O esqui e suas lições

Eu nunca tinha esquiado na minha vida. Meses atrás aceitei o desafio de aprender. Como uma criança que chega na escola pela primeira vez, eu nem sabia o que esperar, apenas estava fascinada pela maravilhosa paisagem. O professor me ensinou a vestir os esquis e explicou que os principais movimentos eram nas pernas e que eu aprenderia movimentos novos com os pés e joelhos. Jamais deveria usar os braços e mãos com o intuito de freiar. Como qualquer aprendiz, esse era meu primeiro instinto, e pá! Rolava na neve cada vez que usava os “palos” para parar.

Segundo ele, eu colocava muita força nos pés e não deveria ser assim, afinal, era só uma questão de jeito e não de força. “Geralmente é no final do dia que os alunos esquiam melhor, não porque praticaram o dia todo, mas sim porque estão mais cansados, portanto, não possuem mais força e resistência e conseguem fazer os movimentos mais suaves e intuitivos que os esquis pedem”. Essa frase foi como um sol após a tempestade. Foi de uma profundidade porque encontrei nela a resposta para muitas outras situações da vida, é aquele famoso: “não force, simplesmente flua, não resista, siga o fluxo”. Não é interessante?

Mas o freiar continuava sendo minha maior dificuldade. Ou eu ia feito uma lesma com a ponta dos esquis juntos para ter controle da velocidade, ou então, eu ia numa rapidez louca com os esquis paralelos. A velocidade alucinante em uma descida rodeada de neve no “meio do nada” me dava pavor e esse sentimento me dominava e eu me jogava no chão para parar. Caía, algumas vezes gargalhava, em outras chorava com aquele sentimento “eu nunca vou aprender isso”.

Num desses tombos decidi ficar na neve, no meio da descida, parada e chorando até passar meu pavor. Diversas pessoas passavam por mim oferecendo ajuda e eu com minha cara de adulta sorria simpaticamente dizendo:

– Não obrigada. Estou um pouco cansada e gostei da paisagem.
(os óculos de esqui escondiam minhas lágrimas)

Tão hipócrita, tão apavorada por dentro com medo de levantar e não conseguir colocar os esquis sozinha. Tão perdida dentro de tantos sentimentos e convenções. Algo em mim falava para eu pedir ajuda, mas por outro lado, eu tinha tanta vergonha de ser aprendiz e estar lá, em uma pista cool de pessoas mais avançadas.

Nessa reflexão, torrando a cara no sol, sentada na montanha, desolada na neve comecei a repassar muitos pensamentos. Entre eles pensei:

– Caí porque eu estava em uma velocidade acima da qual me sinto confortável. Estou em uma pista para pessoas com mais experiência que eu, portanto, eu mesma me coloquei em toda essa situação para lá de desconfortável. Ok! Preciso treinar mais acelerar e freiar, mas para isso devo praticar em pistas onde eu me sinta confortável e não onde eu posso cair em um abismo glacial.

Nesse momento, após esse pensamento, pensei em quantas vezes na minha vida me coloquei em situações assim. Trabalhos, relacionamentos, amizades… Vou em um ritmo alucinante, praticamente uma kamikaze, e daí pááá, levo um tombo fenomenal que cada esqui voa para um lado e minha carinha fica mesmo na beira do abismo. E qual é o segredo para eu mudar este padrão comportamental da minha pessoa? Re-la-xar. Com corpo e mente relaxados “todo mundo esquia melhor”. Nossa! Foi um momento de luz para toda uma vida!

De repente vejo um menininho de 7 anos descendo a pista sozinho. Em zig zag. Foi tão engraçado, porque vi ele e pensei: dele não tenho vergonha. Pedi sua ajuda e muito fofo, ele disse:
– Estou descendo com a minha mãe e irmã. Vou esperar aqui com você elas para ver se minha mãe deixa eu descer com você.

Fim da história: ele e a irmã desceram sozinhos no pau e a mãe, super fofa, desceu comigo me mostrando e-xa-ta-men-te o movimento que eu precisava fazer. Ela fazia e eu repetia. Quando finalmente chegamos, eu é claro chorei a agradecendo e levei bronca:

– Não desça mais essas pistas vermelhas. Você é iniciante, só pode descer nas azuis.

E as criancinhas, menino e menina, disseram:

– Nós éramos que nem você mas de tanto esquiar aprendemos a controlar a velocidade. Então não desista, fica na azul até o dia que se sentir bem e confiante.

Pois é! Crianças, mãe de crianças e professor de esqui me deram tantas lições de vida.

Se pudéssemos sempre nos enxergar com esse olhar de aprendiz diante da vida, tenho certeza que haveria pessoas mais tranquilas, humildes, colaborativas e certamente, mais seguras e confiantes. Relaxados e descendo pelos caminhos que nos favorecem, somos muito mais felizes e realizados, não?

Imagem de capa: anatoliy_gleb/.shutterstock

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Helena Cecília de Fraga Verhagen

Helena é jornalista de formação e escritora por intuição. Nasceu em São Paulo, viajou pelo mundo e agora parou na Espanha. Em 2015 lançou seu primeiro livro “O Mundo é das Bem-Amadas” que trata sobre o amor próprio e intuição. Vive a vida para contar histórias. Escreve para o seu site, que leva o mesmo nome do livro (www.omundoedasbemamadas.com.br) e outras mídias que abordam sobre o tema autoconhecimento.


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