História dos desejos

Vou lhes contar uma história. É uma história que fala dos nossos desejos e sonhos. Não dos sonhos que temos dormindo, mas daqueles que construímos quando estamos sozinhos, quando na cama, esperamos o sono chegar, nos momentos de recolhimento.

Nessas horas começamos a criar histórias. Elas expressam os desejos do nosso coração. Sonhamos com a família, profissão, amor, amizades, viagens, realizações. Sentimos facilidade de contar certos sonhos, mas há outros que não queremos contar.
Alguns sonhos são tão profundos, tão gostosos, tão bons, que se tornam cada vez mais preciosos, como ouro escondido. Alguns chegam a assustar e são guardados em segredo. Parece que quanto mais importante é o sonho, mais medo de contar.

Hoje vou falar sobre um sonho, onde vivia eu muitas aventuras, me sentia realizado. Eu era um herói e salvava as pessoas que amava do perigo. Nas histórias que sonhava eu havia encontrado o melhor de mim. Lá eu colocava tudo de mais bonito, de mais rico. Lá eu podia realizar todos os meus desejos.

Porém, na hora de passar do sonho para a realidade, tudo se complicava. A cabeça ficava em branco, a boca secava, sentia vergonha, pânico. Eu também tinha um sonho ruim. Era um pesadelo: as pessoas não compreendiam o meu sonho e riam de mim. Aí, eu sentia medo e percebia que meu sonho, que me fazia tão forte, também me fazia muito fraco. O sonho me fazia ficar enorme dentro dele e pequeno na realidade.

Quando chegava perto da realização dos meus sonhos, eu ia diminuindo, quase virava o Pequeno Polegar. Outra sensação vinha junto: as pessoas ficavam enormes e poderosas, como se fossem donas do meu sonho.

No entendimento e na aceitação das pessoas, ficavam todos os meus sonhos. Eu ficava na dependência das pessoas me dizerem, sim ou não. Vocês não imaginam como tinha medo que as pessoas rissem de mim. Percebi que meus sonhos, poderiam ser destruídos de uma hora para outra. O que tinha sido fonte de prazer, de realização, de entusiasmo, poderia se evaporar e se transformar numa fonte de vergonha.

Esses eram os meus medos. Mas, enfim, uma hora os sonhos começam a ser tornar realidade. Porém, a realidade não é igual aos sonhos. O emprego dos sonhos, na realidade era cansativo e ás vezes difícil demais. O amor na realidade, nem sempre era compreendido, ás vezes esquecido, dando lugar a mágoas e rancores. O dinheiro acabava, as pessoas iam embora, as amizades eram frágeis.

A realidade se tornava difícil e às vezes cansava, estressava e tirava o sono. Nesse ponto os meus sonhos começavam a desmanchar. Eu não sabia se gostava mais dos meus sonhos, porque eles na realidade, não eram como eu sonhava.
Percebi que meus sonhos se desmanchavam exatamente porque eu tinha a sorte de realizá-lo; mas o sonho realizado não era tão bonito como o sonhado. Esses sonhos aos poucos morriam. É uma tristeza quando o sonho acaba. Toda vez que temos um sonho muito precioso, muito curtido, no qual escrevemos muitas histórias, e esse sonho morre, nos sentimos solitários.

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Em conversas com outras pessoas, percebi que elas, frequentemente, sentiam que os sonhos atrapalhavam suas vidas. Quando contava algum sonho da minha profissão, dos filhos que eu teria um dia, da realização de uma família, de um grupo de amigos, elas me diziam: “Você é um bobo que fica fora da realidade; o mundo não é assim, a realidade é muito diferente”.

Quando as pessoas falavam assim, quando achavam ridículo os meus sonhos, eles eram destruídos. Eu me sentia meio encurralado, como se tivesse que concordar com elas. De fato, os meus sonhos não eram a realidade, meus sonhos eram meus sonhos, eram o meu desejo e não a realidade do mundo. Nesses momentos, eu me encolhia todo e largava dos meus sonhos.

Depois, me dei conta de que, muitas vezes, essas pessoas também já havia sonhado. Algumas diziam: “Quando eu era adolescente, tive muitos sonhos, mas a vida me mostrou que a realidade é outra”. Compreendi que as pessoas gostavam de mim, não queria me ferir, mas feriam. Elas tinham ficado presas em seus sonhos mortos. Ainda estavam tão machucadas com a morte dos seus sonhos que ficavam aflitas de me ver sonhando, pois achavam que eu iria sofrer.

É verdade, podemos sofrer por causa dos nossos sonhos, mas isso não é necessariamente ruim, embora seja triste. Tive a impressão que aquelas pessoas carregavam cadáveres de seus sonhos mortos pela vida. Isso às deixavam rancorosas, céticas. Elas queriam que não existissem mais sonhos, que as pessoas se tornassem realistas, práticas, pés-no-chão, assim ficavam secas, duras.

Numa certa época, cheguei a pensar que elas estavam com a razão, que sonhar era perigoso, machucava. Mas com o tempo, descobri, outro tipo de gente: os teimosos! Esses também haviam sonhado e o sonho havia morrido em qualquer circunstância. Mas eles me ensinaram, que o sonho havia morrido, mas a força que estava nele continuava, sem se mostrar, meio escondida. Foi isso que os teimosos me ensinaram: os sonhos morrem, a força dele, não; ela apenas se esconde, e podemos trazê-la de volta.

Então, enterre seus sonhos mortos! Quando enterramos um sonho e guardamos a força de sonhar, nesse momento nos preparamos, mantendo a força para o momento seguinte. Então os sonhos renascem, e outras histórias recomeçam. Os sonhos antigos, não foram esquecidos; eles estão lá na força escondida dos nossos sonhos novos.

Eu gostaria que vocês se tornassem teimosos. Uma teimosia que aceita a morte dos sonhos, mas que encontra no enterro de cada sonho a força de sonhar. Queria que estivessem dispostos a sonhar de novo, de novo e de novo. Se vocês se tornarem esse tipo de teimosos, terão maior chances de serem felizes.

Essa teimosia, essa possibilidade de lutar pelos sonhos, é um segredo, mas não deveria ser, deveria se espalhar e ser dito por todo mundo.

sonho

 

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Tirza Balmant
Tirza é psicóloga e acredita que fazer terapia não é um ato de fraqueza, nem loucura, mas uma demonstração de coragem, lucidez, força e determinação para mudar o que te impede de ser feliz"



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