O amor é arte, não entretenimento

Por Marcela Picanço

“Em um relacionamento amoroso, sempre mostre para a pessoa que ela pode te perder a qualquer momento, que você não está nas mãos dela”. Há tempos que escuto essa frase e sempre fico me perguntando quem foi o imbecil que a deixou solta por aí, a ponto de ter se tornado popular. A resposta é simples: qualquer pessoa pode perder outra a qualquer momento. Seja por uma morte, porque surgiu uma viagem ou simplesmente porque a pessoa de quem você gosta talvez não goste mais da sua companhia.

Inspiramo-nos em comédias românticas e achamos que a nossa vida pode se parecer com a história de um filme, esquecendo que as pessoas são muito mais complexas do que se mostram. Ensinaram a nos relacionar como se faz um bolo de chocolate e foram dadas regras para se jogar um jogo que não tem ganhador. Por isso andamos tão frustrados e sem entender o que as pessoas querem, porque, se elas saem do ‘padrão’ de comportamento esperado, a gente se desespera. Zygmunt Bauman tratou disso muito bem quando escreveu “O Amor líquido”, em que ele compara essa fluidez dos relacionamentos de hoje com o comportamento da sociedade. Rapidez e utilidade são as características mais marcantes no momento e, infelizmente, as pessoas começaram a aplicar essas fórmulas também nas relações.

Depois da Revolução Industrial, com o advento da propaganda, do marketing e de todas as estratégias para vender produtos, o mundo virou de cabeça para baixo, por não saber direito o que fazer com tanto produto para ser vendido. A cultura de massa foi muito bem instalada, a ponto de tudo se tornar massificado e superficial, inclusive os relacionamentos, que passaram a ser uma espécie de entretenimento. As estratégias de venda foram, aos poucos, inserindo-se na nossa vida pessoal e então passamos a acreditar que também éramos um produto e conseguiríamos ser “vendidos”, se tivéssemos uma boa estratégia.

Não podemos demonstrar que gostamos demais, nem ligar no dia seguinte, senão vamos parecer desesperados. Precisamos nos dar sempre pela metade, senão assusta. As pessoas forçam para que seus parceiros continuem ali, criando métodos para deixá-los sempre presos a elas. A gente provoca e se dá um pouquinho, mas depois tira. Nós não somos ações na bolsa, nem contratos, muito menos donos um dos outros. Todo mundo gosta muito de brincar com o desejo do outro, porque nos falaram que as pessoas gostam de desafio. Criamos essa ideia de que tudo que é mais difícil vale mais a pena, mas o amor não cabe nessa teoria. O amor é simples e não precisa de dificuldade para nascer. O desafio já consiste em se relacionar, porque, quando se trata de gente, nós nunca sabemos nada e mais uma vez nos encontramos à beira de um abismo. O amor se aproxima da arte porque, nos dois casos, encontraremo-nos perdidos, em algum momento, em frente a uma página em branco. Quando temos todas as possibilidades, nós nos assustamos, porque não sabemos lidar com o infinito. Temos que largar o nosso orgulho de lado para olharmos para nós mesmos e finalmente darmos o primeiro passo, a primeira palavra, o primeiro risco. Nunca sabemos o que vai fazer com que o outro se apaixone ou se desapaixone, porque, às vezes, nem ele mesmo sabe. Então, eu não sei por que criar mais mistério, se, por mais aberta que seja uma pessoa, ela vai ser sempre um mistério para o outro, porque a gente está sempre mudando.

É engraçado como inevitavelmente nos apropriamos dessas características da sociedade de consumo para nossas relações afetivas. O modelo de relacionamento vem mudando ao longo dos anos e isso é totalmente natural, mas o problema é que associamos essa relação de comprador/produto e passamos a achar que a pessoa que escolheu estar ao nosso lado é propriedade nossa. Acreditamos que temos algum direito de falar o que ela pode fazer, aonde ela pode ir, criando-se um ciclo de ciúmes estúpido, pois não aceitamos dividir o outro com ninguém. E, se formos parar para pensar, sentir ciúmes não é nada mais do que puro egoísmo e orgulho. Pois não é o medo de perder o outro, mas de perder o outro para alguém. E não aceitamos sermos trocados por aquele que achamos que possuímos.

Não existe um modo de definir ou enquadrar relacionamentos, porque as pessoas são diferentes e cada pessoa é um infinito de possibilidades. Cada ser é um pequeno universo que se cria e se transforma todos os dias. Não existem regras, só entrega e descoberta. No dia em que entendermos isso de fato, estaremos realmente preparados para amar e para entender os altos e baixos do outro. No amor não existe o certo, só existe o risco.

Arte JIRI BORSKY
Arte JIRI BORSKY
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Marcela Picanço
Atriz, roteirista, formada em comunicação social e autora do Blog De Repente dá Certo. Pira em artes e tecnologia e acredita que as histórias são as coisas mais valiosas que temos.

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