Luiz Felipe Pondé e a era do ressentimento

Em seu livro A Era do Ressentimento: Uma Agenda Para o Contemporâneo, publicado em 2014, o filósofo brasileiro Luiz Felipe Pondé explora com profundidade o individualismo exacerbado, o narcisismo exagerado e o ressentimento massificado que, para ele, caracterizam, em partes, a civilização ocidental da sociedade contemporânea.

Encandecido pela labareda filosófica, o livro é confrontador; dá um verdadeiro tapa na cara não só no indivíduo que se vê enquadrado como ressentido, mas também naquele que não se considera assim.

Luiz Felipe Pondé é, entre os filósofos brasileiros conhecidos, um dos mais polêmicos. O autor é famoso por sua filosofia sarcástica, mordaz, explosiva e pessimista. Nos seus escritos, ele costuma transformar ideias em argumentos sempre controversos, avessos e formadores de tabus.

Um fato peculiar sobre Pondé é que, no início de sua formação, ele largou o curso de Medicina para estudar Filosofia e se tornar, de fato, um filósofo. Muitos, se pudessem, desejariam fazer exatamente isso: abandonar uma profissão com amplo potencial de mercado, a qual possa propiciar solidez financeira, estabilidade e segurança, para ingressar em outra que, como se sabe, não gera renda justa nem possui tanta representatividade popular.

São poucos, dentre os amantes de Filosofia, como Pondé, que têm a coragem e as condições suficientes para se dedicar exclusivamente a esta nobre disciplina, através de uma atitude extremamente radical.

Além de filósofo, Pondé é escritor e professor. Escreve semanalmente para o jornal Folha de São Paulo e leciona há mais de duas décadas.

Por sua obstinada dedicação acadêmica e suas efetivas contribuições profissionais, até hoje, ele deve gostar muito do que faz. Entre seus admiradores e críticos, há um comentário comum de que lê-lo ou ouvi-lo energiza, mas também incomoda. No entanto, esse incômodo, antes de ser desagradável, é saudável.

Em geral, suas observações são investidas de ironia, sarcasmo e duplo sentido. Podem claramente ofender ou agradar, dependendo do humor, da tolerância e da receptividade de quem está lendo ou ouvindo.

Filosofia não tem o objetivo de agradar as pessoas e, por causa disso, desinteressa muitos que não enxergam nela utilidade alguma. Mas sua função também não é desagradar. Os filósofos, como Pondé, pensam, escrevem e dialogam para oferecer às pessoas visões de mundo transformistas e inquisidoras, com base em seu repertório de ideias em constante construção, não se importando em agradar ou desagradar, mas em fazer raciocinar, o que fadiga e aborrece muitas pessoas. Henry Ford por exemplo, dizia que “pensar é o trabalho mais difícil que existe: talvez por isso tão poucos se dediquem a ele”.

Para aceitar a Filosofia, não é necessário fazer parte de uma elite. Qualquer um filosofa. Mas não são todos que se desprendem de preconceitos e estereótipos, libertam de opiniões e crenças enraizadas, são curiosos e estão dispostos a aprender sem picuinhas e modismos que sua educação incutiu.

Uma das maiores exigências para se embrenhar na Filosofia – sem danos – é ter atingido um certo nível de maturidade para com o mundo: isso significa tolerá-lo, um desafio persistente tanto para quem enxerga seu lado bom quanto para quem já está de saco cheio dele.

A ideia de que a Filosofia é chata, inútil ou apavorante tem muito a ver com a falta de respeito que as pessoas atribuem, ou então com o sofrimento que sentem, quando se propõem a ler algo filosófico. Quem quiser se emocionar que leia contos poéticos, romances ou assista filmes de amor com finais felizes. Há quem se sinta acalentado e sensibilizado pela Filosofia, e não são poucos, embora representem a minoria. Pondé é um desses representantes.

A grande maioria das pessoas rejeita ler um livro filosófico sobre ressentimento. Mas por quê? Primeiro porque elas preferem ideias que, primacialmente, agradem a elas; segundo, porque algumas verdades são muito dolorosas para serem enfrentadas.

É bem possível desenvolver ressentimentos por se envolver com Filosofia, mas é igualmente possível ler Filosofia por se estar ressentido, seja consigo mesmo, com os outros ou com a vida em geral.

A era do ressentimento

Na análise severa de Pondé, a epidemia de ressentimento que assola a sociedade contemporânea assume caráter mais do que simbólico ao representar um mal estar da civilização impossível de ser ignorado.

A Era do Ressentimento chama a atenção do público pela maneira adstringente como são abordados alguns temas pertinentes à atual sociedade, tais como o individualismo exagerado, o narcisismo extremo e a própria crise de ressentimento.

Em todo o livro, Pondé ofende o sentimentalismo demasiado de quem está lendo, fazendo provocações diretas especificamente aos ressentidos, estes que lhe dão a pauta para discussão.

Despreocupado com a concordância ou discordância daquilo que escreve, Pondé, politicamente incorreto, dirige críticas ferozes à sociedade moderna que, segundo ele, ficará marcada, no futuro, por indivíduos que se propõem a fugir da realidade ao invés de encará-la com os pés no chão. O autor dedica o livro “em homenagem a todos que estão fugindo”.

Pelo tom usado por Pondé no livro, dá a impressão de que o autor foi influenciado por puro ódio, mas, na verdade, o combustível foi seu próprio ressentimento. Esta é uma obra confessional, em que o autor revela a agonia que sente por estar cercado de ressentidos, como ele. Pondé oferece este livro a todos que estão correndo das modas de um mundo viciado em seus ridículos fantasmas de sucesso.

Um certo nível de ressentimento é inevitável em um mundo de injustiça e mesquinharia, onde somos obrigados a conviver com muitas pessoas mais bem-sucedidas do que nós, em vários aspectos.

O ressentido que lê este livro e encontra a si mesmo pode criar, a partir de seu súbito reconhecimento, desculpas para negar essa realidade que não deixa de ser evidente. Ou então, ele enfrenta esse podre com um posicionamento humilde e mente aberta. Seja lutando contra o ressentimento ou ignorando esse revés na indiferença, isso não altera os fatos da atual era, em que o ressentimento prepondera.

Hoje em dia, por uma série de motivos, as pessoas têm uma ambição – que beira a obsessão – estruturada por três alicerces: elas querem mais do que precisam, acham que seu reconhecimento é insuficiente, e acreditam que merecem ser mais amadas. Da frustração de uma ou todas essas solicitações, surge o ressentimento do qual Pondé tanto fala no livro.

“O ressentimento destrói em nós a capacidade de pensar e compreender a realidade […] Uma de nossas tragédias está no fato de que quase sempre é o fracasso que torna a vida real.”

No livro, Pondé empresta uma ideia do filósofo Friedrich Nietzsche – seu grande influenciador – no esforço para explicar as origens do ressentimento:

“Nietzsche conta que, num recanto distante do universo, uma estrela tinha um planeta a sua volta. Neste, uma raça de insetos viveu por um milhão de anos e criou uma coisa chamada conhecimento, que os insetos tinham em alta conta. Com a morte da estrela, tudo se apagou. E o universo continuou no seu silêncio e na sua indiferença. Nasce aí nosso ressentimento. É da indiferença do universo que nasce nossa mágoa.”

A gente se sente bem em meio à natureza porque ela não nos julga. Mas Nietzsche também nos lembra que o sol e a lua não estão nem aí para nós. Os mares, lagos e rios não existem para que a gente nade neles. As árvores não se exultam para que delas possamos tirar oxigênio. As estrelas não brilham para magnificar nossos olhos.

Essa indiferença por parte do mundo remete a um vazio existencial e, para evitarmos esse vazio, nos tornamos fugitivos vorazes, sedentos por uma vida de consumo que, em suas pequenas alegrias, nos traz um pouco de consolo e paz. Mesmo bem fundamentos nessa realidade consumista, tomamos a consciência, em um momento ou outro, da ausência de sentido: parece não haver plano de consolo que não passe por um teste de ressentimento.

É adequado lembrar que, para uma ampla gama de pessoas, religiosas ou não, a vida é toda cheia de sentido. Pondé, que por sinal é ateu, é do outro time, que duvida desse sentido. Não há uma visão certa ou errada sobre isso, apenas diferente.

Pondé, em resposta à sua consideração antirreligiosa de que a vida em si não tem um propósito maior, parabeniza todos aqueles que reconhecem que a vida não tem sentido e enfrentam esse desconforto com audácia e compromisso, sem precisarem escapar da realidade por quaisquer meios necessários. Indivíduos que carregam a responsabilidade por essa verdade ardilosa – a minoria – contrapõem-se àqueles covardes, mimados e ressentidos – a maioria – que estão sempre culpando os outros pela catástrofe em suas vidas.

Qual seria a cura para o ressentimento? Pondé alega que a única forma de o ressentido lidar com seu ressentimento é aceitar, em totalidade, que a vida é um escândalo: ela é como é. Devemos adaptar-nos ao universo, diz ele, mesmo que este seja indiferente aos nossos desejos.

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O ressentimento é ontológico. Em A Era do Ressentimento, o autor relembra que, na Grécia Antiga, o oráculo de Delfos dizia para os homens: “Conhece-te a ti mesmo”. Isso não queria dizer que deveríamos conhecer nossas histórias pessoais de vida, mas sim: “Saibas que tu é mortal, e nós deuses não”. Pondé sugere que o ressentimento também reside aí: na inveja pela imortalidade dos deuses.

Durante a vida, a morte se declina em várias formas: doença, falta de inteligência, infidelidade, fracasso, perda, desilusão amorosa, falta de beleza, etc. É o que Nietzsche se referiu quando disse que “não há apenas uma morte ao longo da existência”. Outro motivo para o ressentimento.

A verve artística de Pondé está no ceticismo e na melancolia. Ele não acredita, por exemplo, que a humanidade está em progresso; na verdade, crê que as pessoas sempre fizeram aquilo que querem ou então são obrigadas a fazer, mas dificilmente fazem tudo o que podem. Ele também rechaça a ideia de que tecnologia nos faz mais interligados e desenvolvidos, dizendo que esse é um pensamento utópico defendido por pessoas que se escondem atrás de seus dispositivos eletrônicos, desesperadas pela necessidade de atenção e reconhecimento. Sobre a dependência tecnológica crônica, o autor diz:

“Ouvirão falar vagamente de nossas redes sociais e de nossa crença em seu potencial revolucionário […] A própria ideia de revolução será vista como uma forma de animismo. Levarão mais a sério os gregos, romanos e hebreus, porque verão neles povos que buscavam o conhecimento, e não suas próprias imagens no rosto do universo.”

Ainda dentro do tema da hiperconectividade, Pondé ressalta como vendemos a nossa privacidade por um mínimo que seja de aceitação social. Prendemo-nos a conexões artificiais ao temermos um status de excluídos.

“Um dia, a privacidade foi um bem a ser defendido a sete chaves. Hoje, ela é um tormento, porque quanto mais privacidade temos mais claro é o vazio das horas. A saída é buscar ser invadido pelos outros num delírio de celebridades e redes sociais. O sintoma indica claramente a patologia: a candente dissolução de qualquer subjetividade real.”

Esse “vazio das horas” deve ser preenchido: redes sociais acabam sendo uma das arenas onde se pratica a atual política do pão e circo. O povo tem mais uma ferramenta para se manter entretido.

É natural a nossa suscetibilidade em fugir da dor e do sofrimento, já que esse é um mecanismo fisiológico de defesa. Por isso é comum que as pessoas busquem subterfúgios – como mundo digital, trabalho, fé, drogas e entretenimento.

Pondé acredita que somos felizes quando nos esquecemos de nossa existência, o que explica o impulso e a volição do ser humano por transcendência.

A felicidade não deveria ser considerada um direito, como se a fuga da infelicidade nos fosse devida: seria mais prudente supor que não provaríamos da felicidade se não houvesse contraste com a infelicidade. Como diz Pondé, todos nós temos o direito ‘para’ a felicidade, não o direito ‘de’ felicidade.

Carregamos o cadáver em nossas costas, pois somos a única espécie que tem consciência de sua mortalidade. Pondé acredita que o ressentimento associado a esse fato terrível nubla a nossa percepção de beleza no mundo, em vez de aguçá-la.

“A beleza nasce no pântano e na lama do mundo. A beleza, quando expressa, deve ser rara, em detalhes, inesperada, senão perde a cor.”

O problema é que o ressentimento não vê a beleza, ele é cego. Na opinião de Pondé, o ressentimento é uma forma invisível de cegueira. Justamente por odiar o belo, o ressentido nunca será belo, quiçá se sentirá assim.

Há uma curiosa ligação, citada pelo autor, entre ressentimento e feminismo: tal sentimento é uma das molas propulsoras do movimento.

“Uma mania contemporânea é dizer que os homens bem resolvidos veem a beleza interior feminina. Mentira. Homens levam tempo para ver a beleza interior numa mulher, e elas sabem disso muito bem, por isso se enfeitam. Para chegar até a beleza interior da mulher, o homem deve já ter se cansado um pouco da beleza física dela. E isso leva tempo porque a beleza feminina nos enlouquece, como já sabia o poeta grego ao avisar os guerreiros de Ulisses quando se aproximava das sereias. Mas, como quase tudo no mundo contemporâneo é fake, virou moda dizer que homem que pensa primeiro na beleza física da mulher é machista.”

Mulheres não querem homens bem resolvidos, querem homens que tenham atitude e pegada. Dizer isso ofende muitas feministas, mesmo que não seja essa a intenção, há uma reação automática inflamada.

Vivemos num mundo em que as pessoas se ofendem por tudo e por nada. Isto faz lembrar a filósofa americana Ayn Rand e sua consideração de que, atualmente, estamos na “Era da Inveja”, em que as pessoas são atacadas por seu sucesso e pela concretização de suas realizações.

De acordo com Rand, a coisa mais imoral na Terra é ofender alguém não por suas falhas, mas por suas virtudes. Inveja: o ódio do bom por ser bom.

Há a inveja explicitamente manifestada, amarga, repulsiva; e há a inveja silenciosa, sugadora, ressentida. Nos dois casos, ela é a antítese do elogio. É o orgulho prejudicado, ferido. O invejoso anseia pela felicidade de quem a demonstra, obliterando sua própria capacidade de ser feliz no momento em que inveja.

Bem, adiante no livro, ao falar agora sobre narcisismo na sociedade moderna, veio à mente de Pondé a obra do historiador americano Christopher Lasch, chamada A Cultura do Narcisismo.

O filósofo brasileiro nos convoca a questionar as razões de tanto narcisismo. Seria uma sequela romântica ou uma cicatriz do ressentimento? O autor opta pela segunda opção.

De acordo com Pondé, o amor do narcísico ressentido vem sempre acompanhado de uma contabilidade de afetos. Ele necessita ter diversas pessoas das quais pode tirar prazer e satisfação quando bem desejar, mas nenhuma consegue suprir todas as suas exigências. Ou seja, ama por utilidade, não por amor.

“O narcisismo não é a marca de alguém que se ama muito, mas a marca de alguém que vive lambendo suas feridas porque é um miserável afetivo. Por viver se lambendo, pensamos ser ele alguém que se ama muito, sendo que, no entanto, é justamente o contrário. Incapaz de ter vínculos, o narcisista vive a serviço de si mesmo.”

A praga do narcisismo vem ganhando terreno numa sociedade que premia a si mesma através da egolatria.

Por ser um miserável afetivo, como diz Pondé, o narcísico age permeado por pobreza. O filósofo estoico Sêneca dizia que “pobre não é quem tem menos, mas quem deseja mais”. Narcisismo seria, então, uma manifestação prática de pobreza, apesar de seus entusiastas sentirem que, abundando-se em seu próprio ser, são ricos em amor próprio. Enganam-se.

De forma concisa, Pondé fala sobre o medo de amar e o amor narcísico da contemporaneidade:

“Há, claro, o medo do amor. Alguns dizem mesmo que ele não existe. Evidentemente que nem todos o conhecem e alguns nunca o conhecerão, mas o fato é que alguns felizardos o experimentam. Uma das dificuldades do amor é que ele não está necessariamente ligado à felicidade, e ainda pode ser o contrário de felicidade […] O amor exige demais das personalidades narcísicas como a contemporânea, que gira ao redor de suas misérias bem pessoais. O medo do amor se alastra por toda parte com seu efeito amargo de agonia. Pode-se perguntar se amamos mais no passado. Tendo a achar que sim, talvez pela ingenuidade, talvez pela falta de opção, talvez porque as mulheres eram mais bonitas com seus vestidos dos anos 1940 e, acima de tudo, eram menos ressentidas. Talvez o amor seja como a moral, simplesmente a decoração que faz um quarto ser mais belo do que apenas o lugar onde se dorme.”

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Em A Era do Ressentimento, Pondé também discorre suas ideias acerca da individualidade contemporânea, tendo se inspirado bastante no conceito de “Modernidade Líquida”, do sociólogo polonês Zigmunt Bauman. Para este, o egoísmo vem tomando cada vez mais espaço do altruísmo. As relações afetivas, nesse contexto, se mostram exageradamente superficiais, administradas com pouca profundidade. Ao se elevar as expectativas, corre-se um risco de frustração maior, hoje, do que em outrora. Ninguém é insubstituível, ou, na melhor das hipóteses, pouquíssimos o são.

Pondé aponta que o maior problema com a liquidez da qual fala Bauman é o fato de não ser possível aprender a nadar nela.

Luiz Felipe Pondé chama esta época de “Era do Ressentimento”. Ayn Rand a nomeia de “Era da Inveja”. Por sua vez, Zygmunt Bauman a considera como “Era da Liquidez”. Estes três autores têm algo em comum: não se mostram otimistas, tampouco satisfeitos com a atual geração, principalmente em termos culturais. Para todos os três, esta é uma geração de mimados que se recusam a amadurecer.

A luz do sol é para os vampiros o que a maturidade é para os mimados. Estes preferem transferir a culpa toda vez que ela vem. Pelo péssimo costume de se sentirem salvaguardados, delegam suas responsabilidades a outrem. Assim, se existe um problema, eles não o assumem, mas, antes, se munem da convicção de que outros devem solucioná-lo. E, normalmente, comportam-se assim sem qualquer peso na consciência. De acordo com Pondé:

“Somos uma civilização de mimados que não é capaz de escutar nenhuma crítica sem achar que é uma questão de ofensa pessoal.”

A maturidade, para Pondé, está fora de moda. Isso tem raízes na árvore da educação familiar. Muitos pais idolatram, cultuam seus filhos. Ao acreditarem piamente que estão cumprindo o dever de protegê-los, acabam mimando-os. E essas crianças se tornarão adultos irresponsáveis e alienados, além de frustrados e ressentidos por não saberem contornar seus fracassos.

Nós costumamos criticar o mundo como se ele fosse responsável por nossa sobrevivência. Pondé diz que é aí que o ressentimento se torna mais evidente.

Queremos que a sociedade nos ofereça garantias de congratulação por todas as nossas escolhas individuais. Se estamos endividados, criticamos o governo por inflação e o banco pela cobrança. Se estamos desempregados, criticamos a economia que está desaquecida e as empresas por falta de oportunidades. Se, por outro lado, estamos empregados, criticamos o sistema de trabalho que draga nossa vida social e suga nossa energia para investir em outros projetos pessoais.

“Nossa vida se dá, em grande parte, como a de um animal que vive fora de seu lugar: sonhamos em ser imortais, mas sempre acabamos por experimentar o mundo finito e o limite de nossos sonhos.”

Freud dizia que “amadurecer é aceitar uma orfandade”. Com isso, o amadurecimento passou a ser considerado um modo de opressão.

Como diria o filósofo alemão Walter Benjamin, “com a morte do amadurecimento, morre o narrador”.

Hoje em dia, fala-se muito sobre os direitos do “eu”, sobre o valor inestimável da autenticidade e senso de self, mas poucas pessoas suportam a singularidade. Segundo Pondé:

“Nunca foi tão impossível sustentar essa posição, porque a singularidade exige um percurso mais próximo dos exercícios espirituais dos velhos monges do deserto do que das preocupações com a felicidade típica dos mimados contemporâneos […] Uma pessoa corroída pelo ressentimento não suporta a singularidade porque ela escapa a qualquer enquadramento num projeto psicológico de si mesma. A singularidade pesa como uma cruz.”

O autor sugere que a singularidade de uma alma não é ela ser “bem resolvida”, mas sim fracassar em ser bem resolvida e viver um dia após o outro tendo que criar sua própria sinfonia, sem garantias, modas nem militâncias.

Pondé oferece uma outra perspectiva interessante, nada absurda, sobre a resistência em amadurecer. Para ele, o medo de ser pai e mãe está intimamente associado ao medo do amadurecimento. Ao invés disso, muitos preferem ter uma vida social regada a bares, festas e baladas, acuados por um futuro em que a solidão será o resultado final dessas escolhas ébrias e dionisíacas.

A solidão como sintoma de ressaca não configura uma solidão de valor, mas, como justificativa para sua reincidência, satisfaz uma necessidade de transcendência, é claro, temporária. Pondé cita novamente as redes sociais – mais especificamente a abundância de fotos “felizes” publicadas – como forma de mascaramento solitário.

“A solidão da vida contemporânea aparece por trás da alegria montada para as fotos, também irrelevantes. Nunca se tirou tanta foto e nunca se viu tão pouco uma. A solidão nos ataca como um enxame de abelhas.”

Contra esse enxame, muitos solitários evitam atacar a colmeia, ou então, amedrontados por sua situação, correm em busca de soluções prontas, como se a solidão fosse um mal corriqueiro e passageiro que pudessem exterminar de uma vez só. Alguns, impelidos por essa estratégia, recorrem a livros de autoajuda. Outros, embebidos pela sede de sucesso, fazem o mesmo. Em A Era do Ressentimento, Pondé comenta sobre essa “febre de autoajuda moderna”.

“Muitos livros de autoajuda oferecem fórmulas de sucesso. Não servem para nada. A vida não cede às formulações simplistas.”

Há uma rua sem saída na vida contemporânea, e este beco tem muito a ver com os efeitos colaterais de nossas escolhas. Às vezes, quando falhamos em alguma meta estabelecida, pensamos, com certo arrependimento, que deveríamos ter optado por outra alternativa de ação. Mas Pondé acredita que isso é tapar o sol com a peneira. Nós cedemos ao impulso de agir como se toda ação tivesse sentido e, quando percebemos que algumas ações não têm sentido algum, e nem contribuem para a realização de sucesso, seja qual for, enfrentamos o duro baque da realidade. E preferimos pensar que não estamos sozinhos ao lidar com as decepções.

“O desgaste verdadeiro de nossas ilusões, também com o passar dos anos, pode facilmente se transformar em pura solidão. O impasse contemporâneo nasce justamente de não podermos voltar atrás, a não ser deixando de ser contemporâneos. De alguma forma, a marca definitiva do contemporâneo é o narcisismo estéril e o individualismo histérico.”

O filósofo acredita que muita gente sente um profundo ressentimento por ter que sustentar (não só financeiramente) suas próprias vidas sem nenhuma garantia de felicidade.

Muito da desilusão no mundo advém da nossa mania de perfeição, daquela possibilidade idealística de sermos perfeitos: algo humanamente impossível. Mas ainda custamos a lembrar disso. Buscamos equilíbrio em tudo, e esquecemos que a vida é uma corda bamba, assim como a nossa natureza é irregular.

Pondé cita o tema do sexo para abordar um exemplo dessa neurose perfeccionista. Ele afirma que homens e mulheres só se entediam no sexo – quando se entediam – porque não associam previamente o tédio à ideia de uma relação sexual perfeita.

“Sexo só vai bem com imperfeição, insegurança, tentativa e erro, medo, culpa, pecado e uma dose de desrespeito. Quando sexo vira fórmula de saúde comportamental, estamos quase todos brochas, graças à revolução sexual e ao discurso da liberdade […] Toda ciência do sexo é um equívoco em si.”

Essa compulsão por máximo desempenho sexual é um produto da cultura do desejo. A carência, hoje, é, ao mesmo tempo, um impedimento resistente e uma catalisadora potente da necessidade por intimidade social: o sexo é mais uma medida.

Hoje em dia, não são raras as pessoas que carecem do desejo de formar vínculos; ainda pior, carecem da vontade desse desejo. É uma grande ironia que, num mundo obcecado pelo desejo, as pessoas não desejem mais.

Pondé costuma dizer, em suas palestras, que o desejo é intrinsecamente insatisfatório, porque decorre da falta. Ao satisfazermos um prazer, logo partimos em busca de outro, uma vez que a possibilidade de tédio pós-realização é atemorizante. O autor cita uma frase imperativa do filósofo Arthur Schopenhauer:

“O desejo tem duas formas de te humilhar: uma é não deixando que você o realize nunca, a outra é deixando que você o realize.”

As pessoas não encontram um antídoto miraculoso para o ressentimento, pois pensam que há uma cura definitiva. Para Pondé, essa cura, por ser baseada em problemas da psique, não está na erradicação, mas na adaptação resiliente do mal.

“A solução para o ressentimento não é negá-lo, mas nomeá-lo, ler sobre ele, perceber que é impossível não o ter em nós em alguma medida porque sempre conviveremos com pessoas melhores do que nós.”

Este livro de Pondé trata de uma apologia à mediocridade? Não. Trata da necessidade de abstermos da arrogância e prepotência para adotarmos humildade e autoconsciência. Isso requer muita, mas muita força de vontade.

A boa repercussão de A Era do Ressentimento marcou vários elogios à Pondé pela maneira lúcida com a qual desenvolveu o conteúdo da obra. Entretanto, sua abordagem frívola ofendeu muitos leitores que se sentiram menosprezados e insultados, como é de se imaginar.

Após o lançamento do livro, Pondé deu uma coletiva à imprensa, na qual disse:

“Uma pessoa, uma jornalista, achou a minha crítica dura demais. Mas o que eu digo no livro é tão ancorado no cotidiano que severa é a realidade, não eu.”


Outros bons livros publicados pelo autor:

  • Filosofia Para Corajosos (2016)
  • A Filosofia da Adúltera: Ensaios Selvagens (2013)
  • Guia Politicamente Incorreto do Sexo (2012)
  • Crítica e Profecia: A Filosofia da Religião em Dostoievski (2003)
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Eduardo Ruano
Escritor e redator por hobbie e profissão. Me considero uma pessoa racional, analítica, curiosa, imaginativa e em constante transformação. Gosto de ler, escrever, correr, assistir séries, beber e viajar com os amigos. Estudioso de psicologia, filosofia e comportamento humano. Também sou interessado em arte, literatura, cultura e ciências sociais. Odeio burocracias, formalismos e convenções. Amo pessoas excêntricas, autênticas e um pouco loucas, até certo ponto. Estou sempre buscando novas inspirações para transformar ideias em palavras.



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