Mundo que me faz sorrir com lágrimas nos olhos.

Como poderia estar plena de felicidade se o vizinho de 80 anos acaba de ver morrer seu cachorro, único companheiro de tantos anos e nem lágrimas rolaram. E objetos de três gerações se amontoam e tomam chuva na calçada, dispensados, ofertados ao mundo de hoje, sem valia, entulhos que atrapalham vistas e passagens. E os livros soltam páginas amarelas ao vento, histórias perdidas, apagadas, excluídas. E alguém dorme no banco da praça movimentada, embaixo de um sobretudo grosso que frequentou a opera no corpo de uma senhora aristocrata, nos tempos em que se ia à opera. Dorme esperando a vida passar, sem força para carregar o próprio corpo, sem vontade para mudar a realidade, ressequido de sonhos. E na TV dá que mataram 15 médicos fazendo trabalho social no Afeganistão. E um coração foi partido na esquina. O moço de 30 anos teve um infarto porque seus dias seguem na frente do jogo de computador, cigarros e pacotes de salgadinho. E um pai apressado puxa o filho pelo braço, chora sentido. A puta fica em pé na porta às 2 horas da tarde de sábado, com uma cara de ontem e uma placa na cabeça ‘estamos abertos’. E um pássaro velho, sem condições de voar, se encantoa embaixo de um arbusto com os olhos triste de quem tem poucos dias nesse mundo, nem do voo pode se despedir.

Tudo isso num caminho, nos poucos quarteirões entre minha casa e o supermercado.

Como poderia estar plena de felicidade se felicidade é um ostracismo. Cabe numa pílula, numa bolha, numa porta fechada de um apartamento. Cabe numa xícara de café e num pedaço de bolo. Cabe numa concha que guarda o barulho do mar, num porta retrato, numa carta, num poema. A felicidade é tão pequena que cabe na mão. Eu posso ter as mãos cheias de felicidade. Mas o mundo não é uma ostra, e eu não consigo esquecer os olhares, eu não consigo fechar as janelas. Felicidade é um individualismo.

Mas eu também não poderia estar plena de tristeza. Se da janela mesmo ainda vejo sorrisos, e do vaso nasceu uma flor, e do azul do céu nascem notas de músicas e das pequenas gentilezas nasce o amor.

 A vida que se abre e se fecha a cada passo.

COMPARTILHE
Clara Baccarin
Clara Baccarin é poeta, escritora e tradutora. Autora do romance Castelos Tropicais (Ed. Chiado, 2015), e do livro de poemas Instruções para Lavar a Alma (Ed. Sempiterno, 2016). É uma contadora de histórias que adora poetizar o mundo. Escreve por amor e rebeldia: desconstruindo verdades, brincando com as palavras e ressignificando a vida.



COMENTÁRIOS