Nós: as “máquinas” que choram

Nós acordamos cedo e dormimos tarde. Lacramos dores com pílulas. Embalamos sonhos com papel filme, ilusões em séries, autoafirmações, livros de autoajuda. Já não ajudamos ninguém, porque não acreditamos que podemos ajudar. Estamos sempre diminuídos, tentando almejar aquele topo que nos contaram um dia – era o lugar onde deveríamos chegar. No entanto passamos a vida andando em círculos asfaltados com paradas programadas – do trabalho para casa, da casa para o trabalho, rotinas infinitas, diversões vazias, cansaços invencíveis. Por vezes, até o lazer se torna uma estranha obrigação. Corremos maratonas para sermos valorizados, recebemos não, recebemos pouco, recebemos nada: acreditamos que é nossa culpa nos encontrarmos cada vez mais longe daquele lugar. Recebemos foras, recebemos rasgos, recebemos restos.

Há quem pense que existam privilegiados, nosso mito de imagens em HD, resoluções cada vez mais definidas, e a vida cada vez mais pixels – quadrada. Estamos vivendo para quê? Temos radicais de todos os lados e de lado a razão. Temos soluções para combater radicais livres: preservar o rosto comido pelo desgosto, nenhuma solução para gostar mais. Do tempo que nos resta encontramos pouco – a agenda cheia, o coração vazio. Escolhas feitas de PVC. Recusamos nossas veias, nossos afetos, nossa humanidade em troca de status, a troco de quê? Quando te pedem para “vestir a camisa” (de força), esquecem-se de te avisar que o mundo continua sem você.

Não seremos eternamente jovens, não seremos eternamente saudáveis, não seremos eternamente produtivos, não seremos eternos (mas os que correm o risco podem ser infinitos). Vivemos boa parte da nossa vida, dessa forma que desde cedo nos acostumam, vivendo para o futuro. Estudando para ter um bom trabalho, trabalhando para ter uma boa aposentadoria – provavelmente gastaremos com remédios a mixaria. Escolhemos relacionamentos por conveniência, nos recusamos ao desafio de conviver com o desafio, e pelo desafeto ou pelo tédio o divórcio, as amizades desfeitas, os afetos nunca colhidos. Escolhemos sem saber que temos escolha de tão acostumados que estamos a receber pronta a experiência da vida que deixamos de experimentar. Nos recusamos a viver – é perigoso de mais.

Estamos tão sozinhos que não pensamos que tantos outros também estão sozinhos, e neste sentimento solitário-coletivo nos perdemos de qualquer noção de que se nos uníssemos poderíamos fazer algo realmente maior. Pela descrença ou pelo egoísmo acabamos todos no mesmo barco furado da impotência. Não aceitamos limitações: errar é tão grotesco! Esquecemos que não somos feitos de códigos binários. Esquecemos que não somos feitos: estamos sempre por fazer. Esquecemos que não somos – estamos por aí, e a vida é só uma, mesmo que existam outras.

Construindo ideais para nos salvar dos momentos, perdemo-nos numa odisseia sem fim na busca pela vida ideal – alguns jogam na loteria, outros fazem cursos, outros concursos, outros enfim… Estamos sempre competindo pelas maiores notas, pelas maiores honrarias, pelo maior reconhecimento, tão diminuídos e desorientados precisamos sempre de um maior que sustente nossa autoestima por algum tempo. Deixamos que nos façam de galo de briga, uns contra os outros, e mesmo estes outros, que nos fazem galo de briga, galos de briga também são de outros galos. Um sem fim de cristas agitadas incitando outras cristas agitadas. Mas, ninguém mais canta quando o sol nasce. E, no fim do dia, curamos nossas dores, atamos as feridas, rejuntamos os ossos, nos recuperamos para a próxima briga. Postamos curativos de covardia, recusamos diálogos: estamos tão cansados que não desejamos correr o risco de sermos persuadidos a mudar. Não nos damos conta de tantos que também estão assim, e por fim vão nos ignorando enquanto são ignorados – e vamos afundando em silêncios ruidosos de alegria importada. Cada um com as suas dores. Até que o corpo fale.

Pois, por mais que tentem nos automatizar, sempre haverá o momento do travesseiro, aquele lugar que conversa com você antes do sono, e por vezes te tira o sono. O travesseiro questionando sobre a sua vida. O travesseiro te fazendo pensar. Esse travesseiro perturbador! É que sempre quando paramos não temos como evitar – há um “si mesmo” ali faminto, buscando alimento onde não há, te fazendo revirar para tirar força de onde não tem, para decidir sem conhecer as opções, para colher interrogações numa plantação de imperativos. Há o travesseiro que amarrota, que molha, que é abraçado, que é “socado”, agredido, o travesseiro que sufoca o grito, que recolhe o suor frio, que apara a baba quente. O travesseiro ali para nos lembrar que não somos máquinas – que temos sono, que temos sonhos, que temos lágrimas para sorrir.

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Paula Peregrina
Peregrina de territórios abstratos, graduou-se em Psicologia, trocou o mestrado e uma potencial carreira por uma aventura na Letras e acabou forasteireando nas artes. Cruzando por uma vida de territórios insólitos, perseveram a escrita, a poesia e o olhar crítico, cristalino e estrangeiro de todos os lugares.



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