“Não sei como agir de acordo com a minha idade. Nunca tive esta idade antes.”

Já repararam no tanto de regras inúteis a que a sociedade se apega, só para redigir um manual de “pode” e “não pode”, com o único e despropositado fim de encaixotar as pessoas nessa ou naquela categoria?

É um tal de “isso é coisa de menina”, “isso é coisa de menino”, como se houvesse algum tipo de benefício ou malefício de um ou de outro no contato com delicadezas ou molecagens. O pior é que a gente acaba comprando essas tais ideias ridículas, caso não pare uns instantinhos para refletir sobre o que é que a gente realmente pensa com a própria cabeça, ou o que é pensamento alheio acabamos reproduzindo sem pensar.

Hoje mesmo, estava com a minha família num restaurante japonês quando uma família ao lado chamou a minha atenção. Uma mãe, e duas crianças ocupavam uma mesa. A tal mãe não trocou uma palavra sequer com as crianças – um menino e uma menina -, talvez tivessem em torno de cinco e sete anos, não mais que isso. A dita cuja da moça, só erguia os olhos de seu smartphone para falar entredentes com o garoto que era aparentemente o mais velho e evidentemente o mais ativo. Não que o menino estivesse fazendo nada de mais – traquinagem de criança que já se encheu de ser ignorada, sabe como é?

Tenho certeza que a atitude da moça ausente com seus filhos foi o que me irritou. O fato é que num dado momento, acabei reparando que o garoto usava um brinco na orelha. E, se não cheguei a comentar que achei estranho o fato em voz alta, foi porque intimamente sei que seria um comentário idiota e sexista. Não comentei. Mas pensei. E já tenho comigo há alguns anos que o que já foi pensado, pensado está. Falar em voz alta ou não falar, é uma questão de evitar o julgamento alheio, certo?

Pois eu faço questão de admitir que julguei. E mesmo já tendo passado algumas horas do ocorrido ainda me encontro bastante incomodada com a minha própria pessoa; com a minha descuidada atitude de colocar no mesmo balaio o pouco caso afetivo da tal mãe e o fato de ela ter levado seu menino para furar a orelha.

E se o que o que já foi pensado, pensado está. O que se faz com esse pensamento, já são outros quinhentos. Pois eu escolhi ruminar meu pequeno preconceito aqui, comigo mesma, até o ponto de ter sido capaz de entender que preconceito é preconceito – não importa se grande ou pequeno-, a sua capacidade de reduzir seres humanos a rótulos, etiquetas e categorias é destruidor de todo jeito.

E acontece que foi justamente hoje, neste meu dia de confronto com a minha empobrecida visão preconceituosa, que eu vi um post na timeline de uma amiga tão querida com esses exatos dizeres aí do título deste texto: “Não sei como agir de acordo com a minha idade. Nunca tive esta idade antes.”

Que coisa feia, hein Dona Ana Macarini?

A verdade, sem nenhuma desculpa que a possa redimir é que eu não estou imune a ser levada pelo senso comum, pelas verdades rotas e desgastadas, pela mania de olhar para ou outro com a petulância de alguém que, por pensar diferente, corre o risco de determinar que o outro está errado.

O lado bom dessa coisa feia é que descer do salto é altamente benéfico para dar um alívio aos joelhos e, também, dar uma chance aos pezinhos de pisar descalços nos pedregulhos de dramas alheios, cuja gravidade ou leveza não temos a menor condição de avaliar.

Agradeço à vida pela oportunidade! Mil vezes obrigada! Primeiro por ser capaz de me indignar com a postura ofensiva de uma mulher adulta que acha muito mais importante fotografar os sushis do prato para postar nas redes sociais, do que oferecer sua presença viva aos filhos que escolheu ter. E em segundo, mas não menos importante lugar, agradeço pela chance de olhar para dentro de mim mesma com a mesma indignação, a ponto de compreender que ainda tenho muito que aprender.

Imagem de capa meramente ilustrativa: a cena é do filme “Up – Altas Aventuras”

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Ana Macarini

“Ana Macarini é Psicopedagoga e Mestre em Disfunções de Leitura e Escrita. Acredita que todas as palavras têm vida e, exatamente por isso, possuem a capacidade mágica de serem ressignificadas a partir dos olhos de quem as lê!”


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