O poder do hábito

Um dos melhores livros que já li, “O Poder do hábito”, de Charles Duhigg, vem nos mostrar na prática como funciona aquilo que já nomeamos, mesmo sem o devido conhecimento, como “automático”.

Temos em nosso cérebro uma pequena área chamada de gânglios basais. Estes gânglios foram estudados por especialistas, que vieram a comprovar como o nosso cérebro é capaz de armazenar aquilo que fazemos repetidas vezes, a tal ponto de não mais pensarmos no que estamos fazendo. A partir de um determinado tempo, o cérebro é capaz de reproduzir o hábito, sem que haja qualquer necessidade de esforço de pensamento. Se lavo a louça todos os dias depois do café-da-manhã e em seguida escovo os dentes, serei capaz de fazer estas duas coisas e nem me lembrar do que fiz, pois poderei fazê-los sem pensar nos atos em si.

O livro é dividido em três grandes capítulos, mostrando como os hábitos atuam em nossas vidas em três níveis: individual, organizacional e social. Um pequeno hábito pode transformar a vida de uma pessoa, de uma empresa ou de toda uma sociedade.

O autor nos trás vários exemplos práticos e prazerosos de se ler, pois nos identificamos com eles fácil e rapidamente.

A nível individual, tenho que dizer, que adorei a história de Eugene, um senhor americano, que perdeu a memória e que não sabia nem onde morava, mas era capaz de sair de casa, dar uma volta e retornar tempo depois, sem ter tido a mínima ideia de como havia feito o passeio e voltado para casa. Eugene também tinha reações negativas quando sua filha saía sem se despedir, chutando a mesa e esbravejando sozinho na sala durante alguns minutos, mas ele não sabia por que fazia aquilo. Eugene perdeu a memória, mas seus gânglios basais, responsáveis pelos hábitos que acumulara durante toda a sua vida, continuavam agindo por ele. Um homem sem memória, não parecia incapaz de fazer muito do que havia feito a vida toda. Os cientistas só não conseguiam explicar aquilo. E Eugene foi capaz de mudar a história da ciência, quando perdeu a sua memória.

Em termos organizacionais, o livro traz, dentre alguns exemplos, a trajetória de um alto executivo de uma multinacional. Inicialmente, quase ninguém levou a sério o profissional em questão, quando o mesmo expôs suas ideias sobre como gerir a empresa, focando em apenas um assunto: segurança. Os investidores, conselheiros e até mesmo funcionários não estavam acostumados com uma ideia aparentemente simples e que não focava diretamente em retorno financeiro. Mas a longo prazo, a estratégia daquele diretor foi capaz de manter o foco de todos em pequenos hábitos, que visavam a segurança, e que começaram a refletir em outros hábitos e retornos positivos para a empresa e funcionários como um todo. Um foco, alguns hábitos e uma incrível história de sucesso e transformação.

Do ponto de vista social, temos o privilégio de ler, a partir de uma perspectiva científica, os hábitos que permitiram que a luta de Martin Luther King fosse capaz de mudar a história do negros nos Estados Unidos e posteriormente em todo o mundo. E também, como somos, nós mesmos, manipulados pelo estudo de nossos hábitos por empresas como supermercados, lojas e até a indústria de rádio e música. Temos o hábito de gostar de músicas parecidas e ao dirigir, desejamos cantarolar a música que toca no rádio ao menos em nossa cabeça, queremos que seja algo conhecido e que nos distraia. Não se engane! Esta informação é devidamente utilizada para nos forçar a gostar das músicas lançadas no mercado.

Os hábitos fazem parte da nossa vida, como de toda empresa e sociedade. Estudado e entendido pode vir a ser uma ferramenta de total transformação em nossas vidas ou de manipulação em outras. Entendendo o que fazemos sem pensar, nos tornamos capazes de melhorar a própria vida, o nosso trabalho e o meio em que vivemos.

E até no caso de um dia perdermos a memória, continuaremos a fazer o que é bom, se já fizemos isto antes.

De linguagem simples, “O poder do hábito” cativa o leitor do início ao fim.

E para um bom entendedor, não meia transformação; mas várias!

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Carolina Vila Nova é brasileira. Tem cidadania alemã, 40 anos. Escritora e Roteirista. É autora dos seguintes livros: “Minha vida na Alemanha” (Autobiografia), “A dor de Joana” (Romance), “Carolina nua” (Crônicas), “Carolina nua outra vez” (Crônicas), “Vamos vida, me surpreenda!” (Crônicas), “As várias mortes de Amanda” (Romance), “O dia em que os gatos andaram de avião” (Infantil), “O milagre da vida” (Crônicas) e "O beijo que dei em meu pai" (Crônicas). "Nosso Alzheimer." (Romance), Disponíveis na Amazon.com e Amazon.com.br



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