O domingo e os sentimentos sinceros

Por Josie Conti

Eu tive um professor de química no ensino médio, antigo colegial, que sempre dizia ao justificar sua agitação: ” Se eu paro, eu penso; se eu penso, eu choro. “

É evidente que sua frase era dita em tom humorístico, mas, como muitas das brincadeiras que vemos por aí (inclusive as nossas), trazia em si grandes e possíveis verdades. A frase remetia a ideia de que para não entrar em contato com sentimentos indesejados e que fazem chorar, a melhor opção era não parar.

É necessário um dia para eclipsar a rotina. Um dia que, independente de simbologias religiosas, permita-nos respirar em outro ritmo, sentir o ar preenchendo os pulmões e estendendo a vida dentro de nós para, depois, expirar o alívio de um existir mais leve, aquele que só a mais verdadeira reflexão pode promover.

Tem gente que não gosta de domingo, considera-o entediante, triste, um luto que precede mais uma semana de trabalho.

Mas, a não ser que a pessoa trabalhe em turnos ou com plantões, domingo há de ser sinônimo de um tempo a mais. Não perceber essa realidade a seu favor é como existir, dia a dia, como o cachorro que corre atrás do próprio rabo e até o morde, mas, que não entende que, assim como o rabo é dele, a dor que vem da mordida também o é. Ele não junta os pontos. Ele sente a dor, mas, não lhe atribui o significado da origem. Ele sangra, mas, não deixa de se machucar porque não percebe que são seus próprios dentes que o perfuram.

Ter tempo para si é respeitar o corte, buscar a sua origem e permitir a cicatriz. Aquele que entende o percurso de sua história se orgulha das marcas que carrega na carne.

Parar e silenciar um lado de nós é também oportunidade de ampliar outras capacidades. Incomparável é a beleza adaptativa daqueles que, ao perderem alguma capacidade, superam-se em outros aspectos de suas vidas. São exemplos os cegos que veem mais do que nós, os mudos que falam com as mãos, os paraplégicos que dançam com o olhar…

Mas, se alguns só desaceleram por força de uma deficiência física, de um acidente, de uma depressão ou mesmo de um luto – fatores não opcionais, nós podemos promover um desacelerar consciente como chance de contemplar a vida, atentar-nos para os detalhes ou, como diria Manoel de Barros, viver no mundo das insignificâncias.

O sentimento encontrará então chance de fluir por todo nosso corpo, cairá em nossa corrente sanguínea, irrigará veias e artérias.

Se for necessário, o sentimento deve também chorar, espernear, descabelar-se. Tudo o que precisar até que possa se recompor para a próxima semana. Mas, isso leva tempo e exige pausa. E o tempo deve ser parâmetro de medida liberado para o sentir, para aquele sorriso maroto se formar nos lábios, para os olhos se encontrarem com suas lágrimas, para que o corpo se ajuste ao seu próprio ser.

Sentir com tempo é não bater asas, apenas planar enquanto se observa o horizonte.

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Josie Conti
Blogueira e empresária. Após trabalhar anos como psicóloga, abandonou o serviço público para manter seus valores pessoais. Hoje, a Josie Conti ME e sua equipe trabalham prioritariamente na internet na administração funcional, editorial e publicitária de redes sociais e sites como A Soma de Todos os Afetos e Psicologias do Brasil, além de várias outras fan pages que totalizam cerca de 6.5 milhões de usuários. É idealizadora da CONTI outra, o projeto inicial que leva seu nome.



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