No pinga-pinga do amor líquido – O sexo como fuga da solidão.

A solidão é um sentimento que nos afoga, pois nos faz mergulhar profundamente naquilo que somos. Faz-nos mergulhar no secreto, no oculto, naquilo que guardamos a sete chaves. Faz-nos mergulhar na dor, no sofrimento, nas angústias. Faz-nos repensar a vida e o que nos tornamos. Faz-nos repensar sobre a vida e o que queremos ser. Logo, a solidão é algo que o homem busca fugir incessantemente.

A solidão acontece, quando nos afastamos do resto do mundo e temos como companheiro apenas o nosso eu. Para Erich Fromm, a principal dor humana é a dor da separação (solidão), fato o qual se acentua com a vida moderna, extremamente dinâmica e que exige do indivíduo esforço quase sobre-humano. Dessa forma, passamos a maior parte do tempo, como diz Bauman, “[…] em uma multidão e em uma solidão ao mesmo tempo”.

Em certo modo, a solidão é necessária e positiva, pois a reflexão e o autoconhecimento são passos que devem ser tomados pelo próprio indivíduo. No entanto, a solidão de forma perene acaba sendo prejudicial ao ser, uma vez que a felicidade real é aquela que pode ser compartilhada. Além disso, os indivíduos contemporâneos parecem não demonstrar interesse algum em se conhecerem, de modo que estão separados da sociedade, como também de si mesmos.

Nesse contexto, o sexo aparece como um elemento com enorme potencial para a fuga da dor de estar só. O sexo, assim, é visto como uma fonte de prazer que diminui o desconforto de existir e, por conseguinte, da solidão, de modo que haja a libertação da dor que o habita.

“A mais profunda necessidade do homem, assim, é a necessidade de superar sua separação, de deixar a prisão em que está só.”

Entretanto, vivemos em um mundo líquido, em que as relações seguem a efemeridade. Sendo assim, não existem laços, afinal, estes pressupõem tempo, dedicação e conhecimento. Como não há tempo para o próprio indivíduo, logo, não há tempo para se relacionar com outra pessoa, a ponto de se dedicar e realmente conhecê-la.

Assim, o sexo é feito de forma rotativa, até mesmo porque o sucesso na sociedade de consumo é medido pela capacidade de consumir coisas novas. Não há espaço para o velho; não há tempo para que algo finque raízes. No “admirável” mundo novo “[…] não queremos saber de coisas antigas. Queremos que amem as novas”.

Nessas relações, o sexo faz parte de um monólogo, em que atua de forma isolada no palco, sem a interferência ou parceria de qualquer sentimento. Atua em várias sessões, a fim de que a dor da separação seja cessada. Como vivemos cada vez mais sozinhos, necessitamos de uma fuga constante da solidão e, portanto, o sexo atua sempre para plateias cheias e ansiosas por aquilo que lhes prometeram.

Todavia, o sexo dissociado de qualquer sentimento gera efeito contrário ao prometido, uma vez que é impossível haver uma fusão com outro ser sem o autoconhecimento que me permita agir comigo e com o outro de forma verdadeira, assim como, não me permite conhecer o outro, posto a secura que me configura enquanto ser. A rotatividade, portanto, acaba sendo somente a consequência desse insucesso. O sexo, assim:

 “Torna-se uma tentativa desesperada para fugir à ansiedade engendrada pela separação e resulta num sempre crescente sentimento de separação, visto como o ato sexual sem amor nunca lança uma ponte sobre o abismo entre dois seres humanos, senão momentaneamente.”

O homem sempre ávido por curar as suas dores da maneira mais fácil, busca através do sexo dissociado do amor o antídoto para a sua cólera. Contudo, em um mundo que se guia pela máxima de que – “Cada um pertence a todos”, a separação do outro e de nós mesmos tende a aumentar, pois para que possamos nos sentir unidos a algo, é preciso amar, e para isso, é preciso superar a superficialidade de pseudo-relações, que não conseguem ser mais do que goteiras de um amor líquido.

 

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Erick Morais
"Um menestrel caminhando pelas ruas solitárias da vida."Contato: erickwmorais@hotmail.com



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