe restava uma razão de viver, que fez engrenar todas as outras: terminar seu livro sobre a psicologia do sentido. A vontade de transmitir seus conhecimentos adiante e ajudar pessoas em situações crônicas de adversidade foi o fator crucial para sua própria sobrevivência. Que fez ele?

“Encontrei o significado da minha vida ajudando os outros a encontrar o sentido das suas vidas.”

Ao colaborar para a superação do sofrimento alheio, manteve-se forte. Inúmeras vezes perturbado naqueles campos de concentração, ele cogitou se matar, mas as vozes retrógradas em sua cabeça, que tentavam convencê-lo a dar fim a sua existência, não gritaram mais alto do que o propósito para concluir suas atividades.

O ato de solidariedade promove aumento da sensação de potência, já que o doador, ao fazer menores os problemas dos outros, automaticamente apequena os seus.

O simples forçar à colaboração ativa representa um grande passo para o suicida em recuperação do nocaute de sua autoestima. Para ser ajudado é preciso ajudar, e vice-versa, regra básica de reciprocidade que se aprende por qualquer modelo de educação.

Uma vez que o extremo egoísmo favorece tendências suicidas, se quem sofre com isso deseja realmente tornar menos pior a sua situação, é favorável que autonomicamente mova-se para zonas sociais dentro das quais suas potencialidades são requeridas. Um suicida dificilmente reconhece suas vocações, mas elas estão ali, dependendo apenas dos estímulos certos para serem desenvolvidas e da vontade aplicada para tanto. Na falta de oportunidade, cria-se.

Durante sua experiência em consultório clínico, Frankl recebeu uma legião de pacientes enfermos desesperados para se matar, ou por causa de seus inúmeros fracassos em vida, ou pela falta de percepção de suas vitórias. Nas sessões terapêuticas inaugurais de tratamento, a segunda coisa que ele perguntava a eles – após o nome – era o seguinte: “Por que não opta pelo suicídio?”. A partir das respostas que obtinha, ele criou seu próprio método terapêutico: a logoterapia.

Frankl dizia que nenhum ser humano pode se mover sem algum temor. O sofrimento não é requisito para agir, mas em todo sentido encontra-se alguma insatisfação, minúscula ou gigante, que deve ser tratada. A diferença entre um mártir e um herói é que do segundo se espera alguma coisa boa para a humanidade.

A pessoa não deve estar sempre sofrendo, mas entender o sentido em seu sofrimento, de modo que não classifique a si mesma como inútil e permita uma ação autorresiliente.

O austríaco estimulava seus pacientes suicidas a manter na mente subterfúgios positivos: imagens de pessoas, locais e coisas que lhes promove o sentimento saudoso de amor. Bem treinados, os pacientes passam a bloquear sentimentos indesejados com tais subterfúgios, relacionados a qualquer coisa, material ou intangível: membros da família, animais de estimação, livros, álbuns de fotografias, bonecos de brinquedo, soldadinhos de chumbo, quadros de santos, crucifixos, o talento para uma arte, um trabalho a ser concretizado, o sonho de ter filhos, uma viagem à Disney, etc. Essas “âncoras” fazem com que o paciente tenha sempre aonde descansar, até que readquira autonomia o bastante para prosseguir em seu rumo.

Como Frankl gostava de dizer nos seminários que fazia:

“Quem tem um porquê enfrenta qualquer como.”

Mesmo para os que julgam ter perdido tudo e todos em suas vidas, não há beco sem saída. Existe poder de decisão em toda condição, inclusive de total desesperança.

As pessoas querem saber se tudo acabará bem e, para isso, nada melhor do que a consciência de que há uma próxima missão a ser cumprida.

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Eduardo Ruano
Profissional de pesquisa e texto. Eu me considero uma pessoa racional, analítica, curiosa, imaginativa e ansiosa. Gosto de ler, escrever, ouvir Thrash Metal e música eletrônica, assistir filmes e séries, beber e viajar com os amigos. Estudioso de filosofia, arte e psicologia. Odeio burocracias, formalismos e convenções. Amo pessoas excêntricas, autênticas e um pouco loucas, até certo ponto. Estou sempre buscando novas inspirações para transformar ideias em palavras.

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