O amor é a alma-gêmea da saudade. Quem leva um ganha o outro.

"Tão logo o sol se vai, anoitece. Anoiteceu, amor. Nosso dia se foi. Mas antes se fez todo nosso. E um dia como esse dia não se vai com nenhuma noite." André J. Gomes

E de repente anoiteceu. Nossa festa ensolarada chegou ao fim. No silêncio de nossa noite, abraçamos cada um em seu canto do mundo a saudade boa da manhã povoada de vozes e cheiros, risos e cores, os comércios abertos, os casais desfilando, as mãos dadas, os velhos e as crianças apanhando sol de seu jeito, os cachorros ranhetas se estranhando à sombra segura de seus donos cheios de orgulho.

Depois veio a tarde, o calor generoso, a preguiça no fim do almoço e a tardinha mansa de sol alaranjado lá longe, o dia escorregando lento como um velho caramujo, estendendo no chão em que seguimos a pé seu rastro de luz e encontro. Nessas horas o dia é uma criança que brinca de andar de costas, vai partindo aos pouquinhos, um pé atrás do outro em marcha invertida, devagar, os olhos mirando o que em breve será lembrança, prolongando sua existência, preparando suas saudades como conta-gotas pingando noite no céu azul de nosso encontro.

Tão logo o sol se vai, anoitece. Anoiteceu, amor. Nosso dia se foi. Mas antes se fez todo nosso. E um dia como esse dia não se vai com nenhuma noite. Fica guardado em nosso aqui dentro, teimando a vida feito vela de aniversário, reacendendo nosso tempo que inicia, ensolarando nossa saudade.

Há tanto que viver ainda! Nosso dia há de brilhar em toda noite escura, todo canto só. Em cada hora entristecida há de se ouvir um riso franco, um resto de música, uma frase solta, livre, leve, um sopro de vida abrindo caminho novo, memória boa de coração alegre desfazendo o peso do mundo em nossas costas. Serão lembranças de nosso dia, recursos de nossa reserva amorosa.

Nosso dia de sol há de seguir adiante em juventude eterna. Até chegar sua hora distante de desbotar feito fotografia antiga, os cantos comidos de história, os rostos esbranquiçados, o papel puído e uma tristezinha miúda de dia cinza chuviscando dolorida. Então seremos velhos amantes sãos e salvos do tempo, escapando de nossas dores, fugindo do cuidado de nossos bisnetos para tardes de amor preguiçoso, carinhos longos, abraços de vida inteira.

Pois aqui estamos nós. Apartados de nós mesmos, vivendo sós nossa primeira noite. Por enquanto o sol vai longe e a hora é alta. Tudo agora é silêncio e solidão e espera. Tudo agora é esperança no dia de amanhã.

É noite, amor. A noite que levou embora nosso dia. Mas o que é nosso, o fogo do nosso encontro, esse nos pertence como a lembrança mais funda. Esse nem a distância, a dor, o medo, a solidão e a insegurança nos levam. Esse nem a idade apaga. O sol desse dia nem a lua nos tira. Nem a lua. Boa noite, amor. Até amanhã. Até amanhã.

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André J. Gomes
Jornalista de formação, publicitário de ofício, professor por desafio e escritor por amor à causa.



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