Não fique bravo comigo, eu sofro de excessos.

Eu falo muito tentando esquentar o frio dos meus pés, nem sei explicar o mundo, muito menos meu coração, mas por vezes quero um pouco de atenção.

Eu me afogo em silêncios para não esparramar por aí a minha falta de energia.

Eu me desarmonizo por dentro quando tem mais coisas em jogo, quando não posso ser apenas eu, quando não posso ir direto ao ponto.

Fico assim desse jeito por não saber lidar com expectativas, nem as minhas, nem as suas.

Mas não fique bravo comigo, eu quero e preciso de um amigo.

Vamos parar de deixar tudo isso estranho, vamos exercitar a espontaneidade, a gente pode aprender a ouvir, a falar o que quiser, a dizer não, ‘agora não’.

A gente não precisa dessa boa educação inglesa, dessa frieza, dessa esterilidade nos atos.

A gente pode se abrir, mesmo que seja pra se conter, um ao outro, se for o caso.

A gente pode sumir um pouco, mas a gente não precisa sumir pra sempre, como quem cumpre regradamente a missão de limpar esses corações machucados.

A gente não precisa discutir, tentar se convencer. A gente não tem que estar certo de nada. Vamos humanizar o que sobrou disso tudo. Vamos banalizar um pouco as nossas verdades e o nosso orgulho e também a nossa dor, que nem são assim tão embasados. Estamos apenas inflexíveis, nessa nossa vontade boba de nos prevenir. Nos prevenimos de nós mesmo!

Vamos aprender a pensar diferente, a querer diferente, sem que isso signifique o fim do mundo. A gente pode falar que esta de mal humor, que esta sozinho, que esta carente, sem que isso imediatamente signifique que estamos construindo planos e entrando em territórios perigosos. Sem que isso signifique que o sonho desabou. Vamos chutar esses sonhos falsos, essas imaginações que nos fazem vítimas, réus, com um futuro corrompido.

Venha aqui esquentar meus pés, eu te conto uma piada. Não estou pensando em mais nada, não pense também!

Talvez eu não estarei morando ali na esquina, entrando no seu quadradinho de mundo, nos seus ideais de vida. Mas vou adorar se você me ligar para contar como foi o seu dia. Vou ser leal como uma amiga e não fiel como uma esposa.

Então, perto de mim você pode se derramar sem tomar cuidado.

Eu não faço as malas, mas meu coração já está aí.

Por que a gente tem que engolir as nossas histórias todas? Tomar um antiácido pra digerir, colocar uma interpretação barata nos nossos momentos bons, só por que não seguimos em frente numa trilha pré-concebida?

Por que a gente tem que fingir que não existimos um para o outro? Para poupar a dor? A dor das benditas expectativas, e enquanto isso, eu não sou o seu futuro, mas eu estou aqui. E você aí…

E eu aqui escrevendo… e você aí assistindo uma série babaca… E a gente não se fala porque senão a gente vai sempre falar daquilo, porque a gente vai virar pessoas chatas de novo, então a gente evita.

Por que a gente desaprendeu a conversar sobre o clima, a lembrar daquelas cenas engraçadas, a dar dicas de cinema e culinária?

Por que a gente se proibiu de tudo só porque nossos mundos desconhecidiram de andar juntos?

Por que eu virei tarja preta, cheia de contraindicações, e você me guarda na gaveta mais funda, longe dos seus olhos e pensamentos?

Não fique mais bravo comigo, eu não sou bruxa não, e muito menos fada, eu não tenho a chave da sua felicidade e também não amaldiçoei sua vida. Sou assim uma ser humanA querendo apenas amar e ser amada e mais nada.

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Clara Baccarin
Clara Baccarin é poeta, escritora e tradutora. Autora do romance Castelos Tropicais (Ed. Chiado, 2015), e do livro de poemas Instruções para Lavar a Alma (Ed. Sempiterno, 2016). É uma contadora de histórias que adora poetizar o mundo. Escreve por amor e rebeldia: desconstruindo verdades, brincando com as palavras e ressignificando a vida.



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