Minha casa e meu corpo são meus templos

Imagem de capa: lzf, Shutterstock

Minha casa e meu corpo são meus templos. São espaços de liberdade, de amor e de respeito. Eu cuido da parte de fora e de dentro, eu compartilho meus sorrisos e ensinamentos, eu abro os braços nos meus dias de sol, eu tenho colo e acalento, mas também fecho as janelas para agitadas tempestades que querem me invadir, bagunçar, entrar e sair sem nem descalçar os sapatos, sem pedir licença, sem olhar nos olhos.

Aqui não é bem-vindo quem quer entrar sem ser convidado, ou sem tomar cuidado, sem jeito, sem tato. Minha casa e meu corpo são sagrados. Ofereço um café e um cafuné para quem se aproxima com boas intenções, quem traz uma oferenda, um ensinamento, um beijo, uma flor e com desprendimento deixa uma prenda perto do meu coração, que é meu altar.

Eu cuido dos sentimentos que nessa pele correm, eu olho com atenção para as flores que crescem na varanda. Eu celebro com comidas e bebidas as boas companhias e me fecho feito casulo nos dias de escassez energética. As portas não estão sempre abertas, a entrada não é livre e nem franca, minha casa e meu corpo não são a casa da mãe joana.

Não é só chegar, puxar um papo e uma cadeira, não é só tocar a campainha, não é tentando espiar pela fechadura, não é invadindo, exigindo, entrando, abrindo, ficando, se sentindo em casa. Dessa forma aqui você não vai conseguir nada.

Minha casa e meu corpo não são seus, são meus. Se eu te der passagem, pode sim ficar à vontade, abrir a geladeira, tomar uma cerveja, ser você mesmo. Pode sim fazer uma visita, desarrear as bagagens e os pesos do corpo, esticar as pernas, abrir o coração. Pode pegar um livro, pode cuidar dos bichos, pode relaxar, fechar os olhos, deixar os ventos te renovarem inteiro.

Aqui tem sim liberdade de expressão, espaço para deixar fluir a imaginação, um prato extra na hora da refeição, mas também tem limites, tem reclusão, tem a minha palavra contra (ou a favor) da sua intenção.

Por isso venha, mas peça licença, fale a senha, chegue com cuidado, carinho e devoção. Se for de minha vontade, se for pela nossa verdade, as minhas portas e janelas se abrirão.

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Clara Baccarin
Clara Baccarin é paulista dos interiores, nascida nos anos 80. É escritora, poeta e agitadora cultural. Faz parte do grupo editorial Laranja Original e escreve regularmente para o site Conti Outra. Publicou, pela editora Chiado, o romance poético Castelos Tropicais (2015) e a coletânea de poemas, pela editora Sempiterno (2016), Instruções para Lavar a Alma. Em 2017 lança, em parceria com músicos e compositores, o álbum Lavar a Alma, que reúne 13 de seus poemas musicados.

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