O eu que vai dentro de mim

“Traçamos caminhos de tropeços e curvas sem fim daquilo que somos. Resumi em metades de um sonho a experiência humana.”

Alguém me disse essa frase quando eu era bem nova, e eu nunca consegui esquecer… e nem saber de quem é. Mas ela sempre me trouxe um sentido único: de que nunca fugimos à nossa essência. Nem para o mal e nem para o bem. Se esta existência é real, ou apenas o devaneio de um deus brincalhão, temos que passar por ela com a forma que nos cabe e a alma que alimentamos. É o que podemos… assim eu pensava.
Mais adiante outra frase se somou a esta, me fazendo quase estabelecer uma certeza:

“Todo dia, quando acordamos, temos sempre que lembrar quem somos.”

David Cronenberg por ocasião do lançamento de seu filme Marcas da violência.
Dessa vez eu sei de quem. E o quando, desde que eu vi o filme em 2005 (e ela sempre me volta… me dá a volta).
A lembrança recorrente e cotidiana dessa nossa essência é algo que por vezes não damos conta, mas que em geral nos acompanha em momentos que queríamos ou não… E, em verdade, está todo dia na cabeceira ao abrirmos os olhos.
Ninguém é só o que parece…

O que eu acho intrigante é que, na maioria das vezes, somos mais. E bem melhores. Quase todo mundo opta por sublimar a imensidão que vai no peito, não a deixa emergir… Ora por timidez, ora para ter sossego, aqui por excesso de autocrítica, ali só para se preservar, acolá para tentar ser mais do que se crê… Nada errado em querer calar aquela vozinha supostamente indesejada, e que já causou constrangimento. Só não devemos sufocá-la, nunca!
É aí que entram as frases. É aí que tudo faz sentido. Saber o que somos é vital.

Toda manhã quando nos olhamos no espelho, a nossa essência nos olha de volta, só que alguns a disfarçam tão bem e tão fundo, que nem a reconhecem mais… Problema nenhum, não fossem também o reflexo dela. Mas o pior é o fato de estarem perdendo a chance de conviver com o que tem de mais autêntico. E isso não tem preço, mas tem paga!

Sabe aquele brilho no olho de alguém, aquela energia boa, uma confiança desmedida, o astral que contagia? É só o que vai dentro transbordando. E isso é percebido a quilômetros de distância. E é encantador. E volta na forma de alimento ao ser. Energia é coisa que circula.

No nosso dia a dia, tudo costuma ser menos dramático do que no cinema, ou será que não. Certa vez eu estava numa oficina para criação de roteiro pra cinema, e a proposta era escrever um curta com a história de alguém conhecido, próximo. Comecei a observar mais amiúde as vidas dos que me eram chegados… E todas, absolutamente todas dariam filmes fantásticos! E sem muita necessidade de perspectiva no olhar. Vida do jeito que é.

Só que na correria cotidiana, a gente não se dá conta do quanto é único. Com o acúmulo de tarefas e de labutas e de cobranças – impostas ou absorvidas, muitas vezes podemos nos perder do nosso eu essencial. Temos que ter sempre a consciência das suas vontades urgentes, das suas verdades concretas, dos seus planos longos, dos seus sonhos! De amor, de valsa ou de padaria… Tudo vale, desde que tragam os nossos desejos reais. E junto o estímulo, e junto a esperança, e o gosto e a cor. Sem isso a vida fica ligada num automático que corre… e passa na janela, e voa. E desperdiçamos justo as asas que nos levariam mais alto.

Fecho com uma frase de uma das minhas poetas de toda hora e de todo onde, Hilda Hilst:
“Olha-me de novo. Com menos altivez. E mais atento.”
Olhemo-nos sempre! Com menos sensatez. E mais fundo.

::: O filme Marcas da Violência (spoilers leves – quem ainda não assistiu, pare a leitura por aqui!) fala de um homem que a certa altura é obrigado a revisitar seu passado, e com ele remexer instintos enterrados e tentar entender quem é de verdade ou quem gostaria de ser. Mostra como as aparências podem ser suficientes, mas tem a fragilidade de uma mentira cristalina. Trata de questões sobre como até que ponto, para se preservar a identidade humana, é preciso que se distancie da natureza em estado bruto. E como as escolhas podem ser ao mesmo tempo certas e perversas. Ação que faz pensar. :::

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Paula Quinaud
Designer de Ambientes e Produtos, por profissão. Especialista em Arquitetura Contemporânea e Cinema, por interesse. Professora Universitária, por pura vocação. Mãe em tempo integral, por um amor imenso. Catadora de palavras, por necessidade absoluta.



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