O feio exigente

Curtindo uma tarde no clube, estava rodeada por pessoas na área da piscina. Ao meu lado, havia um casal com uma criança, que até então, em nada havia me chamado a atenção. Não tinha reparado na aparência deles. Até porque, num clube há todo tipo de pessoa. Me interessa curtir o dia, e não me ater à figura de ninguém.

Quando a mulher ao meu lado tirou a roupa e sentou-se na cadeira, seu marido falou bem alto: “gorda”! E saiu fazendo sinal de negação com a cabeça. Por causa deste episódio então, eu me dei conta de como ele era: estatura média, careca, muito, muito peludo e gordo. Ele deveria estar pelo menos uns vinte quilos acima do peso, ou mais. Bem mais tarde, quando sua esposa se levantou, eu pude perceber que ela era bem mais magra e bonita do que ele. E mais um tempo depois, tudo o que esta mulher fez, foi colocar uma toalha sobre sua barriga o resto da tarde.

Eu fiquei triste por ela ter sido abordada daquela forma, supostamente por alguém que gosta dela. Mas fiquei mais triste ainda, por sua única atitude ter sido colocar uma toalha sobre seu corpo.

Já há alguns anos aprendi que não vale a pena permanecer ao lado de pessoas que nos criticam. Não interessa se os pontos criticados são a aparência, o comportamento, a educação, ou o que for. Amigo de verdade pode até dar um “toque”, mas se recolhe, se você não está disposto a mudar alguma coisa. Cada um a seu tempo. Certas coisas são imutáveis para algumas pessoas. Há de se respeitar o tempo e a escolha de cada um.

Independente de quanta beleza se tenha, não se dever criticar o feio. Nem o rico, o pobre ou o intelectual o menos favorecido intelectualmente. Mas pior do que ser criticado em algum ponto fraco, é ser criticado por alguém que não se enxerga. Por alguém que tem o mesmo defeito ainda em maior escala.

Infelizmente, vivemos numa sociedade cheia de hipocrisia. Vez ou outra, inevitavelmente, vamos nos deparar com aquele tipo de pessoa, que acha que sabe tudo melhor do que os outros e está sempre disposto a apontar o dedo aos demais. Mas pior do que isso é aceitar tal hipocrisia como verdade.

Pior do que ser feio, pobre, mal educado ou menos favorecido no que quer que seja, é ser a típica pessoa que não vê os próprios defeitos e está sempre criticando os outros. E bem pior ainda é aceitar ser vítima dessas pessoas, sem nem pestanejar.

No Facebook há uma frase que gosto muito, que regularmente se repete na rede: “Antes de diagnosticar a si mesmo com depressão ou baixa autoestima, certifique-se de que você não está, de fato, cercado por idiotas”. (Sigmund Freud). Simplesmente o pai da psicanálise, já atentava para o fato, do quanto as más companhias podem nos influenciar negativamente.

Tudo o que quero dizer é: não importa quem você é, e nem como você seja. Ninguém tem o direito de tentar diminuir você e sua autoestima. É importante aprender a se proteger desse tipo de pessoas e atitudes. Amor próprio e auto aceitação são ingredientes básicos para uma vida feliz e saudável. Conselhos são bons e críticas construtivas também. Mas há de se olhar com antecedência e atenção, de onde está surgindo a crítica e quais suas verdadeiras intenções, para que não sejamos mais um tentando se esconder com uma toalha, de alguém que precisaria de uma toalha ainda bem maior.

Os que merecem estar ao nosso lado, jamais nos farão usar qualquer coisa, para escondermos quem somos ou como somos. Amar-se de verdade, inclui o afastar-se daqueles que nos fazem mal!

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Carolina Vila Nova é brasileira. Tem cidadania alemã, 40 anos. Escritora e Roteirista. É autora dos seguintes livros: “Minha vida na Alemanha” (Autobiografia), “A dor de Joana” (Romance), “Carolina nua” (Crônicas), “Carolina nua outra vez” (Crônicas), “Vamos vida, me surpreenda!” (Crônicas), “As várias mortes de Amanda” (Romance), “O dia em que os gatos andaram de avião” (Infantil), “O milagre da vida” (Crônicas) e "O beijo que dei em meu pai" (Crônicas). "Nosso Alzheimer." (Romance), Disponíveis na Amazon.com e Amazon.com.br



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