O esculacho

Por Carolina Vila Nova

Esculacho: Ato ou efeito de esculachar.

Repreensão, crítica severa ou ofensiva. Grande confusão. Apesar do som sempre engraçado desta palavra, ela nunca me soou tão divertida quanto na semana passada, quando uma grande amiga me confessou: “Carol, eu sempre adorei seus textos, mas, ultimamente, eu tenho gostado mais ainda, por causa do esculacho contido neles. Parece que você está brigando mesmo com aquilo que incomoda. E eu estou adorando ver isso”.

De imediato, senti um peso na consciência e me fiz diversas perguntas. Estaria eu debochando de alguém? Será que estava sendo negativa? Ou até mesmo vingativa? Com consciência do poder de opinião como escritora, sempre fiz questão de ser fiel a mim mesma em meus textos, transparente como o quê. Mas sempre respeitando o anonimato dos demais (por mais que desejasse expor uns e outros na hipocrisia deles mesmos). Nunca desejei usar a minha facilidade com a escrita para denegrir a imagem de ninguém. Conto o milagre, mas não conto o santo.

Então, eu tive que buscar, na memória, os meus últimos textos, para entender o ponto tão fortemente percebido pela minha amiga. Sensível como tal, ela devia ter alguma coisa a me dizer de verdade em sua observação. Isto era fato.

Sabia que, nos últimos meses, algumas reviravoltas intensas haviam acontecido em minha vida. Meses atrás, também minha terapeuta de Constelação Sistêmica me afirmou categoricamente: “Seus textos vão mudar! Você vai começar a escrever sobre outras coisas.”. E não é que a minha terapeuta e a minha amiga tinham, então, razão?

Eu não era mais a mesma pessoa de seis meses atrás. Na verdade, não sou nem a mesma Carolina de ontem ou de semana passada. E sequer me pareço com a de um ou dois anos atrás.

Quando leio alguns textos publicados, percebo uma imaturidade romântica e carente em quase todas as matérias. Carência que se foi (até que enfim) e imaturidade que saiu do lugar. Minhas ideias deram espaço às novas reflexões, principalmente no que diz respeito à família, filho, educação e tudo aquilo que envolve a evolução de mim mesma como pessoa, mãe, filha, um ser humano pensante e consciente.

Se esculachei, não sei. Mas aproveito a oportunidade para o esculacho de mim mesma. Daquilo que fui ontem e por tudo que eu ainda desconheço. Se esculacho agora o que não gosto deve ser pela autoconfiança obtida, nos últimos tempos, com os novos tapas na cara que a vida trouxe. Aliás, bom mesmo é perceber que o tapa na cara é, na verdade, apenas um chacoalhão para se sair do lugar. De um ponto estagnado, já velho e saturado, para um ponto novo, melhor e cheio de aprendizado.

Porque esculacho bom mesmo é aquele que a gente faz de si mesma, das velhas ideias, das velhas crenças, das histórias que nos mudaram de lugar. Esculacho gostoso é o poder rir dos próprios erros, porque se aprendeu com eles. Entender que o esculacho da vida é o que nos leva adiante.

Esculachar alguém pode até ser divertido, de um ponto de vista mais imaturo e de espírito de porco, mas, mesmo com o esculacho de alguém, assim se tira um aprendizado. Aprendizado de vida.

Se eu esculachei? Não sei. Perdão, se alguém se sentiu assim. Mas o meu grande esculacho mesmo é apenas com o lado ruim de mim mesma, dando um pontapé naquilo que deve ir embora. Dando adeus ao que não serve e abrindo as portas para o melhor que puder vir.

Esculacho? Pode até ser, mas, em seguida, vem algo melhorado.

É assim que é!

esculacho

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Carolina Vila Nova é brasileira. Tem cidadania alemã, 40 anos. Escritora e Roteirista. É autora dos seguintes livros: “Minha vida na Alemanha” (Autobiografia), “A dor de Joana” (Romance), “Carolina nua” (Crônicas), “Carolina nua outra vez” (Crônicas), “Vamos vida, me surpreenda!” (Crônicas), “As várias mortes de Amanda” (Romance), “O dia em que os gatos andaram de avião” (Infantil), “O milagre da vida” (Crônicas) e "O beijo que dei em meu pai" (Crônicas). "Nosso Alzheimer." (Romance), Disponíveis na Amazon.com e Amazon.com.br

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