Medo do ridículo? Eu tenho e quase sempre me sinto ridículo por isso.

Há os que não tem filtro algum e há os que tem filtros demais. Esse texto é para essa segunda classe de pessoas que vive aterrorizada sob a sombra de se sentir ridicularizado em público.

1h da manhã

Inverno

Silêncio no bairro

Fumando sozinho na varanda

V1*: … por isso eu disse que não faz sentido. Tipo quem?

V2*: Tipo o Frank Sinatra, que cantava e dançava como se estivesse no quintal de casa. Genial, seguro, charmoso, imperativo. Eu sempre quis aquela desenvoltura…

V1: Mas você tem a malemolência de uma pilastra.

V2: Por isso sempre me pareceu uma comédia tentar fazer quaisquer daquelas coisas em público. Mas eu sempre quis!

V1: Quando você disse “desenvoltura”, não sei por que mas busquei a imagem do Bono na turnê Zoo TV

V2: Sim! Lembro daqueles óculos de abelha e quando vi imagens dessa turnê pela primeira vez, achei aquele visual excêntrico, ousado, bacana.

V1: Você queria óculos como aqueles, mas nunca sequer procurou. Fez bem!

V2: Eu nunca usaria óculos iguais mesmo com a desculpa da adolescência. Ficou bacana no Bono. Só nele.

V1: Em você ficaria ridículo.

V2: Sim, ficaria. E foi mais ou menos na mesma época do grunge…

V1: Bermudão xadrez. Adorava!

V2: Colocar o primeiro bermudão xadrez numa cidade em que provavelmente mais da metade da molecada e das meninas gostava de pagode foi complicado. Mas nesse caso, não dei a mínima e não me importei se me achariam ridículo ou não.

V1: Sim, até porque era moda. E mais legal ainda porque veio junto com bandas legais, mesmo isso sendo um pouco fútil…mas ok.

V2: Daí em diante, à medida que a idade avançou, essas situações obviamente se multiplicaram e invadiram outras áreas da vida. De repente ficou difícil usar outros tipos de roupa, falar em público, abordar alguém na noite, fazer algum tipo de postagem, dizer o que realmente penso em certas situações. Com o passar do tempo, a opinião dos outros passou a ser…

V1: …aterrorizante, certo? E ser ridicularizado é um dos piores horrores, ainda mais em tempos de redes sociais em que tudo é intenso e com julgamentos rasos. Ficou mais fácil fazer papel de ridículo ou ser colocado nele, porque agora esse é um mundo socialmente mais perigoso, como eu sempre lhe digo.

V2: Sim, você sempre me diz que os níveis de exigência pra tudo estão bem mais elevados. Se o que eu fizer não for ótimo…

V1: …será ridículo.

Shhhh

V2: Sim. É também interessante e perturbador ao mesmo tempo, descobrir a minha própria quantidade de vontades reprimidas que resultam dessa tensão toda. Exemplo: numa roda com música, se eu tiver vontade de cantar junto, você insiste que o melhor é ficar exatamente onde estou e não fazer nada de anormal na frente de alguém. Eu sempre fico no QUASE, mas por fim, não faço o que quero e sempre vou dormir frustrado.

V1: Bobagem. Zona de conforto…fique nela sempre que puder.

V2: O que não entendo é que muitas pessoas com um medo enorme do ridículo se ridicularizam com uma facilidade imensa. Em muitos casos elas fazem isso de forma espontânea sem sequer terem sido muito provocadas.

V1: É mecanismo de defesa.

V2: É mecanismo de defesa ou é atitude de quem realmente não dá a mínima para a opinião dos outros?

V1: É mecanismo de defesa.

V2: Acho que pode ser as duas coisas! Mas acho que no caso de ser mecanismo de defesa, isso ocorre só em algumas situações; não em todas. E também acho que realmente existem pessoas que se ridicularizam porque não dão a mínima para a opinião alheia. Eu queria muito ser assim e também queria…

V1: É MECANISMO DE DEFESA!

V2: Então qual seria a explicação para uma pessoa se ridicularizar em algumas situações mas ter pavor de se sentir ridícula em outras? O que distingue uma situação da outra? O que me faz não querer ser inferiorizado na situação A e, por outro lado, faz com que eu mesmo me diminua na situação B para me sentir mais confortável? Não faz sentido pensar que a segurança de um ambiente de amigos estimula a autodepreciação pois tem gente que se ridiculariza diante de desconhecidos!

V1: Hunf…

V2: Eu fico confuso pensando se no fim das contas tudo gravita ou não em torno do medo de ser julgado pelas pessoas. A sensação de ridículo que me apavora parece ser em relação à percepção dos outros, e não em relação ao que penso de mim mesmo.

V1: Não. Primeiro, você SABE que é ridículo. Em seguida você vê essa constatação na reação das pessoas ao seu redor. O que é isso aí? É vinho? Odeio quando você bebe. Acabo ficando de longe furioso vendo você acreditar poder fazer o que quiser, mas tudo bem porque no dia seguinte assim que você acorda, sempre constatamos que não pode.

V2: In vino veritas*

V1: “Que palavra passou além da barreira dos teus dentes?**

V2: Não. Eu me sinto ridículo com base no que eu mesmo penso que os outros acharão de mim. Eu não me sinto ridículo por mim mesmo. E eu me sinto ridículo também por me preocupar em parecer ridículo. E esse medo do julgamento alheio vem junto com o medo de ser inferiorizado, de ser objeto de deboche.

V1: Álcool acaba com o fígado. Jogue fora.

V2: Pensando um pouco mais, acho que eu às vezes me ridicularizo sem medo de ser alvo de risadas desde que eu tenha controle da situação. Controle. Dentro dessa ideia de controle podem estar alguns assuntos/situações específicos. Saindo desses, a graça acaba e o constrangimento passa a dominar. Nessa caminhada meio torta, todo mundo tem momentos em que consegue vencer aquela voz interna e decide encarar a situação.

V1: Isso é o mesmo que você resolver correr em direção a uma parede. Vai quebrar a cara, mas se está realmente decidido a isso, então a ação tem que ter um ótimo grau de segurança. E você tem!?

V2: Você me faz pensar que se eu resolver falar em público, terei que FALAR; se resolver dançar, terei que DANÇAR; se resolver tentar conhecer aquela moça encostada no balcão do bar, terei que IR.

V1: Se o seu “falar”, “dançar” ou “ir” for em caixa baixa, aí a probabilidade de ridículo será grande, e nós sabemos como geralmente é. PORRA, MEIA GARRAFA!?

V2: Eu não tenho que fazer tudo em caixa alta. Sim, eu tenho que fazer bem-feito, mas não tenho que usar um parâmetro absurdo e me sentir ridículo por não atingi-lo. Não significa que irei me acomodar na mediocridade; significa que não tenho que me torturar por não ser genial em várias coisas. Na verdade não sou genial em nenhuma, até porque a genialidade é especial justamente por ser rara. Por isso acho tão admiráveis (ao ponto da cobiça) as pessoas que sinceramente não ligam pra nada nessas situações – e elas são pouquíssimas nesse mundo de tanta simulação de estilo.

A coragem e a liberdade delas são quase agressivas e às vezes me pergunto se essa abertura toda não me constrange ainda mais. Acho que sim. Por isso meu copo está sempre cheio…

É uma meia verdade que esses tempos são de profunda individualidade. Se eu estivesse tão preocupado só comigo mesmo, não me preocuparia tanto com os outros e se todo mundo fosse assim, as redes sociais estariam desertas. Eu me preocupo muito comigo mesmo sim, mas o olhar e a reação das pessoas são tão importantes quanto o meu egocentrismo tacanho e confuso.

Não…não faz muito sentido. Não faz sentido pensar tanto na importância da opinião de gente que não conheço ou que quase desprezo. Fazendo isso, estou homenageando toda essa plateia imaginária e isso sim é ridículo!

Eu acordarei ótimo amanhã; talvez um pouco mudado. Isso significa que você que já está aí no seu canto, acordará um pouco rouco. Acostume-se.

*V1 e V2= vozes interiores
* Frase em latim que em tradução livre significa “no vinho está a verdade”, que tem o sentido de expressar a liberdade provocada pelo álcool.
** Frase do livro Odisseia, de Homero, que expressa uma reprovação por algo que não deveria ter sido dito.
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Fábio Moon
Num mundo digital, porém pensando, agindo e sentindo ainda de forma analógica.



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