Notas sobre a mulher dos sonhos

"Ela é livre. Uma mulher que vive todas as suas possibilidades, que se joga no mundo em busca dos sonhos e viu em você um sonho que se desgarrou dela. Um sonho bom que por milagre tornou-se realidade".

Quando ela chegar, com seu ar vintage, com seus óculos graciosos e seu cabelo lindamente curto, você ficará desnorteado.

Ela terá todo o encanto com o qual sempre sonhou e ao te abrir um sorriso você irá fitá-la deslumbrado.

Mesmo sem nunca terem se visto antes, você a desejou nas noites perdidas e solitárias de sua vida. Ela sempre esteve lá, sentada ao seu lado, alisando seus cabelos, acariciando o seu rosto, deitando sobre seu peito.

E você contou para ela todos os segredos do seu coração e desejou que ela pudesse ser de carne e osso e ao desejá-la tantas e tantas vezes a vida decidiu desnudá-la como uma surpresa boa.

Então no mercado você a vê linda e desajeitada, derrubando produtos pelo chão e se oferece encabulado para carregar as compras dela. E ela gentil, tanto quanto você, permite que a acompanhe até o carro. Ela é intuitiva e reconhece que a sua presença mexe com ela de uma forma inexplicavelmente boa, como se tivesse encontrado alguém com o qual a intimidade fosse fácil e declarada desde sempre.

Vocês se apresentam, mas isso pouco importa, pois você sabe que a amaria mesmo que ela não lhe desse palavra alguma, mesmo que ela te ignorasse no mercado, mesmo que ela dissesse que já tem outro a esperá-la em casa e recusasse a sua ajuda.

E nesse dia depois de você organizar as compras no porta-malas do carro dela, ela lhe diz do café da tarde que pretende fazer em seu pequeno apartamento e te pergunta se sua preferência é por chá ou café.

E estranhamente você já sabe que ela curte chá inglês e ela também entende de forma misteriosa que o seu gosto é para o café, assim como para os versos que você escreve para ela todos os dias.

Você é poeta. Ela é livre. Uma mulher que vive todas as suas possibilidades, que se joga no mundo em busca dos sonhos e viu em você um sonho que se desgarrou dela. Um sonho bom que por milagre tornou-se realidade.

No caminho vocês sorriem um para o outro e ela pergunta sobre a rádio e as músicas. Algo o leva a crer que ela gosta de Elvis Presley, e você até mesmo pensa em mencionar sua predileção por Luiza de Tom ou por Fascinação de Elis, mas no fim acaba preferindo o silêncio manso que se estende reconfortante entre vocês dois. Um silêncio de cumplicidade, de trocas de sorrisos e olhares.

Você se esquece do tempo ao lado dela, você se esquece que estacionou seu carro em uma vaga proibida e que provavelmente o guincho já deve tê-lo levado.

Ela diz que no prédio de três andares onde vive não tem elevador e você fica admirado ao ler na porta do apartamento dela o seu dia de aniversário seguido pelo mês de seu nascimento: Apto 16 – Bloco 2.

Ela joga a chave em cima do balcão da cozinha e pede que entre. E ao fazê-lo você aspira o ar da casa perfumada, cheio de uma essência que estranhamente lhe parece familiar. Ela aponta o banheiro, caso precise e pede que a ajude na cozinha. Fala que vão fazer um bolo de cenoura com cobertura de chocolate e então você se lembra que nunca fez um bolo antes.

Ela lhe sorri e diz que não tem problema, pois é uma boa professora. Que inclusive dá aulas de literatura em uma escola próxima. Você pensa em lhe falar dos poemas, mas resolve guardá-los no abismo de modéstia que abrange o seu eu.

Ela tira as fôrmas dos armários e das sacolas os ingredientes. Diz que vão fazer tudo, nada de massas prontas. Coloca nela um avental e busca um para você, envolvendo seu corpo com o dela para vesti-lo.

Você passa óleo em tudo e ajuda a bater a massa. Ela faz a calda e de vez em quando experimenta o chocolate lambendo os dedos de uma forma graciosa. Você finge esquecer que já fez amor com ela inúmeras vezes em pensamento e que a vontade de fazê-lo é mais forte agora do que nunca.

Assim quando colocam o bolo no forno e olham pelo vidro como duas crianças travessas, não é preciso muito para que seus olhos se toquem com cumplicidade.

Então vocês se levantam rápido, um pouco envergonhados, ligeiramente desconcertados pelos pensamentos sugestivos para os quarenta minutos nos quais o bolo ficará no forno.

Ela te pergunta se realmente é você. E você questiona de qual você ela se refere. Ela conta da mulher que o viu nas cartas e você lhe diz que também já sabia dela, mas não pelas cartas do tarot, mas pelo desejo de tê-la em carne e osso ao seu lado. Os mesmos olhos, o mesmo cabelo com uma mecha teimosa, os mesmos lábios desejosos que habitaram seu imaginário estão ali em sua frente.

Inusitadamente você sabe como tocá-la, você sabe como alcançar sua intimidade e trazer o melhor dela para o seu mundo. Então você se aproxima um pouco mais e desamarra o avental dela bem devagar e antes que ela lhe diga qualquer coisa, você tampa seus lábios com os dedos. Você nota naquele belo rosto feminino um traço de farinha e também percebe que a sua barba guarda resquícios da aventura a dois na cozinha, mas ambos se importam bem pouco com isso.

Você passa a mão pela cintura dela. Contorna a curva delicada daquele corpo de mulher que se moldou no seu tantas vezes na imaginação e delicado inclina a cabeça dela e a beija demorado, sentindo o gosto do chocolate com o qual ela se esbaldou durante a receita. Mas dentro do calor da boca dela o gosto parece repleto também de um delicioso toque de avelã. Sim, ela embriaga carinhosa todos os seus sentidos e o faz crer que tudo que viveu até ali valeu a pena. Ela o faz desdenhar a solidão que o acolheu tão bem até ali.

Você ouve o arfar profundo dela quando seus lábios se afastam e ao abrir os seus olhos encontra outros desejosos, moldados por um largo delineador escuro. Ela tem os cílios longos e carregados de um rímel preto e a cor de sua íris é a de um mar turquesa no qual você se afogaria sem clemência.

Ela te puxa pela mão e o leva até o quarto. Nele pequenas luzes de pisca pisca contornam a parede até a cama e na cabeceira a foto da cidade na qual você nasceu. Ela sorri, diz que sempre sonhou conhecer o lugar e você entende que algo maior tramou para que vocês dois finalmente se encontrassem.

Ela deixa que você tire a blusa dela, revelando os peitos macios emoldurados por um sutiã rendado e pede com os olhos que você faça amor com ela, mas ela não precisaria pedir por nada, pois você a deseja desde muito.

Assim, delicadamente intrínsecos, mergulhados de súbito na natureza um do outro, vocês se declaram mutuamente e a sua poesia transborda para os ouvidos dela em versos, palavras, gemidos e chamados.

E quanto o forno apita, indicando que podem resgatar de lá o bolo para o café, o apito se perde em meio às suplicas carinhosas de dois que se amaram antes mesmo de se conhecerem.

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Vanelli Doratioto
Vanelli Doratioto é uma escritora paulista, amante de museus, livros e pinturas que se deixa encantar facilmente pelo que há de mais genuíno nas pessoas. Ela acredita que palavras são mágicas, que através delas pode trazer pessoas, conceitos e lugares para bem pertinho do coração.



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