Na busca pela superaração de defeitos, adquirimos outros

Creio que não existe nada mais claro no processo de envelhecimento do que a constatação da maturidade adquirida. Num processo contínuo marcado por dores únicas e histórias exclusivas de cada um, percebemos os erros do passado com uma clareza constrangedora. Não é fácil, em primeiro lugar, assumir os erros para si mesmo. Mas chega a ser inevitável.

Ainda que com dificuldade, cedo ou tarde, aceitamos os erros percebidos e buscamos um novo eu em nós mesmos.

Por um bom tempo ouvi críticas a despeito de ser uma pessoa arrogante. No auge de minha juventude venho reconhecer a público que realmente “me achava” a tal. Após algum tempo, uma overdose de críticas e vários tapas na cara bem dados pela vida, a soberba se foi e deixou de ser uma característica minha. E confesso que sinto vontade de rir quando vejo um jovem no mesmo caminho. Eu penso: “nem vou falar nada…, a vida e o tempo falam por si só.”

Fato é que as minhas quedas e suas consequências foram tantas, que pouco tempo atrás, ouvi a seguinte afirmação: “Você é simples demais”. E se tratando de uma crítica construtiva e num âmbito sério, na época eu desabei.

Se por tantos anos eu havia sofrido na pele a arrogante juventude e apanhado da vida para aprender a “abaixar o nariz”, parece que naquele momento eu havia perdido a medida. Qual seria o equilíbrio exato entre a simplicidade e arrogância? Existe uma medida certa? Ou uma medida para cada um? Ou ainda para cada situação?

E a melhora de um defeito não vem sozinha. Existe toda uma transformação, a metamorfose de quem se é. A melhora de minha simplicidade também veio acompanhada de calma. E para minha surpresa também recentemente eu ouvi: “Você tem que ser mais agressiva, você não tem que ser calma o tempo todo”.

“Oi”???

Como a vida é um processo contínuo e ininterrupto de transformação, é claro que refleti sobre todas as mudanças de minhas características e sobre a nova pessoa em quem me transformei. Teria sido um erro me tornar simples demais? E agora calma? Cheguei eu então à beira da covardia, sem a velha agressividade e bravura dos anos mais jovens? Ou deveria eu considerar as características alheias, de quem está me julgando? Ou ainda do local onde isto ocorre?

Fato é que anos atrás eu era uma, hoje sou outra e ainda amanhã serei um novo alguém, que ainda desconheço. Em constantes transformações, levo em consideração sim o que escuto sobre mim, afinal, os que nos conhecem são os primeiros a perceber a medida do que somos. Mas são os nossos sentimentos que nos mostram o caminho certo. Então eu me pergunto: “me sinto bem assim? Com esta calma e simplicidade? Sim!”. Assunto encerrado.

Entre qualidades e defeitos vivemos todos os dias de nossas vidas. Reflexões são essenciais para que em nossos caminhos estejamos sempre adiante do que fomos anteriormente.

Não importa ser melhor do que ninguém, mas melhor do que já se foi um dia.

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Carolina Vila Nova é brasileira. Tem cidadania alemã, 40 anos. Escritora e Roteirista. É autora dos seguintes livros: “Minha vida na Alemanha” (Autobiografia), “A dor de Joana” (Romance), “Carolina nua” (Crônicas), “Carolina nua outra vez” (Crônicas), “Vamos vida, me surpreenda!” (Crônicas), “As várias mortes de Amanda” (Romance), “O dia em que os gatos andaram de avião” (Infantil), “O milagre da vida” (Crônicas) e "O beijo que dei em meu pai" (Crônicas). "Nosso Alzheimer." (Romance), Disponíveis na Amazon.com e Amazon.com.br



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