Jesus pensa em suicídio.

Sentado na sala de sua casa está Jesus. Não o famoso, histórico, amado por muitos e repudiado por vários. É o filho de dona Teresa Mendonça. Deste Jesus a boa parte da humanidade só conhece o nome. Seu corpo é desconhecido e seus pensamentos ninguém sabe. Só ele. E no momento, o pensamento que Jesus está ocultando é um, imenso, mas apenas um.
Jesus pensa em suicídio..
Na casa, agora, está sozinho. O barulho da tevê preenche o ambiente. As vozes do filme batem na parede e ecoam pelo corredor. No corredor há um armário. No armário há um medicamento. Jesus está pensando em tomá-lo pra curar dores antigas e futuras.
Ele levantou. Caminhou até ao armário. Desesperou. Reconheceu o sufoco no peito de um jeito ainda não respirado. Disse sussurando. “Preciso falar com minha mãe.” Voltou pra sala, ligou, ligou, ligou. Enquanto ligava, ensaiava o que dizer. “Mãe, eu quero morrer.” “Mãe, hoje é meu último dia.” “Mãe, eu te amo.” “Mãe, aquele pote de sorvete sumido em 1996 foi eu que comi.”
“Mãe…” Ela não atendeu.
Dona Teresa está dormindo às duas da manhã. Se pudesse, se soubesse, estaria acordada. Era difícil saber. Seu filho parecia bem. Não lamentou muito a perda do último emprego, forte e determinado logo estaria por aí brilhando. Ela sonha.
“Preciso falar…” sussura Jesus, agora discando o número de uma amiga. Telma. Telminha, namorada de Júlio, pernas fortes de futebol. Discou. Não planejava mais o que falar. Falaria o que conseguisse, gritaria, berraria. Ultrapassaria as falas humanas e urraria pela angústia animal sentida. Mas Telma também dorme às duas da manhã.
O filme na tevê acaba. Começam os primeiros jornais do dia. São cinco da manhã. Jesus me liga.
“Oi. Desculpa ligar essa hora. É que preciso falar com alguém…”
Respondo, cerimonialmente. “Senhor. Infelizmente este ramal é apenas para tratar do nosso serviço de internet. Caso queira…” Jesus me desliga na cara.
São oito horas da manhã e toca o telefone. É dona Teresa. São oito e vinte. Toca o telefone.

É Telminha. São 10 horas da manhã. Toca o telefone. Sou eu querendo vender pra Jesus alguns megas a mais.
Ele não atendeu ninguém. Não sabemos se morre ou está cansado de pedir socorro. Em ambos os casos, a vida afunda.

COMPARTILHE
Alan Lima
"Escrevo porque fui alfabetizado um dia. Nada é meu, tudo é aprendido. Sou um autor de textos de todo mundo. O meu texto é pra ser isso, é pra ser teu."Um dos editores do Conti Outra e integrante do fan club de gifs de cachorros.



COMENTÁRIOS