O amor não é lindo.

O amor não é lindo.

O amor pode ser bobo, engraçado, confortável, amigo, familiar, humano, chato, dramático. Mas o amor não é lindo.

Talvez o pré-amor seja bonito, instigante, misterioso, encantador. Talvez o nascimento do amor seja lindo. A explosão de uma energia bela, grande, a magia do sentimento reciproco, a descoberta um do outro, o encontro de químicas.

Mas, ao caminhar, tantos outros predicados se aglutinam ao amor que ele se torna outro, talvez grande, talvez forte, mas não lindo.

No amor cotidiano, o frio na barriga é substituído pela segurança de um ombro amigo. Os beijos apaixonados, pelos carinhos afetuosos. O jogo da conquista, pelos hábitos.

O que coloca cor nos dias não é mais as descobertas um do outro, o tesão à flor da pele, o amor diário se equilibra na leveza, na ternura, nas conversas, na habilidade em manter acesa a chama. Nas individualidades preservadas e partilhadas.

Compartilha-se contas, problemas, dores de cabeça, mal hálitos, olheiras,  neuroses, vícios, gripes e TPMs mas também compartilha-se companheirismo, mãos dadas, amizades, taças de vinho, ideias, empreitadas, férias malucas, planos, caretas, piadas, corpos cansados, inícios de dietas, descobertas, séries de TV favoritas, livros, rasteiras, corridas bestas na rua, cabelos brancos, segredos, eventos chatos, comidas preferidas, camisetas velhas, banheiros, camas, silêncios.

A magia do amor acaba, mas fica a beleza do caos. Fica o amor imperfeito, e isto é quase um pleonasmo!

Percebe-se que o encantamento é efêmero, mas as louças sujas são eternas. O último iogurte na geladeira desaparece, mas a lembrança do primeiro beijo e do primeiro olhar permanecem.

O amor cotidiano aprende a criar as próprias leis em uma selva chamada casa, desenvolve-se uma linguagem própria feita de sons (às vezes de bichos), de frases pela metade, de olhares que dizem textos inteiros, de silêncios que gritam, de corpos que se denunciam.

O amor é quase uma transmutação genética, misturam-se e adaptam-se os cheiros, os temperos, os jeitos, os pensamentos, as células, as contas bancarias, as agendas, os gostos, as partes do corpo.

Amar é cortar as unhas do pé do companheiro, espremer uma espinha nas costas alheia, é aprender a ler pensamentos, dialogar até nos sonhos, ter ideias ao mesmo tempo. É viver um pouco num segundo corpo. É cuidar e se deixar cuidar. É opinar na roupa, na redação, no trabalho, no corte de cabelo. É aprender a mentir de vez enquanto, tudo para não desencadear brigas desgastantes e que pouco importam.

Por essas e outras é que eu digo que o amor não é lindo, pelo menos não no sentido romântico do termo. Mas no sentido pós-moderno, talvez o amor seja a mais alta expressão do belo.

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Clara Baccarin
Clara Baccarin é poeta, escritora e tradutora. Autora do romance Castelos Tropicais (Ed. Chiado, 2015), e do livro de poemas Instruções para Lavar a Alma (Ed. Sempiterno, 2016). É uma contadora de histórias que adora poetizar o mundo. Escreve por amor e rebeldia: desconstruindo verdades, brincando com as palavras e ressignificando a vida.



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