Na terra da garoa

Para quem morria de medo da cidade grande, parece que uma semana foi bem pouco para eu já me sentir em casa. De Curitiba para a temida São Paulo, lá fui eu para mais uma guinada em minha vida. Quando mencionei a uma amiga de longa data, o meu receio, ela respondeu: “Você com medo de mudança?”. E riu. Foi bom ver em sua reação o reflexo de mim mesma.

Se na TV as notícias não são boas, no boca-a-boca o que chega não é tão ruim assim. Quem gosta diz que os noticiários exageram. Já outros talvez aumentem as manchetes um tantinho mais. Fato é que eu estou aqui há pouco tempo, mas não é que a cidade surpreendeu?

A ida ao trabalho ou para casa tem sido um terço do que estava habituada. Bem dizem que qualidade de vida está diretamente conectada com os locais onde se mora e se trabalha. Agora faz sentido. E, no fim, sobrou tempo até para uma tal de zumba.

Numa terra onde todas as raças se encontram, bem como todas as classes sociais, no fim de semana o funk chega pelo ar da comunidade. Começa cedo… e vai até tarde… Para quem já está acostumado com os tampões de ouvido, pode ser encarado como um mero detalhe.

Engraçado mesmo foi ser levada pelo GPS numa rua que só dava para a tal comunidade. Esquerda ou direita, ia para o mesmo lugar. Entrei temerosa e sai tranquila. Dizem que o que vale é a lei de que lá ninguém rouba ninguém. A paz reina onde os mais temidos se escondem.

Pessoas comuns em frente às suas casas, adolescentes, crianças, jovens indo ou voltando da escola. Mulheres chegando após um longo dia de trabalho. Somos todos iguais, simples assim.

Falando em trabalho, eu estou amando o meu. Um privilégio se sentir em casa, onde se passa a maior parte da vida. Não há bônus que compense quem não pode se perceber assim. Embora tenha gente que não se sinta dessa maneira em lugar algum. Mas aí são outros quinhentos.

A terra da garoa ainda não fez jus ao apelido. Quente durante o dia e fresca para dormir, exibe sua paisagem cheia de misturas quando é dia e de luzes à noite. De qualquer forma já providenciei a sombrinha.

Num visual de prédios incontáveis, largas avenidas, pontes e marginais, os carros parecem agressivos. Feliz da vida, quando um senhor me fechou, abaixei o vidro sorrindo e lhe desejei bom dia. E sabe que foi sincero?!

É possível que eu esteja apenas contagiada com os pontos visivelmente melhores com a mudança, até porque os pontos ruins ainda não apareceram. Mas também me lembrei de uma pequena história que diz assim: se você quer saber se uma pessoa será feliz num novo lugar, pergunte a ela como ela se sentia onde morava antes. Se ela disser que era bom, assim será no lugar novo. E vice-versa. Levamos conosco o que nós mesmos somos.

Em todo lugar há fatores bons e ruins, assim como pessoas, trabalhos, vizinhos, comunidades e toda uma sociedade. E como já diria Charles Darwin: no caminho da evolução, os que sobrevivem não são os mais fortes, nem os mais inteligentes, mas os que se adaptam às mudanças.

Se Curitiba já havia me recebido de braços abertos com todo o frio e chuva que eu desconhecia, a cidade da garoa agora repete o feito. E com todo o “taca taca taca” da comunidade, por dentro ecoa apenas o som da gratidão!

Nota: A imagem de capa é do projeto “Forma e Ritmos”. A imagem mostra alguém apaixonado por São Paulo e que desejou mostrar a delicadeza em meio ao ambiente pesado da cidade. Fonte da imagem Paula Marques Lima

COMPARTILHE
Carolina Vila Nova é brasileira. Tem cidadania alemã, 40 anos. Escritora e Roteirista. É autora dos seguintes livros: “Minha vida na Alemanha” (Autobiografia), “A dor de Joana” (Romance), “Carolina nua” (Crônicas), “Carolina nua outra vez” (Crônicas), “Vamos vida, me surpreenda!” (Crônicas), “As várias mortes de Amanda” (Romance), “O dia em que os gatos andaram de avião” (Infantil), “O milagre da vida” (Crônicas) e "O beijo que dei em meu pai" (Crônicas). "Nosso Alzheimer." (Romance), Disponíveis na Amazon.com e Amazon.com.br



COMENTÁRIOS