O ofuscar da vida

Por Carolina Vila Nova

Caminhando no parque contra a luz do sol, eu tentava enxergar a paisagem linda que se fazia com aqueles raios de fim de tarde. Brigava com meus pensamentos, ao mesmo tempo em que tentava absorver toda a beleza do momento. E assim como meus pensamentos não concluíam algo mais adiante, também meus olhos não eram capazes de enxergar contra tanta luz.

Minha visão turva naquele instante me ajudou a perceber a naturalidade de alguns momentos que também nos chegam de forma ofuscada.

Certa vez conversando com meu filho, ele me disse: “Eu não tenho uma boa estratégia de vida, não sei o que fazer”. Eu disse a ele que também não havia aprendido a ter uma estratégia pessoal desde cedo, e que fui aprendendo com o passar dos anos e as dores em meu caminho, a traçar alguns planos para minha vida. E um bom plano na hora da dúvida era riscar da lista ao menos o que não queria para mim. A regra da eliminação era um bom suporte em meus dias mais imaturos.

Há um bom tempo também entendi que nem sempre a vida segue como planejamos. É boa lição fazermos a nossa parte: estudamos, trabalhamos e buscamos entender a nós mesmos, para a realização daquilo que nos torna felizes. Seja a situação financeira, amorosa ou familiar. Autoconhecimento: cada um busca compreender como e onde a felicidade lhe atinge.

Mas a boa verdade é que a vida não é traçada apenas pelos nossos desejos, planos ou estratégias. Existem as voltas que a vida dá, as quais ninguém pode prever ou controlar. Como uma tempestade repentina, muitas vezes algo acontece que nos muda por dentro e por fora. Um furacão que passa de repente e transforma tudo: um amor, um trabalho, uma amizade, um acidente, a perda de um ente querido e tantas coisas mais.
Recentemente mudei minha vida. Um novo trabalho, novas pessoas, nova rotina e a busca por uma nova moradia. O adeus à zona de conforto deu lugar aos novos desafios, com todos os medos que isso possa representar. E então, caminhando no parque e tentando enxergar contra a luz do sol, entendi que algumas mudanças, mesmo que não tenham sido planejadas ou sequer sonhadas, também têm a beleza daquilo que não se pode ver.

A vida pode vir a ser uma eterna mesmice para quem se recusa a sair de sua zona de conforto. Como pode vir a ser uma divertida montanha russa a quem encara os desafios com o mesmo olhar que tentamos enxergar uma paisagem contra a luz do sol. Por mais difícil que seja ver ou entender o que se está à frente, a beleza por trás da dificuldade nos atrai de forma sublime para a inexplicável fé que nos move sempre para frente.
Por que no fim das contas, tudo na vida é uma questão de medida e equilíbrio. Fazemos nossa parte, construímos planos e estratégias para a realização de nossos sonhos. Mas ao mesmo tempo aceitamos quando a Senhora Vida chega e impõe tudo de outra forma.

Não somos totalmente donos de nossos destinos, mas somos os dançarinos neste palco chamado vida. E se a luz do sol em algum momento nos ofuscar, saibamos ver a beleza que existe na incerteza do dia seguinte.
Que o ofuscar da vida se torne apenas um momento de fé, tão bonito quanto o fim de tarde de um dia qualquer.

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Carolina Vila Nova é brasileira. Tem cidadania alemã, 40 anos. Escritora e Roteirista. É autora dos seguintes livros: “Minha vida na Alemanha” (Autobiografia), “A dor de Joana” (Romance), “Carolina nua” (Crônicas), “Carolina nua outra vez” (Crônicas), “Vamos vida, me surpreenda!” (Crônicas), “As várias mortes de Amanda” (Romance), “O dia em que os gatos andaram de avião” (Infantil), “O milagre da vida” (Crônicas) e "O beijo que dei em meu pai" (Crônicas). "Nosso Alzheimer." (Romance), Disponíveis na Amazon.com e Amazon.com.br



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