O merecimento

Numa sucessão de conselhos, uma amiga me disse: “Você tem que entender que você tem merecimento. Você ainda não entendeu isto: que você merece”.

Dentre tantas coisas que ela queria me dizer em um determinado contexto, e disse, ela me fez ir fundo em meu passado e em tantos pontos da minha vida que me obrigaram àquele momento: a necessidade de tal conselho.

Afinal, por que depois de tantos anos e maturidade adquirida, eu possuía uma autoestima ainda carente de entender o meu merecimento numa determinada situação? Seria apenas eu a passar por isso?

Parece que a quantidade de críticas acumuladas em minha história, ainda que distantes em algum lugar, permaneciam vivas em mim. A falta de apoio nas horas necessárias, o desafeto no momento mais carente de amor e o orgulho onde deveria ter havido perdão: a incompreensão nos momentos mais confusos e doloridos. Por mais que se referisse a algo no tempo passado, os traumas se mostravam presentes.

Num mundo e sociedade de “morde e assopra”, o viver pode parecer simples e rápido, como se superássemos tudo o tempo todo. Mas as dores do dia-a-dia marcam a nossa alma e moldam aquilo que somos.

As dores da infância, aquilo que vivenciamos e muitas vezes o que não vivenciamos deixa suas feridas. Os habituais: “deixa pra lá”, “não chore”, “seja forte” agem como um verdadeiro desprezo à nossa necessidade de sermos amados e aceitos.

Por mais que tivesse me tornado um ser adulto, cheio de conquistas e relativa segurança interna, me dei conta, que dentro de mim ainda agiam as memórias negativas do meu passado.

Afinal, somos todos criticados e diminuídos em vários momentos da vida. Muitas vezes por aqueles que mais amamos ou de quem mais esperamos a compreensão.

Com o tempo aprendemos sim a ignorar as críticas e seguimos em frente mesmo com o desgosto. Entendemos com o passar do tempo que elas fazem parte: algumas acrescentam, outras ensinam e algumas devem ser descartadas.

Boa parte delas deixa marcas que ninguém vê, mas que cada um sente de alguma maneira, especialmente nos momentos de desequilíbrio.

Mas a vida adulta não nos traz apenas a maturidade e uma carga de lembranças positivas e negativas, ela também nos dá a oportunidade de olhar para trás com olhos mais sábios e pensamentos mais claros.

Se em tantos momentos eu havia sido criticada e me via numa situação especial em decorrência disso, agora eu também vivenciava um momento de glória, onde alguém me chamava a atenção para algo que quase desconhecia, que não havia escutado com frequência: “Você merece!”.

Se havia merecido as tantas críticas, não sei. A vida é quem sabe. Ao menos sei que me impulsionaram para frente e me tornaram forte. E agora eu posso, finalmente, colher seu resultado: o do reconhecido merecimento!

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Carolina Vila Nova é brasileira. Tem cidadania alemã, 40 anos. Escritora e Roteirista. É autora dos seguintes livros: “Minha vida na Alemanha” (Autobiografia), “A dor de Joana” (Romance), “Carolina nua” (Crônicas), “Carolina nua outra vez” (Crônicas), “Vamos vida, me surpreenda!” (Crônicas), “As várias mortes de Amanda” (Romance), “O dia em que os gatos andaram de avião” (Infantil), “O milagre da vida” (Crônicas) e "O beijo que dei em meu pai" (Crônicas). "Nosso Alzheimer." (Romance), Disponíveis na Amazon.com e Amazon.com.br



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