O preço de um banho quente

Nesses dias de inverno sempre me lembro de uma reportagem que mostrava moradores de rua falando sobre suas dificuldades ao terem que sobreviver nas grandes cidades. Nunca me esqueci do depoimento de uma garota de quinze anos, que afirmava fazer programa em troca de um banho quente num dia de frio. Já faz vários anos, mas eu não pude esquecer.

Bem depois dessa reportagem ainda tive a experiência de morar num país, onde a temperatura chegava a vinte e dois graus negativos. Para que os mais desavisados possam ter uma ideia do que isso significa, vale saber que nossos congeladores chegam a apenas cinco graus abaixo de zero. E na Europa o inverno é algo que dura meses a fio. A experiência neste sentido não foi muito agradável.

Nunca gostei de frio e continuo não gostando. Mas confesso que ambas as experiências me fortaleceram. Entender o que pode custar um banho quente para uma garota de quinze anos num dia de frio, sempre me faz repensar quando ouso me lamentar pela temperatura lá fora. E também sei que hoje, com cerca de quinze graus, está trinta e sete graus a mais do que a pior temperatura a qual tive que conviver um dia.

Num mundo onde diariamente somos instigados a alcançar sempre mais, tanto no sentido financeiro, quanto no profissional, situações de extrema pobreza e dificuldade do próximo, vêm nos servir como uma boa chamada de volta à realidade.

A indução diária a que somos submetidos através de propagandas e mensagens subliminares, nos deixam exagerados de desejos: pelo carro novo, pela viagem dos sonhos, pela casa na praia, pela reforma da casa e pelos móveis de alto padrão. Deixamos de valorizar aquilo que temos.

Numa era onde o consumismo nos atingiu com tanta naturalidade, o desprezo pela dor do outro e a falta do olhar pela necessidade do próximo, se tornam um mal necessário, para a ilusão de uma consciência tranquila.

É triste ver o número de pessoas dormindo nas ruas nesses dias de frio, bem como a quantidade de animais que morrem de inanição junto a eles dia-após-dia. E não há nada de bonito numa prostituição infantil em troca de um banho para se aquecer o corpo.

Mas pior do que tudo isso junto, é o menosprezo que nossa sociedade alcançou diante de tal realidade. Nossos valores se tornaram desequilibrados.

Precisamos conscientemente parar de olhar “o verde da grama do vizinho” e perceber que bem à nossa volta existem pessoas que nem grama tem. Se não tivermos qualquer condição de ajudar ao próximo, ao menos o perceber a situação de extrema pobreza de tantas pessoas iguais a nós, nos permitirá uma intensa gratidão por aquilo que temos. O enxergar o tão pouco dos outros nos faz finalmente compreender, que aquilo que temos, pode ser motivo de sonho para os demais.

Temos que ser responsáveis no mínimo, pelo que carregamos em nossos corações. Que deixe de ser inveja alheia e lamentação pelo que não temos e que se torne gratidão por absolutamente tudo que possuímos, seja um carro velho, uma bicicleta ou os dois pés com os quais podemos caminhar.

Para que um banho quente num dia de frio possa ser sentido com toda gratidão que sempre deveria existir. Pois uma vida feliz e uma consciência tranquila de verdade começam onde a simplicidade e gratidão residem.

Muito mais do que ter, é ser.

Sempre.

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Carolina Vila Nova é brasileira. Tem cidadania alemã, 40 anos. Escritora e Roteirista. É autora dos seguintes livros: “Minha vida na Alemanha” (Autobiografia), “A dor de Joana” (Romance), “Carolina nua” (Crônicas), “Carolina nua outra vez” (Crônicas), “Vamos vida, me surpreenda!” (Crônicas), “As várias mortes de Amanda” (Romance), “O dia em que os gatos andaram de avião” (Infantil), “O milagre da vida” (Crônicas) e "O beijo que dei em meu pai" (Crônicas). "Nosso Alzheimer." (Romance), Disponíveis na Amazon.com e Amazon.com.br



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