”Meu filho nasceu com vinte quilos e um metro de altura” por Priscilla Portugal

Histórias de paternidade já costumam me comover por natureza. Talvez isto aconteça porque tenho um pai muito presente e carinhoso, sem o qual não consigo imaginar quem eu seria. Ou talvez porque já vi muita gente sofrer pela ausência física ou emocional de seu pai – e percebi o quanto isso pode ser triste. Mas quando o Yahoo! me pediu para escrever um caso emocionante relacionado à figura paterna fiquei pensando: qual seria a mais bonita história que eu já ouvi? E me veio a ideia de escrever a chegada do meu sobrinho à nossa família: afinal, ele fez do meu irmão caçula, o Beto, um pai. Olha o dia em que eu conheci a figurinha:
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E aí, meu irmão topou dividir a história dele aqui com vocês, queridos leitores. Detalhe: o nosso Samuca chegou exatamente no dia dos pais do ano passado, o que deu um novo significado, ainda mais especial, à data.
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“Fui pai aos 28 anos, mas de certa forma já fui pai aos 23. O parto de meu filho foi de risco, e levou um pouco mais que nove meses. Mas o mais impressionante foi o fato de que meu filho nasceu com vinte quilos e um metro de altura. Até ele chegar muita gente disse que éramos loucos, que um filho com o peso e a altura dele poderia ser complicado. Meu filho nasceu aos cinco anos, mais forte que um bebê, mas mais indefeso que um bebê. Porque um bebê não tem consciência do que está acontecendo no mundo, e ele sabia exatamente como estavam as coisas. As coisas que todo pai sonha não foram diferentes pelo fato de meu filho ter vindo à (minha) vida pela adoção. Ouvir, pela primeira vez a palavra “pai”, mesmo que ele já soubesse falar tantas coisas mais difíceis, teve a mesma intensidade em meu coração. Pegá-lo no colo, e colocá-lo na cama quando o sono chega, beijar-lhe a testinha e ficar por horas zelando seu sono é a coisa mais gostosa de ser pai. Quando a gente se olha e se identifica, ele, tendo sido gerado por um casal que não conheço, me diz: olha, pai, como a gente é parecido. E as pessoas sempre confirmam esta assustadora semelhança. Quando ele chegou ao nosso mundo, e nós consequentemente chegamos ao dele, muita coisa foi feita em vão. Lembro-me que ao receber a ligação de uma assistente social dizendo que no dia seguinte podíamos ir buscá-lo, para sempre, corri ao mercado e comprei estoques de comida. Quem visse o carrinho logo pensaria que a terceira guerra mundial estava por vir. Como você recebe pra sempre em casa uma pessoa que não conhece?! Não sabe o que ela gosta de comer, de vestir, como dorme… Então era preciso ser rápido e deixar todas as possibilidades à mão. Mas, na chegada, ele queria tomar café e comer um bolo de fubá. Eram as únicas coisas que não tínhamos. Eu ali, querendo ser herói, e no primeiro pedido do meu filho tive que dizer que não podia resolver. Claro. Saí de casa e comprei os ingredientes. Mas nesta volta do mercado é que me dei conta disso… ser pai é justamente isso. É tentar oferecer tudo que julga ser melhor, e, tão difícil quanto, muitas vezes dizer “não posso, filho!”. A mãe é fundamental na vida de uma criança. Mas a mãe pode ser o pai, ou um dos pais, ou a avó. Seja quem for. A figura que a mãe representa é que é importante, o afeto que está ali em todas as horas, a paciência. O pai, por sua vez, que também pode ser a mãe, ou uma das mães, ou o avô, ou qualquer outra pessoa, quando empoderado da figura paterna, é a segurança dos medos, a força física que sustenta, o porto seguro quando lá dentro tudo é tempestade. Como pai do Samuel, eu espero e só quero que meu filho seja um homem de bem, e feliz. Tal como meu pai quis que eu fosse. Eu quero ser o exemplo das coisas boas que posso fazer, e quero ser o exemplo das coisas que não consegui fazer e quero que meu filho faça. Eu quero que ele seja o espelho do espelho que sou eu, e como já disse João Nogueira, o meu medo maior é o espelho se quebrar. Meu filho é dono da casa, dos bichos que temos, dos nossos planos, das nossas vidas. É ele quem nos ensina todos os dias que não temos alternativa: temos que encarar tudo que pintar, porque agora somos responsáveis por uma vida no mundo. Ser pai não é ter feito um filho, mas é ter um filho. A adoção me tornou pai. Eu adotei o Samuel e, mais que isso, o Samuel me adotou como pai. As pessoas ainda vêem um pouco de tabu, mas hoje quando perguntam se ele é meu filho de coração, como quem entende tudo sobre o mundo, ele responde (e cala quem perguntou): – Claro! Se não for de coração, não tem família. Né, pai?!”

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Matéria original: Yahoo!

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