Manual de desorientação ao candidato de graduação

O que ninguém te diz antes que você ingresse na faculdade é que esse difícil primeiro passo, é apenas um primeiro passo. Talvez, o mais fácil dos primeiros passos em direção a uma carreira profissional. É abismal perceber o quanto a fantasia acerca da realização de uma graduação encontra-se, na maior parte das vezes, distante da realidade da vida. Um jovem que mal sabe o que quer comer precisa tomar uma decisão de longo prazo…

A orientação profissional existe e não é adotada pelas escolas, não é conhecida a não ser por parcos testes de revista, não é valorizada, mesmo que ofereça um resultado minimamente melhor que seguir a profissão do pai ou o sonho de criança, que lá pela metade do curso, a pessoa descobre que era, de fato, apenas um sonho de criança, e não um sonho atual. Seguir a lógica de escolher o que “dá mais dinheiro” também não costuma funcionar, logo se descobre que dinheiro e graduação não necessariamente caminham juntos.

O que as pessoas ignoram é que mudar, nesse contexto, não é fácil. Uma vez feita uma escolha, finalizada uma formação, consolidada uma experiência acadêmica e no mercado de trabalho, outras oportunidades começam a fechar as portas, e uma má escolha pode torna-lo escravo de sua primeira opção. É a velha lógica da experiência anterior sempre exigida, sem que existam oportunidades para adquirir a tal experiência anterior. O desespero que leva às pessoas a aceitarem a primeira coisa que aparecer “na reta” é o que irá estabelecer os primeiros contornos do seu futuro. Quantos têm consciência disso?

Ninguém te avisará também, que os árduos anos dedicando tempo, dinheiro, juventude e sonhos em sacrifício pela sonhada formação, não vão te garantir um bom salário e nem estabilidade imediatos. A maioria dos recém formados saem da faculdade desempregados e assim permanecem por longa data. Outros não conseguirão emprego na área em que gostariam de atuar e ainda assistirão pessoas sem formação superior receberem salários maiores ou iguais aos deles. Isso não é porque o esforço não valha a pena, se o objetivo for outro, isso é porque a sociedade não valoriza mais a formação superior a não ser como uma exigência, não mais como um diferencial.

Dificilmente se contará com outro auxílio além do instinto para que você, o novo universitário, perceba que se encontra em um universo único, com uma potente oportunidade de amadurecimento e conhecimento que transcende à grade curricular, as notas, as competições e todos os aspectos burocráticos e acadêmicos que envolvem uma faculdade. De que ali você encontrará pessoas e situações das mais diversas, coisa que não se repetirá em outros momentos da vida, e mesmo que posteriormente retorne a este espaço singular, já não será o mesmo, já não será a mesma experiência.

Ninguém o incentivará a permanecer o máximo de tempo possível ali, viajando para os eventos desejados, conhecendo pessoas, aproximando-se de professores com os quais possui afinidade, participando de grupos, coletivos, movimentos, atividades extracurriculares, explorando as bibliotecas, conhecendo tudo o que a universidade oferece, mesmo que isso signifique um rendimento menor nos números e um período mais extenso para formação. A predominância do quantitativo engole o supra sumo da experiência.

Não haverá quem o alerte sobre não perder os seus sonhos de vista, mesmo que, para não cair de cara na realidade, seja necessário também manter os pés no chão. Há ainda alguém capaz de oferecer uma orientação que não parta para o 8 da racionalidade mórbida ou o 80 da destrutiva ilusão, já tão naturais da juventude nos seus primórdios?

Principalmente, raramente alguém o incentivará a errar, a falar, a questionar, a ir além do que ali se apresenta, para encontrar seu próprio caminho dentro daquele trilho, que nada mais é que um molde para evolução autônoma. É preciso aprender sozinho e, às vezes, meio tarde para que as coisas se realizem com a mesma facilidade com que teriam acontecido antes de então.

Quem arriscará te dizer que priorize apenas o “com” da competição enquanto ainda há tempo? De que nesse momento, somar e multiplicar é melhor que dividir e subtrair, pois depois disso, é basicamente a competição o que restará para o resto da sua vida. Que insano o alertaria a permanecer ao máximo no presente e só de vislumbre não perder o futuro de vista, pois, certamente, os caminhos se modificam e o futuro raramente sai como o que era supostamente previsto? Nenhum jovem universitário encontrará nada disso em um manual, em um relato ou em um site próprio para pré-vestibulandos.

Vivemos em uma lógica na qual a universidade se tornou uma espécie de ensino técnico, e mais se diferencia dele pela quantidade de anos dedicados e possibilidades veladas – que só os mais curiosos acabam descobrindo – do que pela natureza de sua estrutura de aprendizado. Muitos tecem críticas à queda da qualidade do ensino universitário atribuindo a sua má qualidade crescente às políticas de quota ou novos métodos de seleção. Mas há muito tempo se sabe que a “múltipla-escolha” é a pior escolha para uma seleção que se pretende qualificada. Mais ainda se sabe, que sem o devido suporte financeiro, dificilmente alguém consegue ter um rendimento adequado dentro de um universo que exige dedicação para ser bem aproveitado. Temos ainda a locomoção, a desmotivação de professores que queriam ser apenas pesquisadores, de espaços negligenciados, de recursos escassos, de “iniciados” que não fazem a menor ideia de onde ou porque ou o que querem com a sua iniciação.

O mito da graduação enquanto obrigação acaba por transformá-la em pouco mais do que uma extensão do ensino médio e uma pílula árdua de engolir para ter como efeito o despertar na desilusão. De um espaço de conhecimento tornou-se um espaço de profissionalização mecânica. Não surpreende que tão pouco se desenvolva para além das novas tecnologias, pois agora, é o tecnológico o mais valorizado. Só não temo pelo dia em que não haverá mais seres humanos capazes de viver sem utilizá-lo, e tão logo, o dia em que não haverá mais seres humanos capazes de cria-lo, pelo fato de que, simplesmente, até lá não estarei mais viva. Não surpreende também que cada vez menos pessoas alimentem ou sustentem o desejo pela profissão de ensinar, e imagino que quanto a isso, posso poupar argumentação, tão explícita se faz a razão.

O que será dessas instituições no dia em que não houverem mais profissionais para fazê-las funcionar? O que já é visível, é que cada vez mais há profissionais com formação sucateada fazendo-as funcionarem mal. Por outro lado, temos a predominância da pedagogia do carinho ou da indiferença que, me perdoem, mas não forma bons profissionais nem desatina talentos. Em um contexto desses, como poderia haver quem instruísse os novos pupilos das universidades a conhecerem melhor o chão onde vão pisar? A ver se é isso mesmo ou se haveria uma solução mais adequada para os seus desígnios?

Para quem quer que se atente é visível que a universidade está morrendo, já não possui a mesma potência ou atuação social que já teve, já não confere valorização aos graus mais baixos de formação, e aos mais altos, reservam-se as vagas em eu próprio interior. A universidade está morrendo porque fechou-se em si mesma.

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Paula Peregrina
Peregrina de territórios abstratos, graduou-se em Psicologia, trocou o mestrado e uma potencial carreira por uma aventura na Letras e acabou forasteireando nas artes. Cruzando por uma vida de territórios insólitos, perseveram a escrita, a poesia e o olhar crítico, cristalino e estrangeiro de todos os lugares.



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