O ciúme é a mordaça do amor

Quando penso sobre o ciúme não consigo desvincular a percepção desse sentimento ao egoísmo. Ambos remetem a um sentimento de posse. Os ciumentos e os egoístas tratam pessoas e objetos como se fossem da mesma natureza.

A diferença se encontra, talvez, no fato de associarmos o egoísmo mais a um sentimento relacionado aos objetos e o ciúme mais às pessoas. Mas quando uma pessoa trata a outra como se sobre ela tivesse posse, ela torna essa pessoa um objeto e a destitui de toda a sua humanidade.

Há quem considere o ciúme uma prova de amor. Esse é um equívoco de monstruosas dimensões. Mesmo a insegurança tímida que todos nós estamos propensos a sentir, o medo de perder algo, isso não diz respeito a amor, mas a uma relação conflituosa consigo mesmo.

A própria ideia de perder está amarrada à ideia de ganhar. E o que ganhamos? O que perdemos? Coisas, não pessoas. Pessoas não pertencem a ninguém. Elas existem, são autônomas e escolhem. Ganhar e perder têm a ver com jogos, com competições, não com amor.

Se por um lado definir amor é algo perigoso, é possível ao menos refletir sobre como ele se manifesta. Gosto, prazer, afeição, admiração, respeito, vontade de estar perto, de estar ao lado, de ajudar, de ser conhecido e conhecer. É troca, encontro e reconhecimento.

Não há amor que destrua, que desmereça, que agrida. A questão é que o amor nunca está só, ele vem acompanhado de muitos outros sentimentos, e no meio desse coquetel de emoções podem haver aquelas que são destrutivas. Só não vale dizer que foi por amor… Quando as relações tomam um rumo destrutivo, houve uma guerra de afetos na qual o amor foi vencido.

Dessas emoções que destroem e desejam reinar sob todas as outras, o ciúme é provavelmente uma das mais potentes. O desejo de possuir o outro para si, de ter os olhos do outro somente sobre si, de ter os afetos do outro exclusivamente para si, de ter domínio sob as ações e emoções do outro. Isso é o ciúme. É anular o outro para todos os universos, anula-lo de si mesmo, tornar-se para ele um deus que dita as normas e deve ser adorado. Uma atitude egoísta.

O ciumento deseja ser o centro da existência do outro, deseja ser mais importante para o outro do que ele mesmo. Quer provas de amor, uma exclusividade doentia. Não se pode olhar para o lado sem ser julgado e todos os outros também estão na sua mira. Qualquer afeto vindo de fora em direção ao seu “objeto de amor”, por mais inocente que seja, é nocivo, é maldoso, é destrutivo. O cimento, se pudesse, se fecharia em uma bolha com o seu objeto amado, para que nada mais no universo pudesse atraí-lo.

Erroneamente pensamos que o ciumento gira em torno do seu objeto de posse, que vive em função dele, que só enxerga a ele. Mas, na verdade, ele só gira em torno de si mesmo, sem, no entanto, aprofundar-se em si. O ciumento está impedido de amar. Seu amor está interrompido por uma recusa em enxergar além da própria superfície.

Ele diz que ama, mas não quer amar: na realidade ele está irremediavelmente carente de amor, que ser amado com todas as forças, quer ser admirado, quer ser afirmado, quer que o outro supra para ele sua própria incapacidade de amar a si mesmo.

Nessa ânsia de amor ele o amordaça e o aprisiona na masmorra do seu egoísmo. Não há amor que resista a uma fortaleza que não se permite penetrar. Para o ciumento todos são suspeitos, todos são inimigos, todos querem enganá-lo, todos têm inveja dele, todos querem o que ele “tem”. Não há amor que resista ao olhar sorrateiro e desconfiado diante de tudo e de todos, fechado para o mundo, simultaneamente fechado em si e perdido de si.

O ciumento é como aquele colega de trabalho que está sempre observando, julgando e criticando o que os outros fazem, mas não faz com zelo o seu próprio trabalho. Para o cimento, o amor é sempre réu e culpado.

Ele não cultiva amor. Ele não olha para o outro e vê uma pessoa: ele vê um potencial traidor. O ciumento já é traído por antecipação. É incapaz de cultivar amizades, porque todos querem se aproveitar dele. É incapaz de gozar de uma relação, porque ela está premeditada a leva-lo à ruína.

Torturado pelos seus fantasmas, ele não se esforça em conquistar a companhia do outro e todos os sentimentos que deseja saciar. Ele atribui aos outros, apenas aos outros, essa função de amar. Ele é o vigia do amor e quer aprisiona-lo, inconsciente que já o tem sob custódia em suas fantasias mais obscuras.

Ele não se esforça em ser uma pessoa melhor, mais agradável, mais amável, autentica ou o que for. É prisioneiro da ironia de ter em si o que busca no outro, de não doar o que quer receber, de não usufruir do que recebe. E de outra parte, o que o ciúme nos outros alimenta é apenas o orgulho e a vaidade.

Naqueles que se vangloriam em ser um troféu estimado, pois estão cegos ante a sua própria humanidade minando pelas fissuras do ego. Quem o ciúme cultiva e ao ciúme se submete, não conhecerá forma nenhuma de amor, seja através das amizades, das relações românticas ou mesmo das superestimadas relações familiares.

O ciúme isola as pessoas em seus pequenos universos,e para amar é preciso estar fora de si.

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Paula Peregrina
Peregrina de territórios abstratos, graduou-se em Psicologia, trocou o mestrado e uma potencial carreira por uma aventura na Letras e acabou forasteireando nas artes. Cruzando por uma vida de territórios insólitos, perseveram a escrita, a poesia e o olhar crítico, cristalino e estrangeiro de todos os lugares.



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