O pé de Gianecchini pode…

Acabo de ver um interessante post nas redes sociais: “Gays, bissexuais, lésbicas e transexuais, por favor: saiam do armário. Precisamos de espaço para trancar os homo fóbicos”. Numa sociedade dividida entre a tolerância e o preconceito, testemunhamos brigas, campanhas e brincadeiras de ambos os lados constantemente.

Vivendo num país, onde a novela é enraizada na cultura familiar, também vemos famílias inteiras se manifestando hoje em dia contra a presença cada vez mais constante de homens e mulheres gays na televisão nacional: “Onde vai parar a família brasileira? Onde está o respeito? Temos que boicotar esta novela!”, e por aí vai. Diferente de alguns países, como a Alemanha, que criou uma cartilha explicando às suas crianças na escola, que o amor não tinha necessariamente que ter “sexo”, ou seja, um homem poderia amar outro homem, bem como uma mulher poderia amar outra mulher.

Pela experiência de ter vivido em outro país por seis anos e convivido intensamente com outras culturas, pude perceber de forma muito forte, o quanto o Brasil é mesmo um país machista. Não apenas de homens, mas de mulheres também. Aspecto que percebi mais forte ainda nas culturas de países islâmicos. Quando se cresce ouvindo, tanto de homens e mulheres, o que a mulher pode e o que não pode, por uma vida inteira, acaba-se acreditando naquilo. Pura assimilação. Contra isso, apenas muita educação e uma boa dose de mente aberta, desejo de evoluir, crescer por si mesmo, independente daquilo que já se conheceu.

Estando fora do país e da cultura em que vivemos, temos uma oportunidade inigualável de perceber que o mundo que nos rodeia não é único e nem necessariamente o mais correto. Mas sem esta experiência, acredito que a evolução da percepção das pessoas se torna mais lenta. Fica difícil perceber que “meu mundo” não é o melhor, se desconheço a existência de outros. Enfim.

Infelizmente sinto que ainda vamos demorar muitos anos para habitarmos uma sociedade verdadeiramente feita de amor e tolerância.

Mas até lá, gostaria de citar um fato que me chamou a atenção para a contradição em que vivemos neste país ainda machista e tão cheio de intolerância.

Nesta semana, uma série de TV foi muito comentada, elogiada, vista e revista, devido a uma cena de Reynaldo Gianecchini com o ator Fernando Eiras, onde Giane provoca seu “affair” num rápido banho e vem até ele com uma toalha pendurada em seu ombro, tapando apenas seu sexo. A toalha é puxada pelo parceiro. Em seguida Giane sobe em cima da cama e esfrega seu pé no rosto do suposto, como sinal de domínio sobre o outro. Em seguida joga champanhe em seu rosto. Que até que se mostre na cena a taça na mão do ator, também fica a ideia de que poderia ser urina.

A cena é quente e se passa entre dois homens. Mas um deles é ninguém menos que um dos homens mais cobiçados deste país.

Surpreendentemente as redes sociais não vieram com campanhas em massa contra a série, a cena, atores ou autor da série, mas o contrário: vibrações, cumprimentos, felicitações, pedidos de continuação e assim por diante.

Para quem me conhece, sabe bem que sou fã de Gianecchini há tempo. E por mim ele pode tudo. Eu só não sabia que sua beleza e poder de sedução eram capazes de silenciar até os mais intolerantes.

Beleza é beleza e preconceitos à parte?

Não sei exatamente, só sei que o pé de Gianecchini pode…

E a coxa, e a bunda e tudo o mais que quiserem nos mostrar.

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Carolina Vila Nova é brasileira. Tem cidadania alemã, 40 anos. Escritora e Roteirista. É autora dos seguintes livros: “Minha vida na Alemanha” (Autobiografia), “A dor de Joana” (Romance), “Carolina nua” (Crônicas), “Carolina nua outra vez” (Crônicas), “Vamos vida, me surpreenda!” (Crônicas), “As várias mortes de Amanda” (Romance), “O dia em que os gatos andaram de avião” (Infantil), “O milagre da vida” (Crônicas) e "O beijo que dei em meu pai" (Crônicas). "Nosso Alzheimer." (Romance), Disponíveis na Amazon.com e Amazon.com.br



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