A mãe quer um médico, o pai um juiz, e o filho só quer ser feliz

Imagem: altanaka/Shutterstock

Filho é um ser em construção, não nasce pronto de jeito nenhum, o que significa que desde a embalagem até o conteúdo, tudo se processa lentamente e só adquire a forma mais próxima da definitiva quando atinge a maturidade. E olha lá! Mesmo assim não há definitivos e nem irrevogáveis que condicionem os nossos pensamentos e as nossas decisões em embalagem fechada, à prova de mudanças.

No transcurso da vida, tudo muda. Mas é na adolescência que ocorre o pico de mudanças máximas, e é também nessa fase que a criança –oh tragédia das tragédias- precisa decidir o que será quando crescer. Porque ainda não cresceu, mas já precisa se decidir.

Temos aqui um caso hipotético muito comum, que pode ser encontrado em qualquer família brasileira: a mãe quer um filho médico. Assim, sem nenhum motivo especial, porque afinal toda mãe quer um filho médico. Ou quase todas.

O pai quer um filho juiz, por um bom motivo: é advogado. E já que ser só advogado não basta, ele deseja para o filho uma toga de juiz.

E o filho, esse protótipo de médico misturado com juiz, vivendo a idade mais oscilante em termos de “o que eu quero ser na vida” não quer nada.

Na dúvida, ele só quer ser feliz.

Os três elementos sofrem o encaixe e o atrito dos sonhos divergentes, mas compartilhados. Conversam amigavelmente sobre o assunto, ou se estranham, caso a conversa seja mais demorada.

No final de semana, por exemplo. Bem na hora do almoço.

Depois de uns minutinhos de bate-boca percebem o insólito da discussão destituída de poder, e encerram a conversa sem futuro recorrendo ao único que conhece, e tem poder sobre o futuro: “Seja feita a vontade de Deus.”

E eu acrescento: “Já que a sua não tem poder de decisão.”

Nesse processo de espera, os pais observam que para quem irá enfrentar um vestibular de medicina – claro, o pai é voto vencido, e Direito será a segunda opção no formulário de inscrição -, o menino (ou a menina) está muito folgado, muito ausente, sem foco, sem método, sem disciplina para estudar, e o mais grave: dependente psicológico da tecnologia e dos games eletrônicos.

Acontece nas melhores famílias. O garoto diz sem muita convicção: “vou prestar vestibular para medicina, e se não entrar, vou para o Direito.”

 

Ele nem menciona a magistratura, já que depois de entrar para a Faculdade de Direito terá que passar na OAB, e enfrentar concurso para ser o juiz dos sonhos do pai, corrigindo todas as injustiças que o pai pensa ter sofrido como advogado.

O garoto até que é razoável na avaliação da realidade, mas há um problema nesse raciocínio: quem quer ser médico não pode querer outra coisa, além de ser médico. Porque a medicina exige não apenas muito conhecimento para vencer a concorrência perversa dos vestibulares, como também o desejo irresistível de ser médico.

A pessoa pode ser qualquer coisa sem querer ser, e claro, terá prejuízos de ordem emocional a vida toda, mas ainda assim conseguirá dar conta da profissão na qual se graduou.

Menos na medicina. Não dá para ser mais ou menos na medicina. Mais ou menos mata. Mais ou menos aleija. Mais ou menos paralisa. Mais ou menos corta de mais, ou corta de menos.

Tenho visto, nessa vida comprida, muitos jovens casais equivocados e bem intencionados, prospectando sonhos para os filhos de maneira fantasiosa e irreal.

Você acha mesmo que o seu filho tem condições para enfrentar um vestibular de medicina! Para ser médico? Não estou nem falando de QI, mas de disciplina, de afinco, de dedicação, de muitas horas debruçadas sobre livros, de renúncias a filmes, passeios, jogos, paqueras, festas e vídeo games, estou falando de evidências maduras acerca da intenção que não acaba quando ele recebe o canudo, mas começa a partir daí.

Você tem certeza de que é isso o que ele quer ser na vida, ou às vezes, lhe parece estar viajando na maionese, antes mesmo de colher a batata?

Se você não vê tais intenções, e não tem certeza dessa vocação, é bem provável que o seu filho não consiga passar no vestibular mais concorrido nas estatísticas brasileiras. E o mais grave: é bem possível que o menino perca um tempo considerável em cursinhos preparatórios que não o levarão a lugar algum, por um único motivo: inconscientemente, ele não deseja ser médico.

Tenho alguma experiência nesse assunto: com um marido médico, nenhum dos meus três filhos fez Medicina.

Eu era a mãe que queria a medicina para as crianças. Mas o pai das crianças só queria o que elas queriam, e me fez compreender, pela vida ralada que leva, que a verdadeira medicina é um sacerdócio e não a profissão glamourosa que todo mundo imagina.

Meus filhos cresceram vendo a vida difícil de um médico social do interior, que ama o que faz, e que recebe o reconhecimento de seu trabalho não apenas através do vil metal, mas também de formas alternativas. Ontem, recebemos mandioca e limão. Antes de ontem, um queijo. E na semana passada, um frango caipira mortinho da silva.

Dias desses, assistimos juntos a um documentário realizado pela TV Globo que contou a vida do Dr. Eugênio Sacannavino, um médico que na década de 80, recém formado, oriundo de família de classe média paulistana, decidiu gastar a vida entre os ribeirinhos do Amazonas. Vive lá até hoje, deve viver para sempre.

Esse é o modelo de profissional que nasceu para ser médico, no Amazonas, na Avenida Paulista, ou em qualquer outro lugar do Planeta: o médico que se fez médico porque tinha como meta ajudar as pessoas em suas necessidades físicas, mentais, e emocionais, e para elas se disponibilizou.

Ele foi onde a sua presença era mais necessária. Onde havia mortes de crianças por verminose, e falta de saneamento básico. Ele interveio na saúde através da cultura. Ele sepultou ideias de enriquecimento, de conforto, de acúmulo de patrimônio e de bem estar pessoal. Que figura admirável! Se você não o conhece, procure no Google.

Se eu pudesse arrematar esse artigo de maneira agradável, de forma a não causar rupturas entre o seu sonho e a sua realidade, eu o faria. Temo não poder.

Mas posso terminar usando uma frase de Confúcio que provavelmente amenizará algum inevitável e momentâneo desencanto que o meu artigo possa lhe causar:

“A melhor maneira de ser feliz é contribuir para a felicidade dos outros.”

Seja feliz contribuindo para a felicidade do seu filho.

Seu filho quer ser feliz? Ele está certo. Ajude-o a descobrir onde habita a felicidade, e dê-lhe uma passagem com bilhete de ida.

Garanto que ele não lhe pedirá o bilhete de volta.

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Ana Maria Ribas Bernardelli
Estudante de humanas-idades, cidadã do céu e da terra, escritora por compulsão, leitora de letras, de pontos, de reticências, e de linhas, interventora de paisagens, solitária por opção, gregária por necessidade, gosto de músicas, filmes em que só as pessoas acontecem, documentários, biografias, e todas as obras de Clarice Lispector e de Watchman Nee. Vivo a espiritualidade, sem religião. Não tenho afinidades com rituais e com scripts que se repetem. Amo a liberdade, os animais, as plantas, os velhos, as crianças, e todos os seres que se sentem estranhos no ninho. Fujo de superficialidaes, e não tolero nenhum tipo de injustiça, crueldade, ou tirania. Adoro a Deus e a ele quero servir. Escrevo para organizar a vida, para aguentar o tranco, e em cada texto meu, você me encontrará. Espero que eu também lhe encontre no meu email, no meu site, e nos meus endereços nas redes sociais. Feliz por estar com vocês!

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