Liberdade de expressão não vale nada se forem consideradas apenas ideias favoráveis às próprias crenças

Liberdade de expressão não vale nada se forem consideradas apenas ideias favoráveis às próprias crenças. E isso serve para todas.

Preocupa-se mais em mostrar o que é certo ou errado, permissível ou absurdo, do que inspirar o outro a fazer um julgamento pessoal coerente às suas reflexões e histórias. A preguiça é dupla: de pensar por si mesmo e de tentar entender os reais motivos da opinião alheia.

O discurso de aceitação das diferenças será mais uma jogada política para angariar solidariedade em troca de vantagens egoicas, a menos que se torne um hábito incorruptível.

Estar aberto para tolerar algo a si inaceitável é, em teoria, atitude democrática e, na prática, utopia declarada em sociedades que veem malevolência em dogmas opostos, e ainda se dão ao luxo de não assumir deslizes hipócritas naturalizados inclusive dentro de seus círculos de influência. Muita calma no pregar o livre expressionismo, pois há uma diferença entre ter mente aberta para reduzir a potência dos preconceitos e ter mente aberta e propensa à politicagem. Quando o senso partidário ideológico entra em questão, o circo da barbárie está armado e não faltam atores inseguros e dispostos a menosprezar opiniões alheias para tentar alavancar as suas.

Sempre haverá espaço para crítica, pois as pessoas não gostam de desperdiçar sua capacidade de juízo ao tomarem consciência de fatos e boatos que as influenciam. Então, concorda-se que toda essa liberdade de raciocínio precisa ser policiada por critérios éticos, no intuito de manter um mínimo grau de respeito e organização. Mas quem quiser brigar achará adversários igualmente dispostos; há quem pense que suas opiniões só serão ouvidas se enviadas à guerra. A premente insociabilidade do homem está evidente em seu discurso de repressão moral para firmar o silêncio que julga ser benéfico à segurança coletiva, mil vezes preferido à verbalização total de suas incontinências que o faria ser exilado ou até morto.

A máxima da tolerância foi expressa por Voltaire: “Posso não concordar com uma só palavra sua, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-la”. Hoje está mais para: “Defenderei seu direito de expressão até a morte enquanto não discordar de uma só palavra sua”.

Despir da mente todas as opiniões sinceras não é uma qualidade tão elogiável quanto imediatamente repudiada em sua própria iniciativa. O medo das consequências do livre expressionismo é muito maior que a necessidade de se dizer exatamente aquilo que se acredita, já que a sinceridade também pode levar à intolerância.

Se a todos fosse dado um aval para dizerem tudo, absolutamente tudo que passa na sua cabeça sobre os outros, sem informações distorcidas ou manipuladas para fins de preservação da imagem civilizada, as verdades individuais viriam à generalização e mesmo os relacionamentos mais pacíficos entrariam em colapso conforme fossem descobertos os segredos imperdoáveis e as mentiras indesculpáveis. Sem um pouco de dissimulação não se vive em paz, por mais indecoroso que isso seja e mais genuinidade se defenda.

Quando a liberdade de expressão não é muito valorizada, inexistem problemas maiores em relação à abordagem de tabus. Quando é valorizada, esses problemas são consequências inevitáveis e fazem parte de qualquer manifestação cultural por liberalidade.

Sem autoridade não há como a liberdade atuar de forma íntegra, já que as pessoas não se mostram nem um pouco preparadas para conviver muito tempo em comunidade sem o medo de certas punições a que se submetem por pura necessidade. A aplicação de restrições legais é fundamental para se validar direitos de expressão, mas isso se aceita até o ponto em que a autoridade seja legítima; não sendo, sobrarão rebeldes para todo tipo de causa liberal.

Uma abordagem de expressão permissiva demais prejudica a própria liberdade para exercitar habilidades orais, independente do contexto em que estejam inseridas.

Há um limite ético em qualquer debate civilizado, seja na sala de reunião corporativa, na igreja, na arquibancada do estádio de futebol, no programa de televisão ou na mesa de jantar, onde as palavras de quem fala serão ouvidas enquanto aquele limite for respeitado, e ignoradas ou reprimidas quando violado. Esse limite varia entre culturas e situações, mas existe, pois do contrário o debate vira confronto. A principal diferença entre debate e confronto é que no primeiro há vontade de aprendizado e abertura a novas perspectivas; no segundo, ciúme das próprias ideias e ódio sobre as do outro. Sem um pouco de ciúme não se deixa claro a correspondência ativa entre autor e ideia, mas com ódio aquele ciúme se transforma num indicador de que o autor está inseguro e sua ideia precisa de fortalecimento.

A questão é que pouquíssimas pessoas estão preparadas para ouvir aquilo que discordam, uma vez que a ignorância é popularmente vista como negativa (burrice) em vez de animadora constante da procura do conhecimento.

Quem tem segurança do que fala não se esforça para execrar pontos de vista contrários, pois sabe que estes são tão importantes quanto aquilo que defende.

Atribui-se a falta de respeito à pessoa em si e não aos dogmas a ela associados, e isso expõe aquilo que Saramago disse sobre a dificuldade de tolerância:

“Eu acredito no respeito pelas crenças de todas as pessoas, mas gostaria que as crenças de todas as pessoas fossem capazes de respeitar as crenças de todas as pessoas.”

As pessoas possuídas por suas crenças – que parecem ter sensibilidade e vida própria – se mostram reféns da autocrítica, agindo como se apenas seu mundo fosse verdadeiro, e todos os outros representações de mentes estúpidas e degeneradas.

Toda sociedade contém sua horda de proselitistas, para os quais há um caminho uno e correto que viabiliza a sobrevivência da humanidade. Alguns pseudossacerdotes metem-se na vida dos outros com tanta fluidez e indecência que devem ter uma solução definitiva para o bem estar geral na ponta da língua, esperando apenas a demanda para usar a saliva. Por melhor intenção que porventura aleguem, não podem simplesmente oferecer fórmulas universais para problemas que não condizem a todos, nem tratar todos como se motivados pelos mesmos incentivos.

A simulação de um cenário de hostilidade pode ser feita juntando-se política com religião. É como carregar um galão de álcool na companhia de uma fogueira. Vai explodir, não adianta quão descolada e evoluída seja a sociedade. Se o povo não fosse de alguma forma corrupto, os políticos não precisariam trabalhar para representá-los. E se todos fossem moralmente imaculados, os religiosos não teriam espaço para exercitar suas cruzadas contra o mal.

O preconceito começa no julgamento que se tem da observação. A lei seriamente aplicada punirá racismo, homofobia, discriminação, etc, mas não pode impedir tal julgamento, até porque sem ele não haveria necessidade alguma de se fazer justiça.

Em certos casos, a melhor atitude é o silêncio, mas quem decide se é melhor ou não, aquele que não quer ouvir ou aquele que precisa falar? Esse impasse é vivido diariamente no universo da arte.

Os discursos repressores que se lê por aí são abarrotados de certezas de cunho religioso, então não dá para ignorar a influência legisladora que a espiritualidade exerce na mente de seus oradores. A arte está sujeita a perguntas interpelativas, interpretações contraditórias, provocações críticas e à dúvida sistemática, mas tudo isso confronta a natureza da religião. Não é porque um artista rebelde questiona a ordem das coisas que não tenha princípios morais bem fundamentados, como também ele pode não os ter, mesmo se os manifesta. Entrementes, curiosamente a arte é igual a religião em dois aspectos importantes: 1) Quanto mais se a reprime, mais ela cresce; 2) São bem-vindas em épocas de crise.

O artista que intencionalmente insulta seu público não se merece, nem aquele preocupado em receber feedbacks cem por cento positivos. Algumas das obras mais relevantes da literatura foram censuradas em suas épocas de concepção e, embora inúmeros autores tenham sacrificado a própria reputação na luta pela sobrevivência de seus filhos culturais, nunca é alto o preço a se pagar por fazer alguma coisa responsabilizada com a verdade, desde que não fira o livre-arbítrio dos outros.

Nenhum artista em sã consciência deseja ferir seu público, mas nenhuma obra poderá agradar todo o público e o artista, se depende unicamente do agrado dos outros e precisa o tempo todo fugir do constrangimento social, não sai do lugar.

O problema não está na defesa de apologias em si, mas na tentativa obstinada de recrutar apóstolos para validá-las, como se o objetivo do trabalho fosse puramente aceitação, e a sua realização, um ideal terceirizado. A espontaneidade em produzir obras livres da perseguição de uma crítica opressora raramente satisfaz os populares influenciadores de opinião, porque a obtenção de fama fala mais alto e as empresas que representam não são ilhas. Mesmo se o fazem por conta própria, precisam disputar influência para não desanimar.

Entre morrer de fome a vender sua originalidade em troca de sustentabilidade financeira, a quase totalidade de artistas já se vendeu há muito tempo. Alguns não se orgulham disso, outros estão honrados enquanto a família tem o que comer e onde dormir, e o restante já se voltou contra o sistema.

A arte sempre foi atormentada por um dilema antigo do qual comumente se reclama: traz um senso lúdico de vitalidade, mas não um justo retorno financeiro. Basta fazer um levantamento na mídia e se verá que os artistas mais consagrados são os mais ricos. Inimiga do dinheiro desde cedo, a arte gera alguma repulsa nos capitalistas ferrenhos. Para grande parte de seus entusiastas, a arte não enriquece em termos monetários, mas ajuda a curar a pobreza de espírito.

Os jovens versados em artes e que estão para ingressar no mercado de trabalho são pouco ou nada incentivados por seus pais, estes que, com seu olhar profético, adiantam uma era de vacas magras para seus pupilos sonhadores. Eles dizem: “Ideologia não paga as contas”.

Por que a necessidade absoluta de reconhecimento social faz muitos artistas infelizes? A arte, em si, está completamente despreocupada com a fama; ela não tem um senso de vaidade, mas os artistas sim. Os melhores nem sempre são reconhecidos, pois, muitas vezes, o melhor depende dos favores pessoais concedidos e não de merecimento puro.

Se uma manifestação artística não satisfaz as exigências éticas de uma pessoa, e ela deseja recriminá-la até a destruição na tentativa de salvar vidas, domar prazeres esquisitos e varrer a imoralidade da Terra, está oferecendo mais insumos à arte em vez de resolver essas pendências.

Na publicidade, diversas campanhas sensacionais são frequentemente rejeitadas por violarem os parâmetros de censura morais baseados no modelo comportamental de família tradicional, especialmente no Brasil. Os conservadores são criticados, mas o fato é que complicações jurídicas estão em jogo e não dá para batalhar por ideais artísticos “diferentes” sem uma possível má interferência na saúde dos negócios. O lucro é reduzido à medida que os criadores de família – que detêm enorme poder e influência de compra – decidem sabotar o produto. Os anunciantes são castigados em não providenciar o que se espera deles.

Somente quando a fala causa uma violação clara e direta aos direitos humanos fundamentais a censura é justificada; aquém disso, não. O cidadão que convenientemente manipula um dizer a si inadmissível a fim de poder denunciá-lo terá tanta moral para se defender quanto alguém que distorce aqueles direitos em favor dos bons costumes.

O ódio que destilam por aí é tão óbvio que precisaria haver um renascimento literal na Terra para todos se darem conta de que a arte não serve a ninguém além de si mesma. Se a beleza está nos olhos de quem vê e gosto não se discute, muitos estão perdendo seu tempo tentando induzir a adoção de um modo de vida pacificamente perfeito que o próprio mundo estranha desde seu reconhecimento.

A pornografia é um dos casos mais explícitos de como a liberdade de expressão pode ser execrada; quando envolve crianças, então, não faltam razões convincentes que justifiquem a sua censura. Assim como o trabalho infantil escravo é um ataque à dignidade humana, expor crianças à sexualidade contra sua vontade também. Mas, se elas se mostram curiosas a explorar o corpo humano e seus responsáveis permitem que o façam, estes estarão formando estupradores potenciais? Para grande parte dos moralistas, sim, pois pensam que é melhor prevenir que remediar. Parece correto, só não se pode ignorar o fato de que muitos dos pedófilos mais inescrupulosos tiveram uma boa educação sexual familiar quando crianças. Mal caráter não vem do berço. O que estabelece um crime moral não é a má intenção de cometê-lo, mas a má intenção colocada em prática por livre e espontânea vontade. As crianças carecem de discernimento sobre o adequado ou inadequado, ainda mais em se tratando de sexo. A censura se torna inquestionável nesse caso única e simplesmente para preservação de sua integridade.

Deve haver censura de idade e não de tema ou espécie. Senão, os filmes de guerra serão banidos porque a guerra é um impedimento da paz mundial; as músicas de funk serão proibidas porque incentivam a vulgaridade e objetificação do corpo humano; as organizações tabagistas serão extintas porque inúmeras doenças são causadas pelo hábito de fumar; as empresas que comercializam bebidas alcoólicas terão que fechar as portas porque o alcoolismo é capaz de destruir famílias e vidas; a indústria pornográfica terá que cancelar suas atividades para evitar que fantasias sexuais perversas ofendam o ideal de vida puritana.

Se um livro apresenta um conteúdo ofensivo, que se o feche. Se um filme está causando indigestão, que se pare de assisti-lo. Se uma música está provocando sensações negativas, que se pare de ouvi-la. Haverá quem goste. Embora incontáveis materiais artísticos ofendam uma parcela da população, não é motivo suficiente para censurá-los.

A moderação parte também do esforço do consumidor para discriminar o que lhe agrega valor e o que lhe prejudica moralmente. A liberdade de uns sensatos não pode ser prejudicada pela insensatez de outros. Bom senso é que nem sexo: a vontade é tanto maior quanto mais se o pratica, mas sem correspondência externa vai bem a autocomiseração.

Dos preconceituosos que julgam como cancerígenas expressões artísticas destoantes de tudo que perfaz seu fantástico complexo de normalidade não se espera que possam se redimir e, mesmo que o façam, mais provável que seja para pôr em prática alguma outra artimanha a favor de seus dogmas engessados.

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Eduardo Ruano

Profissional de pesquisa e texto. Eu me considero uma pessoa racional, analítica, curiosa, imaginativa e ansiosa. Gosto de ler, escrever, ouvir Thrash Metal e música eletrônica, assistir filmes e séries, beber e viajar com os amigos. Estudioso de filosofia, arte e psicologia. Odeio burocracias, formalismos e convenções. Amo pessoas excêntricas, autênticas e um pouco loucas, até certo ponto. Estou sempre buscando novas inspirações para transformar ideias em palavras.


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