Não guardo mágoas dos amores que partiram

Quero que saiba que, ao contrário dos aflitos amantes, não guardo mágoas por ter ido embora. Talvez você ache isso louco, mas entenda, o amor que surge para ficar, dificilmente encontra âncoras para impedi-lo de partir. Porque acima das diferenças comuns, o que faz dos amores preciosos, é justamente a liberdade serena na qual ele transcorre. O egoísmo de querê-la só pra mim em nada sobrepõe a vontade, a felicidade e os votos de vê-la sorrindo, onde for e com quem for.

Eu sei, é incômodo perceber tamanho desprendimento de você. Acredite, isso não é amar de menos. A partir do momento em que julgamos os relacionamentos como laços inquebráveis, destinados à eternidade, pouco conhecemos de nós. Pouco reconhecemos da outra parte. Sim, no início a reciprocidade deu um salto acolhedor. Não perdíamos abraços, não desperdiçávamos beijos e, muito menos, interrompíamos o enamorar construído por debaixo dos lençóis. E as conversas, planos, sonhos e outras tantas linhas benignas a dois, compartilhadas de benquerer. Éramos um divido em polos.

É importante também deixar claro que aprendi com você. Nos infinitos concebidos, tornei-me alguém melhor. Nos espaços deixados, chorei para cantar de novo. Acredito nessas trocas sublimes de conhecimentos e quereres. Independente do quanto durou, ou, do quanto deveria durar, você mudou tudo. Certamente existe saudade. Lamento? De modo algum. Seria mais uma mistura agridoce entre a ausência que provoca e o viver de um hoje solitário.

Por favor, compreenda, não guardo mágoas. Dos amores que partiram, dos amores que não puderam ou quiseram ficar – de você. Não carrego amores ressentidos a pisotearem diariamente na minha paz de espírito. A graça, se existir alguma, repousa na imprevisibilidade do descobrimento dos amores. Saber amar é deixar ir antes mesmo de querer ficar.




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