A menina que colecionava abraços…

Por Guilherme Antunes

Era uma vez menina que colecionava abraços. Da terra distante de onde veio, dizia ela que abraço era assunto apenas dos adultos, como a lista de compras da mãe, as notícias do jornal que lia o avô ou os negócios do seu pai. Menina acreditava que abraço, além de ser coisa de crescidas gentes, era proibido como palavrão! Uma vez espetou dedo numa farpa e falou bem alto dor vestida de palavra, que aprendeu escondida ouvindo seu pai quando desacontecia algo com ele. Achava guria engraçado mas aprendeu que sua mãe não, dizendo que repeti-las faria menina diminuir até para sempre desaparecer. Ficou com medo e pensou que abraço fosse igual porque ninguém em casa praticava esses interessantes apertos. Deveriam mesmo causar coisa ruim. Só soube o que era quando perdendo sono no meio da noite, foi até a sala e viu filme em que um casal de fala esquisita se olhava com olhar de parar o tempo, e de bocas coladas se abraçaram. Parecia algo bonito, e foi guria começar a sorrir com a cena que veio seu pai todo bravo desligar televisão. Mas como tudo que é proibido dá vontade, um dia menina correu no quintal e abraçou árvore enfeitada de passarinhos. Esqueceu-se de si quando fechou os olhos e sentiu que ser abraço era gostoso. Sentiu-se a árvore, o passarinho, o por-do-sol, o infinito. Passou a cometer escondidas proibições no quintal para poder amar de pertinho a natureza e em silêncio florescer. Começou a descobrir que abelha abraçava flor, oceano abraçava rio, chão abraçava os pés, noite abraçava luz, Amor abraçava medo. Suspeitou que abraço era feito de mundo e o mundo feito de abraço. Uma tarde ouviu de longe seus pais brigarem triste como um final de férias. Suspirou e resolveu resolver aquilo lá. Correu em direção do pai e abraçou suas pernas, calando-o. Depois se virou e abraçou a mãe, derretendo-a. Aí então sorriu e apontou ordem para fazerem o mesmo. Abraçaram-se. A briga parou, a dor cessou e soube menina, abraço ser remédio sem gosto ruim de xarope. Servia para nos melhorar mas com jeito de sobremesa. Dali em diante menina começou colecionando abraços a combinar com seus sorrisos, para distribui-los todos na sua rua, a ensinar na escola e a falar de afeto que gostoso aperta quando alguém deslembra que no outro a gente pode crescer e ser feliz.

Guilherme Antunes é amante das palavras, da filosofia e dos temas da Alma. Sinestésico e musical, buscador, contraditório, intenso, vasto. Sommelier de groselha, servidor público, poeta e farsante. Ele é aquilo que ninguém vê.

a-menina-que-colecionava-abracos

COMPARTILHE
CONTI outra
As publicações do CONTI outra são desenvolvidas e selecionadas tendo em vista o conteúdo, a delicadeza e a simplicidade na transmissão das informações. Objetivamos a promoção de verdadeiras reflexões e o despertar de sentimentos. Sejam sempre bem-vindos! Josie Conti



COMENTÁRIOS