A gente não pode ajudar, com as próprias mãos, uma borboleta a sair do casulo

Imagem de capa: Iuliia Khabibullina/shutterstock

Esses dias eu tive a sorte de presenciar a linda e forte cena de uma borboleta saindo do casulo.

Já havia visto antes um passarinho saindo do ovo. E, em ambas as situações, o sentimento que me surgiu ao assistir assim tão de perto foi dor, a dor da transformação, a dor do nascimento. Uma lagarta não vira borboleta de uma hora para outra, uma borboleta não sai de um casulo com a facilidade e a leveza que suas asas simbolizam. Vendo assim de perto, noto que é um processo longo e doloroso.

Devagarzinho a borboleta vai se despindo do casulo, com as maõzinhas cria uma fresta e vai sentindo o ar de fora, vai abrindo uma janelinha, e vai empurrando o próprio corpo ainda encolhido para fora de seu confortável abrigo. É tudo muito lento, com pausas no percurso, um passo de cada vez para se acostumar com o novo. E quando o corpo todo deixa o casulo, a borboleta ainda está toda encasulada, seu corpo comprimido, suas asas dobradas, mesmo fora da casca, sua estrutura ainda está apegada. É devagar que as asas vão se esticando, se abrindo, revelando o colorido e as dimensões.

Quanta coragem e força precisou ter esse ser intermediário entre lagarta e borboleta para poder encontrar o mais pleno de si? Quanta luta consigo mesma precisou a borboleta desempenhar para entender que mesmo que tão quentinho, confortável, familiar era a sua situação de lagarta no casulo, era menos do que ela veio ser neste mundo? Chega uma hora de maturação que as leis do universo nos impulsionam a rompermos nossos casulos. Vai haver dor? Sim, mas ficar já não é mais uma opção.

Ah, mas e essa persona de lagarta que a gente já sabe ser? E esses territórios já tão conhecidos, os ambientes conquistados, essa facilidade de ficar nos galhos?… E essa hibernação do casulo, é tudo tão confortável (e duro!)? É mais fácil continuar sendo o que se é… Não é? Como podemos querer abrir frestas para uma nova versão da gente mesmo? E deixar para trás as nossas firmes verdades, e reaprender a andar (ou a voar!), e nos olhar no espelho e nos desconhecermos por completo?!

Arte: Charlie Davoli

Como podemos querer abrir em nós mesmos uma nova versão de ser no mundo? Se essa que eu uso hoje já me cai bem, já conhece os caminhos (e os esconderijos). Pra que passar por uma dolorosa transformação, se eu não mais serei eu, se eu vou perder o chão que com tanto custo cultivei?! Que monstro é esse que mora em mim e que quer ser eu em meu lugar? Como eu vou deixar? Como vou parar para escutar esses ecos que vão me matar?!

Não! É melhor a gente ligar alto a televisão, é melhor se afundar no trabalho, e chegar em casa cansado pra não ter que encarar nada disso. É melhor tomar um comprimido, reclamar o tempo todo como um disco riscado e não parar para olhar o que realmente está errado e martelando na nossa alma. É melhor acreditar nessas paixões que nos machucam, nessa solidão como destino, nessa nossa condição de vítima. É melhor curvar as costas, reprimir a alma, fazer vista grossa para o que na gente quer ser grande! É melhor não escutar o silêncio e não encarar-se no espelho por muito tempo.

É melhor mesmo?

A gente não pode ajudar, com as próprias mãos, uma borboleta a sair do casulo…

Está nas mãos dela, está na ousadia de suas asas.

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Clara Baccarin
Clara Baccarin é paulista dos interiores, nascida nos anos 80. É escritora, poeta e agitadora cultural. Faz parte do grupo editorial Laranja Original e escreve regularmente para o site Conti Outra. Publicou, pela editora Chiado, o romance poético Castelos Tropicais (2015) e a coletânea de poemas, pela editora Sempiterno (2016), Instruções para Lavar a Alma. Em 2017 lança, em parceria com músicos e compositores, o álbum Lavar a Alma, que reúne 13 de seus poemas musicados.

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