Nós também somos a pomba que morre

 

Há menos de três meses trabalhando numa nova empresa, fiquei feliz ao ver o enorme jardim de inverno ao lado da minha sala. A estrutura do local havia sido construída para que o prédio e as pessoas pudessem usar o máximo possível da luz do dia. Além disso tinha a beleza dos bambus e pedras brancas sobre o chão. No fim das contas todo o local era bonito, mas esta parte foi a que mais me chamou a atenção.

Passado uns dois meses eu finalmente comecei a perceber que no alto dos bambus pousavam muitas pombas no final de tarde. Mas não foi exatamente no pouso delas que as descobri. A primeira pomba que eu vi, estava caminhando entre o enorme espaço quadrado do jardim ao lado da minha sala. Na correria, eu só percebi que ela estava ali sozinha e imaginei que por vontade própria.

Os dias passaram e a pomba continuava no mesmo local. Comecei a me preocupar com a fome e a sede que ela devia estar sentindo. Acho que ninguém entendeu. Mas eu entrei no jardim com vários farelos de biscoito para tentar alimentar a ave.

Até hoje eu não sei se a pomba se alimentou dos farelos de biscoito de polvilho. O bicho corria tão desesperado entre os caules de bambu, que seria impossível chegar perto dela ou menos ainda pegá-la. Falei com alguns colegas de trabalho e solicitamos que alguém que cuidava do jardim viesse retirar a ave.

Após várias ligações e e-mails, o fim de semana chegou e nada foi feito; a pomba continuava lá. Na segunda-feira seguinte cheguei observando as pedras brancas do jardim a procura da desafortunada ave. E lá estava ela, morta sobre o chão. Andei mais um pouco e havia mais duas ou três na mesma situação. O fim de semana havia sido frio. E as pombas não conseguiam sair dali uma vez que chegassem ao chão. Os bambus atrapalhavam seus voos.

Hoje após três meses ao lado do jardim, já perdi a conta de quantas pombas morreram. E não apenas neste jardim, mas em mais um, no lado contrário a este. Entendi porque nenhum colega se incomodou com a morte da pomba. Além de ser um animal nocivo à saúde humana, fazia parte da seleção natural a morte delas ali.

Hoje eu vi mais uma. Ela não caminhava mais, estava sentada e encolhida ao lado de outra pomba morta. Seus olhinhos pareciam tristes. E ela já estava num estágio de nem se movimentar mais. A morte lenta pela qual todas essas aves passam é que me dói: o morrer por inanição, durante o meu dia-a-dia corrido, no qual não tenho tempo para pensar na Teoria de Darwin ou seja lá o que for, fora do assunto de trabalho.

Como diz meu pai, que mundo é este onde a Cadeia Alimentar nos destina a comer um ao outro em nome da sobrevivência? E eu me pergunto, que sociedade é esta a que fomos moldados a não nos importarmos com a morte lenta e sofrida de um ser vivo? Sejam as pombas ou os tantos outros que morrem abandonados nas ruas.

Apesar de o bicho ser nocivo à saúde e fazer parte de um processo de seleção natural, tudo o que consigo me lembrar são os olhinhos do animal já quase sem vida.

Que Deus tenha piedade de nós. Para que nunca, a morte de nenhum de nós, venha a ser uma morte tão lenta e tão naturalmente desprezada.

COMPARTILHE
Carolina Vila Nova é brasileira. Tem cidadania alemã, 40 anos. Escritora e Roteirista. É autora dos seguintes livros: “Minha vida na Alemanha” (Autobiografia), “A dor de Joana” (Romance), “Carolina nua” (Crônicas), “Carolina nua outra vez” (Crônicas), “Vamos vida, me surpreenda!” (Crônicas), “As várias mortes de Amanda” (Romance), “O dia em que os gatos andaram de avião” (Infantil), “O milagre da vida” (Crônicas) e "O beijo que dei em meu pai" (Crônicas). "Nosso Alzheimer." (Romance), Disponíveis na Amazon.com e Amazon.com.br



COMENTÁRIOS