O descascador de laranjas

Há muitos anos, conheci um homem. Na verdade, ele já era um conhecido. Mesmo assim, foi uma pessoa que eu demorei a conhecer de verdade. Como era criança, foi necessário que eu crescesse e tivesse os meus próprios conceitos e experiências, para avaliar aquele senhor. Tinha dele certo medo, pois ele era bravo e estava sempre trabalhando. Com o passar dos anos, fui obrigada a falar com ele, principalmente nas horas em que dele precisei. A convivência foi difícil, porque os problemas foram muitos. Apesar de ver claros, em minha personalidade, muitos traços desse senhor, também vejo várias opiniões e comportamentos que dele divergem.

Meu pai, o senhor a quem me refiro, nunca foi uma pessoa fácil. Pelo menos lá em casa. Endurecido pela vida extremamente difícil que teve, até o encorajei a escrever um livro contando sua história. Ele me respondeu, com sua típica sinceridade, que sempre arranca risadas da família: “Eu não, ninguém vai acreditar.” Acho que ele tem razão; as histórias são tão absurdas, que ninguém acreditaria. Eu, até hoje, tem coisas em que ainda não acredito. Mesmo quando fui testemunha.

Família a gente não escolhe, aceita. Tem problemas como todas têm: umas mais, outras menos; só muda o endereço. As histórias da minha família não dariam um livro, mas, no mínimo, uma trilogia. E venderia horrores. Mas não escrevo, senão serei um membro a menos.

Já na terceira idade, meu pai não mudou muita coisa, desde que eu era criança. Apesar de sua rudeza, seus pequenos olhos azuis sempre foram doces. Mesmo quando está bravo, pode-se ver, em seus olhos, a dor que sente com sua própria revolta. Ele não aceita muito bem a falha dos outros. Compreensível, para alguém que é tão correto. Mas tem uma coisa, sim, em que ele mudou muito. Se, quando criança, ele reclamava dos gatos de rua que eu vivia levando pra casa, semana após semana, hoje em dia é ele quem arruma seus próprios gatos. Gosto de pensar que ele faz isso pensando em mim. Não sei se é isso, mas prefiro acreditar que sim.

Amor, cada um expressa de uma forma. Há os que amam com possessividade, outros com ciúmes e até os que reconhecem, na agressividade, um tipo de amor. Diz a psicologia que tudo depende do que aprendemos na infância.

Não tenho muitas memórias do meu tempo de criança. Diz meu psicanalista que tenho bloqueio. Mas isso já é outra história. Só sei que o meu conceito de amor também é diferente. Cada um busca uma forma de amor, porque, no fundo, independentemente de como for, todos nós precisamos amar; não é uma opção apenas, mas uma necessidade. Se amar dói, não amar mata. E mata devagar.

Lá em casa, cada um ama de um jeito. Um jeito mais torto do que o outro. Importante é reconhecer que ele está lá: o amor de que a gente precisa.

Meu pai nunca foi de palavras doces. É tão duro e sincero que, muitas vezes, chega a ser grosso. Mas é uma grosseria tão única, que a gente ri. Certa vez, meu irmão mais velho ficou chateado porque tinha ido pescar e, em seguida, ficou à espera da família para fazer os peixes para a gente. Ninguém compareceu. Sabendo da decepção do meu irmão, meu pai falou bem alto: “Ninguém quer peixe”. Aquilo foi de uma indelicadeza tão engraçada, que virou jargão na família.

Pois é, aquele senhor de quem eu tinha medo na tenra idade hoje já diminuiu de tamanho e até baixou o tom de voz; anda mais calmo ultimamente. Eu, sua filha caçula, sou, como ele muitas vezes reclamou, bem preguiçosa para certas coisas; uma delas, para descascar laranjas. Mas, como o senhor ranzinza sabe que eu amo laranja lima, ele mesmo, aos setenta e quatro anos idade, sobe no pé e descasca dezenas da fruta para mim.

Eu não tenho um dicionário do amor para cada maneira de amar que existe, mas sei que essa é a expressão que meu pai usa para dizer “Eu te amo”.

E essa é a minha forma de responder ao meu descascador de laranjas. A lembrança mais doce que sempre levarei comigo. E não é da laranja.

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Carolina Vila Nova é brasileira. Tem cidadania alemã, 40 anos. Escritora e Roteirista. É autora dos seguintes livros: “Minha vida na Alemanha” (Autobiografia), “A dor de Joana” (Romance), “Carolina nua” (Crônicas), “Carolina nua outra vez” (Crônicas), “Vamos vida, me surpreenda!” (Crônicas), “As várias mortes de Amanda” (Romance), “O dia em que os gatos andaram de avião” (Infantil), “O milagre da vida” (Crônicas) e "O beijo que dei em meu pai" (Crônicas). "Nosso Alzheimer." (Romance), Disponíveis na Amazon.com e Amazon.com.br


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