Mãe, roubaram a televisão? (ou Uma história de família)

Por Carolina Vila Nova

Tudo aconteceu no final da década de oitenta, quando o filme “Nove semanas e meia de amor” ainda era a grande novidade do cinema erótico e eu tinha lá os meus treze ou quatorze anos de idade.

Dizem que família grande é sinônimo de casa movimentada. E eu acho que é mesmo.

Naquela noite quando cheguei, meu pai saía com o fusquinha da garagem, ao mesmo tempo em que minha mãe falava algo nervosa na porta de entrada. Eu entrei e minha mãe foi logo dizendo: “Entrou ladrão em casa. Levaram a televisão, o videocassete (caríssimo na época) e o videogame. E seu pai saiu armado pra pegar o ladrão”.

Eu lembro que fiquei confusa em relação a duas coisas: “Quem meu pai ia pegar, armado e de fusquinha?”, “E como teriam roubado o videocassete, se ele nem em casa estava?”. Acordei a minha irmã e perguntei se ela tinha ido buscar o aparelho que estava na casa de uma amiga, que justamente, pretendia assistir ao filme “Nove semanas e meia de amor”.

Diante da alegria de não perder o dinheiro gasto no valioso videocassete, minha mãe nem questionou o fato de termos emprestado o equipamento.

Pouco depois chegou um dos meus irmãos e a história foi a mesma, só um pouco mais longa. Meu irmão entrou e minha mãe foi logo em disparada: “Entrou ladrão em casa. Levaram a televisão e o videogame. Só não roubaram o videocassete porque estava emprestado para uma amiga da sua irmã. E seu pai saiu armado pra pegar o ladrão”.

Diante do nervosismo da minha mãe e de toda agitação da noite, eu permaneci acordada ali com ela. Pouco mais tarde chegou o meu irmão mais velho, visivelmente alcoolizado. Eu e meu outro irmão achamos graça do estado dele. Minha mãe parecia nem ter percebido e foi mais uma vez em disparada: “Entrou ladrão em casa. Levaram a televisão e o videogame. Só não roubaram o videocassete porque estava emprestado para uma amiga da sua irmã. E seu pai saiu armado pra pegar o ladrão”.

Meu irmão cambaleando ficou o tempo todo olhando de canto para minha mãe. Ele desceu as escadas de forma não linear e bem barulhenta. Permaneceu alguns segundos na sala e voltou para a parte de cima da casa, onde nós estávamos. Ele parou na frente da minha mãe, bem sério e perguntou: “Mãe, roubaram a televisão?”.

Minha mãe o levou para cama a tapas.

Eu fui dormir antes do meu pai chegar de sua busca não bem sucedida pelo ladrão e nossos equipamentos.

Nós aprendemos a passar nossos dias sem o videogame odyssey. Uma nova televisão foi comprada e o valiosíssimo videocassete fez a alegria de nossas tardes ainda por muitos anos.

Mas esta história se tornou para mim um dos marcos da liberdade em que vivi na minha adolescência. Época em que cada um chegava em casa a hora em que bem entendia, a pé e meu pai ainda acreditava que podia enfrentar e caçar um ladrão: de fusquinha…

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Carolina Vila Nova é brasileira. Tem cidadania alemã, 40 anos. Escritora e Roteirista. É autora dos seguintes livros: “Minha vida na Alemanha” (Autobiografia), “A dor de Joana” (Romance), “Carolina nua” (Crônicas), “Carolina nua outra vez” (Crônicas), “Vamos vida, me surpreenda!” (Crônicas), “As várias mortes de Amanda” (Romance), “O dia em que os gatos andaram de avião” (Infantil), “O milagre da vida” (Crônicas) e "O beijo que dei em meu pai" (Crônicas). "Nosso Alzheimer." (Romance), Disponíveis na Amazon.com e Amazon.com.br



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