Nossas crianças gostam de ser nossos filhos perto de outras pessoas

A difícil arte de educar um filho perante as exigências da sociedade: “Mamãe, acho que precisamos morar no supermercado e um pouco na sorveteria. Nesses lugares, você parece mais feliz comigo!”

Num desses dias de férias, depois de uma maratona de passeios, idas e vindas, retornamos ao nosso lar. E, após cinco minutos dentro de casa, o caos já tinha se instalado. Eu, como uma “boa” mãe, tive que colocar limites.

Em poucos minutos, todos os brinquedos que moram na casa estavam espalhados pela sala. Nem havia terminado de descarregar o carro com as compras do mercado e já estava cheia de demandas: “Eu quero tomate, pepino e manga”; “Vem brincar comigo!”; “Monte aquele avião.”

Como “boa” mãe, já fui logo estabelecendo as regras: “Vai brincar com o quê?” O que não for usar agora, guarde.” “Quem mandou você tirar todos os bonecos da Marvel do armário?” “Nem terminei de tirar as coisas do carro e você já é um homem-aranha?” “Tire essa fantasia, que está limpa e passada!” “Por que você está com fome, se acabamos de tomar um sorvete?”

Eu ainda nem tinha guardado as compras e já havia dezenas de pedidos. E situei bem meu filho, dizendo que tinha muitas coisas por fazer e que estava muito cansada e chateada com a desorganização dele.

No auge dos seus 4 anos, ele me disse: “Mamãe, acho que precisamos morar no supermercado e um pouco na soverteria.” Eu disse que acharia ótimo, mas queria saber os motivos. Miguel respondeu: “Nesses lugares, você parece mais feliz comigo!”

Essas palavras foram como um soco no estômago, cheguei até a sentir uma dor, passageira, mas uma dor. Fiquei refletindo por horas sobre esse discurso e guardei as compras, os brinquedos espalhados ficaram pela sala. Levei pepino, tomate e manga para o lanche, enquanto o Hulk destruía o Capitão América. Meu filho comeu o lanche, mas meu estômago continuava embrulhado.

Pensei que ele tem razão. Em espaços abertos e com outras pessoas, temos muitas dificuldades de exercer nosso papel de mãe/pai. A sociedade cobra que não sejamos passivos diante das birras, porém, dizem que não se deve dar castigos às crianças.

O filho não pode ser mal educado e, se for, a mãe não pode esbravejar com ele. Deve esperar chegar em casa para conversar, olhos nos olhos. Colocar de castigo também não é muito adequado, pois pode gerar traumas infantis.

Deve ser por isso que eu e outras mães nos encontramos sempre sorrindo com nossos filhos, nas gôndolas de supermercado, mesmo que estejam pirraçando. Talvez nós, mães, enxerguemos no olhar da outra a confusão interna entre tomar uma atitude educacional ou nos colocarmos submissas diante do filho e da sociedade.

Como ficou difícil ser mãe/pai, nessa época em que os filhos podem tudo e colocar regras, limites, é questionado por todos à volta. Mães, pais e educadores, precisamos conversar mais sobre essa “nova” educação. Precisamos assumir nosso papel de detentores do saber e da ordem. O papel de educar é nosso.

A sociedade atual está em crise de valores éticos e morais sem precedentes, mas exige que os pais deem liberdade ao filho, porém, colocar regras e limites às crianças está cada vez mais difícil, pois, toda vez que você dá bronca em seu rebento, tem alguém ao redor com um olhar de reprovação.

Na minha casa tem regras, tem limites e tem horário e terão que ser cumpridas por todos os habitantes da casa. É assim que funciona, é dessa forma que a roda gira.

Talvez o que o Miguel disse esteja relacionado com o fato de eu ser mais branda quando estou em outros espaços sociais. Claro que ele está certo. Não quero ser vista pela sociedade como a mãe megera que não deixa mexer onde não deve, que exige do filho um bom comportamento e que coloca limites e que os suporte sem grandes birras.

O Miguel tem razão, não cumpro minha autoridade em espaços abertos. Eu, assim como outras mães e pais, diante da cobrança social, afrouxamos nossa autoridade e isso não é fazer um bom trabalho de mãe/pai ou educador. Precisamos ser os mesmos dentro e fora de casa.

E, depois dessa reflexão, se eu não conseguir fazer isso, se eu não conseguir desempenhar meu papel como mãe na sociedade, assim como faço dentro de casa, o Miguel que me perdoe, mas eu vou morar em supermercados, bares, sorveterias, restaurantes e aeroportos e abandonar meu papel de mãe e educadora de um ser que creio ter condições de suportar limites e regras em qualquer lugar.

Peço desculpas à sociedade, mas o filho é meu e vou exercer meu papel de mãe.

Imagem de capa: LightField Studios/shutterstock

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Elisangela Siqueira

Psicóloga com especialização em Psiquiatria e Psicologia da Infância e da Adolescência e em Psicoterapia Psicanalítica Breve. Mais de 10 anos de experiência. Atendimentos presenciais e online.


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