Nise – O coração da loucura

Viver neste momento da história um problema psicológico ou psiquiátrico não parece algo drástico e nem “fora de moda”. Vivemos numa era onde jovens e crianças já possivelmente sofrem de depressão, ansiedade, bipolaridade, TOC, e tantos outros males já vistos com naturalidade pela maioria de nós.

Problemas psiquiátricos ou psicológicos já não são encarados como um bicho de sete cabeças. Os tratamentos existem e respeitam seus pacientes. Mas nem sempre foi assim. Uma longa história de dor, tortura e desrespeito humano foi traçada até os dias atuais. E, no Brasil, uma médica psiquiatra foi responsável por ajudar a mudar surpreendentemente o rumo dessa história.

Nise da Silveira (1905 – 1999) foi uma alagoana que se formou médica, tendo sido a única mulher numa turma de 157 alunos. No ano de 1944 foi reintegrada ao serviço público de saúde num hospital do Rio de Janeiro. Contrária e avessa às práticas da época como: choques elétricos, camisas de força, isolamentos, psicocirurgias e outros, acabou sendo direcionada à uma ala do hospital que era abandonada e descreditada por todos: o da terapia ocupacional.

A Doutora Nise da Silveira não era uma médica comum. Com um olhar profundo sobre seus pacientes, a psiquiatra não buscava apenas uma cura para os seus doentes, mas o seu bem estar. Através de atividades livres que foi introduzindo aos poucos com sua terapia ocupacional, Nise foi ganhando a confiança dos pacientes e enfermeiros. Animais como gatos e cachorros também foram utilizados em seu trabalho no hospital.

De um ponto de vista sensível e de respeito ao ser humano, Nise da Silveira provou que olhar ao próximo com amor pode fazer toda a diferença no meio em que se vive. Com a ajuda de um estagiário que também era pintor, ambos começaram a introduzir a pintura como terapia aos pacientes. Para a surpresa de todos, muitas obras começaram a surgir, que iam muito além de pintores iniciantes ou medianos. Figuras circulares como mandalas e recorrência de temas mitológicos e religiosos começaram a surgir em várias obras, mostrando um estabelecimento da comunicação entre o inconsciente daqueles pacientes com o mundo externo daquele momento.

Nise enviou para “ninguém mais, ninguém menos” que Senhor Carl Jung fotografias de obras de seus pacientes, recebendo em seguida teorias e conselhos sobre como dar continuidade ao excelente tratamento e descoberta que havia se iniciado.

Segundo Jung as mandalas de seus pacinetes era uma reação de compensação do inconsciente ao caos que a psicose produzia na consciência.

Com o passar do tempo as obras foram tantas, bem como sua espantosa qualidade, que criou-se o Museu de Imagens do Inconsciente, composto hoje por mais de 350 mil obras.

Nise e Jung se encontraram pela primeira vez no ano de 1957 no II Congresso Internacional de Psiquiatria em Zurique na Suiça, para a inauguração da exposição “Esquizofrenia em Imagens” do Museu de Imagens do Inconsciente, que causou uma enorme sensação e reconhecimento mundial do trabalho e ideias da médica brasileira.

O filme “Nise – O coração da loucura” conta com delicadeza a brilhante história de vida desta mulher, que mais do que uma excelente contribuição à medicina, representou luz na vida de milhares de pessoas. Aos que vieram antes e aos que ainda estão por vir.

Trailer:

COMPARTILHE
Carolina Vila Nova é brasileira. Tem cidadania alemã, 40 anos. Escritora e Roteirista. É autora dos seguintes livros: “Minha vida na Alemanha” (Autobiografia), “A dor de Joana” (Romance), “Carolina nua” (Crônicas), “Carolina nua outra vez” (Crônicas), “Vamos vida, me surpreenda!” (Crônicas), “As várias mortes de Amanda” (Romance), “O dia em que os gatos andaram de avião” (Infantil), “O milagre da vida” (Crônicas) e "O beijo que dei em meu pai" (Crônicas). "Nosso Alzheimer." (Romance), Disponíveis na Amazon.com e Amazon.com.br



COMENTÁRIOS