Martha Medeiros: ‘Viver é uma honra’

Ilustração: Gillian Rosa

Martha Medeiros escreve porque não sabe cantar, interpretar ou riscar o salão ao som de tango ou gafieira – um feliz caso de inaptidão para a legião de leitores que acompanham sua trajetória, letra por letra.

Ao escrever sobre as pequenas angústias do dia a dia, a escritora, poeta, jornalista e agora roteirista nascida na cidade de Porto Alegre, mostra com jeito e cuidado aquilo que às vezes andava esquecido no fundo das nossas gavetas.

Aventura e liberdade são duas palavras que a definem bem. “A vida premia quem está em movimento”, disse no programa A Máquina, apresentado pelo seu amigo gaúcho e também escritor Fabrício Carpinejar.

Fã declarada de Woody Allen, acredita que a vida não tem sentido e que somos nós que damos o sentido que achamos que ela deve ter. Também não se considera uma “escritora mesmo”, desses de alto nível de debates intelectuais, colecionadores de prêmios e virtuoses da língua, como diz num bem escrito e humorado texto.

É que tornar-se uma escritora, alguém que vive exclusivamente da literatura, nunca esteve entre seus planos iniciais. Publicitária de formação, poeta por vocação e cronista por competência, ingressou nesse mundo por acaso, à convite de um amigo editor depois de voltar de morar um tempo fora por conta do trabalho do marido na época.

Desde então, cativa gente das mais variadas idades, classes e gêneros. Com 29 livros lançados (se as contas do repórter não estiverem erradas, e é bem provável que estejam) alguns deles adaptados para teatro e televisão, Martha segue adiante, “sempre em frente’, como diz a canção de Renato Russo, e não pretende parar por tão cedo e ousar ainda mais nos próximos passos, como contou em entrevista exclusiva à CONTI outra, onde falou sobre amor, medo, viagens, influências, envelhecimento e futuro.

Martha, por que você escreve?

Porque não sei cantar, atuar, dançar… Sempre quis me manifestar artisticamente e foi o dom da escrita que me coube, e honro esse dom diariamente, usando-o não só para me sustentar, mas para fazer alguma diferença na vida de quem me lê, levantando questões humanistas para serem refletidas e com isso tentando iluminar um pouco os caminhos mais sombrios de todos nós.

Sua carreira literária teve início com a poesia. O que foi essencial para que você desistisse de uma carreira na publicidade para ingressar num campo tão incerto?

Não me sentia realizada na propaganda e de repente surgiu uma oportunidade de escrever colunas para jornal. Eu trabalho melhor sozinha do que em equipe, então foi providencial essa possibilidade de deixar de ser um instrumento de comunicação de um cliente para ter uma voz própria. E ainda poder fazer isso em casa, administrando meus próprios horários e podendo estar mais perto das minhas filhas, que eram ainda pequenas. Passei a ter um estilo de vida mais condizente com a liberdade que sempre busquei.

Você começou com a poesia na década de oitenta e o primeiro livro de crônicas, se não me engano, só veio em noventa e cinco. O que te fez pensar em publicar um livro de crônicas?

Não foi iniciativa minha. Recebi o convite da editora Artes e Ofícios e, mesmo prematuramente, topei reunir umas 30 crônicas em livro. Foi quando saiu o Geração Bivolt, hoje fora de catálogo. Na época eu não tinha ideia de que minha carreira em jornal seria longeva, achei interessante documentar aquela experiência que me parecia circunstancial.

Sei que se tornar uma escritora, que vive de literatura foi algo que você não esperava. Foi difícil trocar a publicidade pela literatura? Quais foram os principais desafios e dificuldades de que se lembra?

Não houve dificuldades. Eu já não me sentia satisfeita com a profissão de publicitária. Fiz muitos amigos bacanas em agências, tive ótimas experiências, mas eu não me sentia competente o suficiente como profissional de criação e tinha muita vontade de realizar um trabalho mais autoral. Quando surgiu a oportunidade, me joguei. O problema que poderia haver seria financeiro, já que eu recebia um bom salário em agência, e no jornal comecei trabalhando quase de graça. Por isso fiz alguns frilas até me estabelecer como colunista. Além disso, eu estava casada na época e meu marido deu o suporte que faltava. Logo depois comecei a trabalhar em tevê (por um período curto) e fui recuperando minha independência aos poucos.

Quais foram os autores e livros que você considera fundamentais na sua formação e por quê?

Sempre que penso na minha formação, não me restrinjo à área profissional, penso na minha formação como pessoa, e aí surgem os nomes da minha infância e adolescência: Monteiro Lobato, Mario Quintana, Paulo Leminski, Herman Hess, Caio Fernando Abreu, Fausto Wolff, todos abrindo portas e janelas na minha mente. Mas saliento em especial a escritora Marina Colasanti, ela foi uma espécie de guru da minha transformação de menina para mulher. As obras dela, principalmente as colunas que escrevia em revistas femininas, ajudaram a formatar minha identidade. Eu ficava fascinada ao vê-la levantar questões importantes sem abrir mão da leveza e com muita sabedoria.

O ato de viajar parece ter um papel importante na sua vida. Como se iniciou essa relação, essa curiosidade em conhecer outras culturas, outros lugares?

Conhecer outras culturas se tornou a justificativa padrão para se pegar a estrada, mas hoje vejo que não foi só isso. Entrei na adolescência já tendo muita vontade de expandir minhas experiências, de não me deixar enquadrar pelos projetos sociais comuns a todos: casar, ter filhos, trabalhar e morrer. Sabia que existia muito mais lá fora, não apenas cidades, monumentos e praias, mas um “eu” estrangeiro que eu queria muito conhecer, pois intuía que ele me daria novas respostas sobre mim mesma. Quando fiz minha primeira mochilagem pela Europa, aos 24 anos, sozinha, foi um emocionante encontro comigo, me valeu por anos de terapia. E desde então virou vício, a ponto de eu me sentir mais eu mesma quando estou em outro país, desatada das obrigações da rotina. Claro que é muito bom ter raízes, ter uma casa, vínculos afetivos, tudo que nos retém num mesmo local, mas se eu não escapasse de tempos em tempos desta pretensa “segurança”, consideraria asfixiante viver.

Em seu livro Teoria da Viagem, o filósofo francês Michel Onfray argumenta que ter um lugar para onde voltar é tão fundamental quanto o caminho que se percorre. Você concorda com isso?

Concordo, pois viver todo o tempo solto no mundo, de porto em porto, acaba se tornando o reverso da liberdade, fica-se preso por fora. Ir e voltar são dois verbos com a mesma importância.

Você chegou a comentar que já estava sem muita paciência para viagens e aeroportos. Isso apenas no lado profissional ou também no pessoal?

Devo ter comentado isso após voltar de alguma longa viagem, cansada por ter ficado muitas horas enlatada dentro de um avião. Sempre chego pensando: nunca mais! Porém, no dia seguinte, começo a esfregar as mãos, pensando: quando será a próxima? O que não tenho mais disponibilidade é de pegar a estrada para cumprir compromissos profissionais ligeiros, o famoso bate-e-volta. Preciso ficar mais tempo em casa, dentro do meu escritório, escrevendo.

Atualmente, o que você acha que a vida é? Se você tivesse que explicar de maneira condensada o que é estar vivo, como faria?

Viver é uma honra. A alternativa seria não ter nascido, não ter existido. Então encaro a vida como uma grande oportunidade de criar uma história para si mesmo, ser o personagem de um roteiro que inclui sentimentos intensos, cenários variados, momentos ótimos e momentos péssimos. É um passeio por uma montanha-russa em movimento constante, com altos e baixos, e que uma hora vai acabar.

O que ainda hoje te causa encanto?

Conhecer pessoas com quem descubro afinidades imediatas. Estar perto do mar. A paixão e o sexo. Ler um livro espetacular. Ouvir música. Conversar com minhas filhas. Dia de sol.

Pensar na nossa finitude quase sempre não é nada fácil. Ernst Becker diz que praticamente tudo o que fazemos é para, de certa forma, negar a morte. Se me permite perguntar, como você tem encarado o processo de envelhecimento? Tem problemas quanto a isso?

É um privilégio muito grande ter 55 anos e afirmar que estou na melhor fase da minha vida. De fato, estou. Não lembro de ter me sentido tão entusiasmada e orgulhosa. Daqui “do alto”, contemplo a vista panorâmica do trajeto percorrido até agora e, incluindo os bons e maus momentos, o meu olhar é muito grato. Fico envaidecida por ter conseguido chegar aqui com tantas aquisições afetivas e profissionais. Claro que cometi erros, mas não tenho como voltar no tempo e corrigi-los, então aproveito a maturidade conquistada para viver melhor daqui pra frente, procurando acertar mais, e isso é possível quando se tem um bom conhecimento sobre si mesmo. Isso não significa que eu esteja achando incrível envelhecer… Por mim, daria uma segurada agora, não iria adiante tão rápido, mas não há feitiço contra a passagem do tempo, então estou tratando de aproveitar enquanto tenho saúde, joelhos, bom humor, jovialidade. Acredito que ainda há muita coisa boa pra fazer antes de alcançar a senilidade.

Qual a parte mais difícil do seu trabalho?

Encontrar um tema que me pareça estimulante, que não me dê a sensação de que já tratei sobre ele antes. São 23 anos escrevendo crônicas, muitas questões me parecem saturadas, mas é inevitável retomá-las, desde que com um novo olhar. É buscar este novo olhar o meu desafio de hoje.

Do que você mais tem medo?

De violência. Mas procuro não pensar muito nisso, para não me paralisar.

Tem medo de fracassar em algo?

Fracasso é uma palavra muito dramática. Fracassar totalmente em algo não me parece plausível de acontecer, pois o fracasso sempre divide a conta com o aprendizado.  Podem as coisas não saírem como o pretendido, mas não vejo isso como tragédia, e sim como uma frustração. As frustrações que me incomodam são de ordem emocional: não conseguir levar uma relação adiante, ter magoado alguém. Minha autocrítica custa a me perdoar.

Qual a maior alegria que já teve na vida?

Os dois partos das minhas filhas foram momentos inacreditáveis, sublimes. Não lembro de ter me sentido tão plena.

Existe amor além da abstração e das projeções?

Amor é um sentimento muito amplo. Existe o amor erótico, o amor entre amigos, o amor familiar, o amor por projetos, pela natureza, pela arte, pela vida. O amor é antes de tudo uma necessidade humana, ele é motivacional, dá um sentido para nossa existência. É o álibi perfeito para a maioria das nossas atitudes.

Quais os próximos passos que pretende tomar? O que vem por aí?

Estou escrevendo um roteiro de cinema, acho que ano que vem será filmado. Tenho conhecido pessoas novas, de outras áreas, e elas têm me feito convites para atividades a que nunca me atrevi. É essa a minha vibe no momento: abrir novas possibilidades de realização, não ficar trancafiada no que já deu certo.

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Jocê Rodrigues
É escritor, editor e repórter responsável pelo conteúdo jornalístico do CONTI outra.

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